uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Quando aprender rima com prazer

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foto: Renata Penna

A moça que começou a trabalhar aqui em casa há pouco tempo, querendo puxar papo com as meninas, pergunta:

– Qual a hora favorita de vocês, na escola? O recreio, né? O que eu mais gostava na escola na minha época era o recreio, ficava contando os minutos para terminar a aula e dar o sinal!

Ana Luz e Estrela se entreolham intrigadas, com cara de desentendidas. Para começar, elas desconhecem o conceito de recreio, mas mais estranha ainda, para elas, é a visão de escola como um lugar chato, enfadonho, cansativo, cuja única oportunidade de diversão se dá precisamente no intervalo entre uma aula e outra.

Quando amigos, parentes ou conhecidos perguntam a elas o que fazem na escola, a resposta vem rápida, certeira: “a gente brinca, e aprende”. Uma coisa ligada à outra, sem dissociação. É assim que acontece por lá: do brincar, da alegria, do entusiasmo, nasce o aprendizado. Aquele verdadeiro, que fica gravado na mente, na alma e em cada pedacinho do corpo.

Diante de uma resposta como essa, reparo sempre no olhar incrédulo dos adultos que desconhecem a proposta, ou mesmo que a conhecem um pouco, mas duvidam de sua eficácia: “mas… elas estão mesmo aprendendo??”. Aprender com alegria, ao que tudo indica, parece ainda uma utopia distante, senão totalmente inatingível, para o senso comum. Estamos, aparentemente, demasiado contaminados pela ideologia cristã que há séculos nos convence de que só por meio do sofrimento é que se conquista qualquer coisa que valha a pena. O que nasce da felicidade não tem valor, portanto se se aprende com alegria, não pode ser estudo, não pode ser uma escola.

Mas é. É uma escola. E ainda assim, um dos ambientes mais desescolarizados em que já tive o prazer de colocar os pés.

Com o passar dos tempos, muitas coisas evoluem na sociedade – algumas a passos largos, outras muito mais vagarosamente do que deveriam. A escola e o ensino, contudo, parecem recusar-se solenemente a caminhar adiante, a acolher a transformação, a evoluir. Continuamos ensinando como no século retrasado, e achamos isso natural, aceitável e até bom.

Minhas filhas, hoje, vão contentes da vida todos os dias a uma escola diferente. Uma escola que serve a alegria como sacramento, em banquetes diários. Uma escola que celebra a curiosidade natural da criança, do adolescente, do aprendiz. Uma escola que rompe as hierarquias tradicionais e coloca tutores e alunos lado a lado, de mãos dadas, em um esforço conjunto, divertido, para a construção de um aprendizado coletivo. Uma escola que mistura aprendizes de todas as idades, sem divisão em séries, sem provas, sem carteiras. Uma escola em que todos têm voz, do menor ao maior, do recém-chegado ao membro mais antigo da comunidade. Uma escola que respeita os apaixonamentos individuais, os desinteresses de cada um, os talentos particulares, os desejos genuínos nascidos de cada coração, sem padrão e sem preconceito.

Isso sempre foi para mim o mais importante: antes de preocupar-me em saber se elas teriam conhecimento suficiente de física, química, geografia e tudo mais para responder corretamente às questões do vestibular, importavam-me que elas tivessem prazer em aprender. Que fossem à escola, todos os dias, como quem cultiva um gosto, como quem celebra uma boniteza da vida.

Porque aprender, para mim, não tem nada a ver com absorver conteúdo. Aprender é acolher com o coração. É abraçar o mundo, e devorá-lo às colheradas, com o mesmo gosto com que a gente se lambuza ao saborear a sobremesa favorita.

E para você, aprender rima com o quê?

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Um comentário em “Quando aprender rima com prazer

  1. Natalie Catuogno Consani
    13 de novembro de 2014

    Que ótimo ler esse texto bem no momento em que achei uma escola bem desse jeito pro meu filho. E ele está amando. Mesmo com febrão hoje, queria ir. Chorou por não estar disposto o suficiente. E já me “prometeu” que amanhã estará sem febre só pra ir pra escola. Lindo demais isso, não? Me enche o coração de alegria!

    Tô contigo. Pra mim, aprender é sobremesa favorita 😉

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