uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Que tu virias numa manhã de domingo… parte II

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Continuando…

Já era noite e Ana Luz e Estrela já dormiam quando as contrações começaram a apertar e resolvemos que era hora de chamar as parteiras, que a essa altura acompanhavam outro parto domiciliar: o pequeno-grande Caetano, filho da minha querida amiga-irmã Mariana (nessa altura, pouco nos conhecíamos, mas já torcíamos uma pela outra), nasceria algumas horas depois de Chiara. Entramos em contato, e Priscila continuou por lá, enquanto Márcia veio sozinha para a nossa casa.

Dali a pouco, ela chegou.  Veio trazendo a banheira, e o marido foi se virar para encher – um trabalhão danado, já que só tínhamos água quente no andar de cima e a banheira ficou no andar de baixo, bem no meio da sala de jantar. Enquanto ele subia e descia munido de mangueira e baldes ajeitando tudo, Márcia veio me fazer companhia e assumiu o posto de massagista oficial do TP – a cada contração, me fazia massagens na base das costas com óleo de calêndula. Entre uma contração e outra, jogávamos conversa fora, no maior papo de comadres. Eu estava na maior animação, sem qualquer medo do que estava por vir – eu me sentia forte, capaz e bem acompanhada.

Com a banheira cheia, fui para o andar de baixo. Douglas, o neonatologista, tinha acabado de chegar – presença silenciosa que quase nem percebi. As contrações começaram a apertar, e eu entrei na banheira. Desde o início da gestação, eu havia imaginado Chiara nascendo deliciosamente na água – visualizar a chegada dela da maneira que eu gostaria que acontecesse foi algo que me habituei a fazer desde os primeiros meses de gravidez, confiante no poder das boas energias e mentalizações. Mas uma vez na banheira, procurei posição: virei de um lado, virei de outro, mas não encontrava conforto. O início de madrugada estava bem gelado, e eu sentia frio na parte do corpo que ficava para fora da água. Se me deitava, na tentativa de ficar toda encoberta, a posição era incômoda. Fiquei ali tentando encontrar alívio durante algumas contrações, mas minha pressão baixou. Comecei a sentir tontura, fraqueza e desconforto, e resolvi sair. Não, minha filha não nasceria na água – e esta seria apenas uma, entre as muitas demonstrações que esta bichinha ainda viria a me dar, de que ela era quem estava no comando, e não eu.

Fui para a sala de estar, e a coisa se intensificou para valer, de uma vez. Aquele momento em que, no carrinho da montanha-russa, a gente pensa: “eu quero sair deste brinquedo!!”, mas já é tarde demais. As contrações apertaram, vinham quase sem intervalo, e muito dolorosas. Em um relance de memória, pensei no meu primeiro parto: quando as contrações ficaram mais fortes ainda tivemos pelo menos umas oito horas de trabalho de parto pela frente, mas elas vinham espaçadas, e entre uma e outra havia tempo para eu respirar e me recompor. Dessa vez, elas vinham grudadas uma na outra, sem que eu tivesse tempo de tomar fôlego, ganhar força, ou mesmo raciocinar. Tomando por base como tinha sido da primeira vez, imaginei-me encarando contrações fortíssimas e sem descanso por mais oito horas, e jurei que não aguentaria. Depois de dar uns gritos que acordaram os vizinhos (já passava da meia-noite) e lançar mão de todos os palavrões que me vieram à cabeça, apelei para a velha e boa saída pela tangente: pedi que me levassem para o hospital. “Eu quero uma anestesia AGORA!”, bradei.

Eis o diferencial de uma atenção ao parto baseada no respeito às escolhas da parturiente, de um cuidador afinado com os seus desejos e capaz de manter a serenidade quando ‘o bicho pega’. Com toda doçura do mundo, Márcia me abraçou. Entre lágrimas – eu nem sabia, mas já estava passando pela fase de transição, que logo emendaria no expulsivo a jato cujas três forças trariam Chiara ao mundo –, ouvi sua voz doce e acolhedora: “Rê, calma. Você não quer ir para o hospital. Você quer que a Chiara nasça em casa, e isso é muito importante pra você. E você está indo bem, ela está ótima. Vocês duas vão fazer isso juntas. Eu estou aqui pra te ajudar”.

Foram pouca palavras, mas de um significado tamanho que não caberia neste texto. Um momento decisivo, em que retomei meu centro e me reconectei à força interior que perdera de vista alguns minutos antes. Respirei fundo. Fechei os olhos e, em silêncio, imaginei Chiara comigo, nos meus braços, em casa –  e pela primeira vez a imaginei nascendo fora da água, na penumbra da nossa sala, como de fato aconteceria dali a pouco. Quando abri os olhos novamente, eu já tinha voltado a confiar. Sentia-me de novo capaz.

Desse momento em diante, é difícil descrever objetivamente os fatos: eu já estava na partolândia, totalmente entregue. Fui tomada por uma força desconhecida, instintiva, virei bicho, fêmea pronta para parir. Como nas meditações ativas que pratico há mais de dez anos, vi meu racional se desligar completamente para que reinassem soberanos os desejos do corpo: andei em círculos pela sala, e quando a vontade de fazer força – totalmente instintiva e incontrolável – veio, aceitei a posição instintiva: fiquei de cócoras. Eu, sedentária de carteirinha, zero de condicionamento físico, me acocorei no meio da sala, tomada por uma força que não saberia explicar. O marido, atento e presente, veio me sustentar por trás. A parteira sugeriu que fôssemos para o sofá, e foi o que fizemos: ele se sentou, me sustentando por trás enquanto eu me acocorava novamente, para mais uma força – a segunda. Na terceira, de uma vez só, Chiara nasceu.

