uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Que tu virias numa manhã de domingo…

barrigachiara

A história da nossa pimenta-caçula, a geminiana mais encardida e encantadora do pedaço, começou em uma sexta-feira de agosto de 2008. Depois de uma deliciosa noite a dois, a certeza: eu havia engravidado. Não sei explicar o sentimento – que aliás, não vivenciei com as filhas mais velhas –, mas desde o primeiro instante em que Chiara veio ‘com a cara e a coragem pra dentro de mim’, como dizia a canção que marcou o início dessa gestação, eu soube. Sem duvidar, eu simplesmente soube.

O marido, engenheiro pragmático e racional, duvidou. Lá se foi para a sala, munido de lápis e papel, mergulhar em números e contas, de posse da data da minha última menstruação e da duração média do meu ciclo. Ao final de seus rabiscos ininteligíveis, deu seu veredito, taxativo: ‘impossível você ter engravidado hoje! “. Do alto da minha certeza, totalmente subjetiva e desafiadora dos números, fiquei quieta e sorri.

Marido foi viajar a trabalho, para passar vinte dias fora. Eu, sozinha com as duas filhotas, então com três anos e pouco, peguei uma catapora galopante que me deixou na cama por dias a fio, sem ter forças nem para ir ao banheiro. Totalmente entregue.

Passada a tormenta, marido de volta, pedi a ele que fosse buscar um teste de farmácia. A menstruação nem havia atrasado ainda, mas a certeza só se solidificava. Teste comprado, teste feito, resultado positivo. Dei a notícia a ele em uma situação no mínimo inusitada, digna de um filme de Almodóvar: eu, sentada no vaso sanitário; ele, escovando os dentes sob o chuveiro – atônito, a boca entreaberta deixando escorrer a pasta de dente. Se fechar os olhos, ainda vejo a cena.

Foi uma gravidez tranquilíssima, e muito curtida. Diferentemente da primeira experiência, em que mergulhei de cabeça nas listas de discussão, nos grupos de gestantes e nos cursos de preparação para o parto, dessa vez quis me voltar para dentro. Das lições (tantas!) aprendidas no nascimento das filhas mais velhas, e na minha caminhada materna desde então, uma era mais importante do que as outras: o caminho do empoderamento era solitário. Tratava-se de uma batalha minha comigo mesma, a descoberta da minha força e da minha confiança na capacidade de parir naturalmente. E eu estava aprendendo a confiar.

O pré-natal foi feito desde o começo com uma parteira, já escolhida para me acompanhar desde muito antes da gravidez. Ela havia sido minha consultora de aleitamento no primeiro mês de vida das filhas mais velhas, e sua ajuda havia sido tão preciosa, e o vínculo que havíamos construído tão bonito e poderoso, que quando me vi grávida novamente não tive dúvidas sobre quem me acompanharia. A Márcia Koiffmann, enfermeira obstetra que recebeu minha caçula neste mundo, foi um daqueles encontros que quando acontecem, a gente se sente presenteado pela vida. Tê-la acompanhando minha gestação desde o início, não tenho dúvidas, foi fundamental para que as coisas tenham caminhado tão tranquilamente.

As consultas eram feitas em domicílio, o que acrescentava familiaridade, serenidade e doçura ao processo. Meu marido estava sempre presente, participativo, empoderado, apoiando – o mesmo marido que, quando cogitei um parto domiciliar na primeira gestação, havia me respondido, quase suplicante: “eu só te peço uma coisa: que seja num hospital!”. E agora estava ali, sonhando um novo sonho junto comigo, sem questionar, ao meu lado com todo amor do mundo. As filhas mais velhas participaram também de algumas consultas, ouviram o coraçãozinho da irmã, felicíssimas. Lá pela trigésima-tanta semana de gestação, conheci também a Priscila, enfermeira-obstetra que atendia junto com a Márcia. Mais um encontro especial, mais um enamoramento à primeira vista: outra pessoa doce e especial que ganharia também um espaço no meu coração. Uma destas consultas foi registrada em um vídeo que fiz para um site no qual eu escrevia na época. O vídeo já teve mais de duzentos mil acessos, e até hoje há quem assista. Eu adoro rever.

Assim foram transcorrendo as semanas, a barriga crescendo, a vida caminhando – durante a gravidez, cuidei de reforma da casa e mudança, adaptação das filhas mais velhas na escola, além das rotinas diárias de mãe, dona de casa e profissional autônoma. Ritmo doido, mas eu me sentia bem – satisfeita, forte, contente da vida.

