uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Perfeição? Não trabalhamos!

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(post publicado originalmente no blog Mamíferas, em setembro de 2011)

Trabalhar na net é uma coisa engraçada. O contato pela tela do computador, a falta do olho no olho, do toque, da respiração que se sente e então se compreende o outro com seus sentires, particulares e o que quis dizer – tudo isso cria couraças na comunicação. Sem querer e sem perceber, conceitos equivocados se cristalizam e, uma vez cristalizados, é difícil derrubá-los.

Quando tenho a oportunidade de encontrar pessoalmente com uma mãe que nos lê, acontecem coisas curiosas. Muitas acabam me achando antipática, porque a timidez galopante que supero com facilidade quando estou por trás do meu teclado, no téte a téte transparece, e acabo ficando bastante lacônica, pouco comunicativa. Outras me olham com um certo ‘endeusamento’ que me incomoda bastante. “Você é a Tata, do mamíferas??” – perguntam, arregalando os olhos. Respondo que sim, e que não. Sou essa, mas sou outra.

Outro dia, uma amiga me fez um comentário: “acho que muita gente que te lê queria ser igual a você”. Minha resposta, imediata e absolutamente sincera: “eu também queria ser igual a mim”.

A Tata idealizada, perfeita, mãe sorridente e zen 24 horas, que nunca se angustia ou fica em dúvida, nunca perde a paciência, sorri até ter câimbras nos cantos dos lábios e tem nos bolsos as respostas para todas as questões cruciais da maternidade, só existe na cabeça de quem, na leitura, construiu essa persona para me vestir. Todos os dias, na vida – que chamamos – real, eu sou uma outra Renata, bem diferente: alguém que tem muito prazer na maternidade e curte sim esse papel, e portanto fala disso com muita alegria, entusiasmo e convicção, mas que cansa, duvida, entristece, esgota, como todo mundo – de carne e osso.

Ter um blog público, compartilhar seu cotidiano e abrir, uma a uma, suas experiências, deixa-nos muito expostas. E algo curioso acontece: perde-se o controle sobre a própria imagem, sobre a própria experiência – cada um a interpreta como lhe convém, como pode, como lhe cabe, como melhor lhe parece. Cada um dá à experiência compartilhada o significado que necessita, para atender às próprias questões.

Por vezes, sinto nos comentários que nos colocam em um pedestal, quase com veneração. Como se as ‘mamíferas’ fossem uma entidade inatingível, beirando a perfeição. Essa idéia me incomoda bastante, porque nada poderia ser mais distante da realidade: estamos todas no mesmo barco, tentando, fazendo o melhor, aprendendo com os acertos, e com os erros também.

É verdade que essa idealização tem também o seu lado bacana – é servir de exemplo para tanta gente que busca ter mais consciência e responsabilidade, empoderar-se na própria vida, e na própria maternidade; é poder ser inspiração e até mesmo incentivo para quem vive um momento de dificuldade, para quem duvida que pode, para quem se vê em uma encruzilhada. É bom saber que se pode inspirar – porque aí uma coisa muito bonita acontece: enquanto se inspira o outro, inspira a si mesmo também. É um círculo virtuoso, em que a energia positiva de aprendizado, melhoria e amadurecimento, não finda nunca. A cada dia, eu acordo querendo ser melhor e fazer melhor, para corresponder. Disso, eu gosto bastante.

Então é assim, como tudo na vida: os dois lados da moeda. Se tem um dia ou outro em que eu boto o pé para fora da cama e tudo o que desejo é gritar por aí minha humanidade, meu direito de errar e cometer engano e ter medo e insegurança como todos, há também aqueles dias – que até hoje têm sido maioria, ainda bem – em que brota aqui dentro um orgulho exagerado pelo trabalho que compartilho, pelas revoluções tantas que ajudo a principiar, pela diferença que faço na vida de tanta gente.

E brota também uma felicidade desavergonhada, pelo tanto de beleza e intensidade que a vida traz de volta para mim, em forma de experiência, de agradecimento, de aprendizado. Faz lembrar aquela velha canção que dizia: “o amor que você dá é igual ao amor que você recebe”.

Sabe que é? É, mesmo.

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Publicado em 12 de setembro de 2011 por e marcado , , , .
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