Nossa pequena-grande geminiana veio ao mundo na nossa sala de estar – a mesma onde escrevo agora esse relato –, às 00h30 do dia 24 de maio, com três quilos e meio e a mãozinha protegendo o rosto, o que me rendeu uma laceração razoável no períneo. Nossa pimenta-caçula nasceu empelicadinha, ainda dentro da bolsa, que se desfez diante dos nossos olhos como uma enorme bolha de sabão. Dizem que nascer empelicado é sinal de boa sorte – eu não duvido. Márcia a pegou e imediatamente a trouxe para o meu colo. Eu a abracei. Ela não chorava, nem eu – fui invadida por uma sensação devastadora de êxtase, de vitória, como quem alcança a linha de chegada após correr uma maratona exigente, durante cujo trajeto chegou a duvidar da própria capacidade de completar o percurso. Chiara me abriu seus olhinhos cinzentos, curiosos. Em voz baixa, para que só ela me ouvisse porque aquele momento era só nosso, eu disse: “nós conseguimos, meu amor, você e eu, nós conseguimos!”.

Enquanto Chiara nascia, Ana Luz e Estrela vinham descendo a escada. Pararam nos degraus do meio e ficaram assistindo dali, maravilhadas. Hoje, quatro anos depois, elas ainda comentam  aquele pequeno instante em que todos renascemos. Meses atrás, perguntei a elas qual havia sido o momento mais feliz de suas vidas. Estrela respondeu rápido, sem titubear: “o dia em que a Kiki nasceu!”. Creio que isso diz muito sobre a importância deste nascimento, acontecido como aconteceu, para a nossa família.

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Chiara ainda ficou um bom tempo comigo, silenciosa e tranquila, aninhada no meu peito. Pari a placenta ainda com ela em meus braços, e depois a passei ao pai para que Márcia pudesse suturar a laceração – de segundo grau, se bem me lembro – no períneo.

Parir Chiara no meio da minha sala de estar, de cócoras, cercada de gente querida, em um ambiente de segurança, tranquilidade e amor, foi para mim uma redenção, um reencontro: comigo mesma, com a fêmea parideira, com uma força interior que, após o primeiro parto, eu cheguei a duvidar que tivesse. Nasceu minha pimenta-caçula, a geminiana mais doce e atrevida que eu já conheci, e eu renasci: nasci de novo como mulher, e como mãe. Naquela madrugada gelada de maio, entre silêncios e palavras de encorajamento, eu não pari apenas Chiara – pari uma nova Renata, que até hoje, quatro anos depois, ainda se surpreende ao perceber do que é capaz.

Depois de tudo, uma certeza: eu caminhei muito para chegar até aqui. Um longo caminho feito de aprendizado, de tentativas, de tropeços, de coragem para olhar as experiências vividas, para assumir responsabilidades – mas nunca de desistências. Um longo percurso – por vezes lindo, por vezes dolorido – em que cada centímetro percorrido teve seu significado, sua importância, e valeu a pena.

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Não posso terminar este relato de parto sem agradecer aos que estiveram a meu lado, apoiando, encorajando, respeitando – agradeço pelas palavras de incentivo e pelos silêncios, pela presença e pelo amor sem reservas. À Márcia, parteira querida e amiga querida, presença de luz cuja serenidade foi fundamental para que eu me mantivesse inteira, para que eu não perdesse a valentia; à Priscila, outra parteira iluminada, ausente de corpo mas presente com o coração; à Liliana, minha mãe, pelo amor teimoso e insistente, pelo exemplo de mulher que foi para mim desde sempre, e pelo cuidado com minhas meninas; ao Renato, marido, parceiro, amigo, pelo sonho compartilhado, pelo desprendimento de desapegar-se das próprias certezas, dos próprios medos, em nome de uma caminhada a dois – pelo amor imenso, tão generoso e valente; às minhas filhas mais velhas, Ana Luz e Estrela, pela linda oportunidade de tornar-me uma pessoa melhor, por terem me tornado mãe e me aberto os olhos para tantas coisas desconhecidas e maravilhosas, pelo que me ensinam todos os dias sobre amor, entrega e inteireza. E é claro, ‘last but not least’, à minha caçulinha, minha pequena Chiara, guerreira desde o primeiro minuto, pela valentia de vir ao mundo sem pedir licença. Obrigada, minha menina – entre tantas coisas, você veio me ensinar que quando a vida nos surpreende, é que ela é mais bonita.

 

(leia também a primeira parte deste relato, e o relato do nascimento da Chiara pelos olhos do pai)

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Um comentário em “Que tu virias numa manhã de domingo… parte II

  1. Claudia
    4 de novembro de 2014

    Que relato lindo!!

    Estou entregue as lágrimas *-*
    Minha DPP é para o próximo dia 17 e terei ela de cócoras tbm…

    Estou maravilhada 😀

    Parabéns!

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Publicado em 11 de abril de 2013 por e marcado , , , .
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