Quando a data prevista para o parto foi se aproximando, foi surgindo nas consultas o tema ‘plano B’. Eu fui taxativa: recusei-me a ter um plano B, não escolhi um hospital de referência e não permiti que o assunto fosse sequer discutido – simples assim. Eu tinha para mim que Chiara nasceria em casa, e ponto final. Acreditava nisso com uma certeza nascida bem do meu lado de dentro, e que não admitia contestação. Depois da transferência para o hospital no primeiro parto, que desencadeou uma série de intervenções indesejadas que me doeram durante muito tempo, eu sabia que ir para o hospital, desta vez, não seria uma escolha, apenas falta de, se fosse o caso – e eu tinha certeza que não seria. Eu não queria sequer permitir que a possibilidade, o ‘e se’, tomasse conta do meu coração e minasse a minha força. Deixei isso claro para a parteira e para o marido: eu só iria para o hospital em caso de absoluta necessidade, emergência mesmo – e nesse caso, seria o hospital mais próximo de casa por questão de segurança, então não havia o que discutir. Não digo que seja o melhor caminho, e entendo que muitas gestantes se sintam mais seguras e confortáveis com um ‘plano B’ à mão, já pensado e analisado. Mas essa foi a minha experiência: meu ‘plano A’ era tudo o que eu tinha, e eu acreditava nele com todas as minhas forças.

Tive o primeiro ‘alarme falso’ de TP com exatas 37 semanas. Depois, vieram outros. Por horas a fio, tinha contrações reguladas e razoavelmente doloridas. As parteiras chegavam a vir até a minha casa, e constatavam o mesmo: 1 cm de dilatação, colo grosso e nem sinal de Chiara querer vir ao mundo. Minha menininha já dava mostras de sua futura personalidade: só viria a seu tempo, nem um minuto antes. A cada novo alarme falso, eu desacreditava: mãe de terceiro filho levando baile para reconhecer o início do trabalho de parto, pode isso Arnaldo? Márcia e Priscila, sempre doces e serenas, me consolavam dizendo que trabalho de parto que começa em doses homeopáticas, com alarmes falsos aqui e ali, quando engrena é de uma vez: parto liso e rápido. Eu, depois das catorze horas de TP ativo no nascimento das mais velhas, duvidava.

A DPP, 14 de maio, veio e passou. Esperamos que Chiara se animasse a aniversariar junto com as irmãs mais velhas, que completariam 4 anos no dia 19. Mas este dia também veio e passou, e lá fui eu de barrigão e tudo levar o bolo de aniversário das filhotas para o parabéns na escola, buscar brigadeiros para uma mini-festinha em casa, à noite, junto da família. Ninguém me perguntava sobre o trabalho de parto – já me conheciam bem para saber que seria mais prudente evitar fazê-lo. Melhor assim.

Chegou o dia 23 de maio, um sábado quente e ensolarado. Depois de um namoro básico pela manhã, as contrações voltaram. Mais fortes. Ritmadas, insistentes, como de costume. Chamei novamente as parteiras, que vieram rapidamente e em dupla. O exame revelou 3 cm de dilatação, mas ainda fase latente. Ficaram de sobreaviso, e foram atender outra gestante – aliás, hoje uma querida amiga, cujo filhote, o lindo Caetano, nasceu poucas horas depois da nossa pequena Chiara.

Ao longo do dia, as contrações aumentaram. Cada vez mais fortes. Ainda tudo latente, mas comecei a achar que dessa vez, ia mesmo. Chamei minha mãe, para ficar com as filhotas mais velhas. Sempre quis as duas ao meu lado, acompanhando o nascimento da irmã, mas queria ter alguém por conta delas, para que eu não precisasse me preocupar. A avó daria conta do recado, e lindamente.

Com minha mãe em casa, saímos para caminhar, maridão e eu. Andamos pelo bairro por longas horas, jogando conversa fora. De meia em meia quadra, eu me acocorava no meio da rua, para dar conta da contração. As pessoas ao redor olhavam, estranhando. Quando as contrações apertaram, resolvemos voltar: o marido se viu aterrorizado pela perspectiva de ter que me levantar – eu e os meus, àquela altura, 90 quilos (!!!) – quando eu não desse conta de fazê-lo sozinha.

Com as filhotas mais velhas deliciosamente grudadas na vovó, fomos nos curtir um pouquinho: tomamos sorvete e assistimos uma ‘maratona E.R.’, um dos nossos seriados favoritos. Quem nos visse na cama, na maior tranquilidade, não imaginaria tratar-se de um casal prestes a encarar um trabalho de parto: ficávamos juntinhos, abraçados; a cada contração, eu me levantava e sentava na bola de yoga, rebolando enquanto o marido me fazia massagens na base das costas. A dor ia aumentando, mas eu estava feliz: com quase 42 semanas de gestação, eu finalmente ia conhecer minha filha caçula do lado de fora. E sobretudo, eu ia parir: na minha casa, com a minha força.

 

(continua…)

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Publicado em 26 de abril de 2013 por e marcado , , , .
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