uma vez mamífera

… sempre mamífera.

A escola, a (in)dependência e as novas alegrias

escolar

É oficial: tenho três filhas em idade escolar.

Chiara, nossa caçula, que completa 5 anos no próximo 24 de maio, começou a ir à escola já faz um mês. Mesma escola das irmãs, que ela já frequentava esporadicamente desde o final do ano passado, quando diante dos repetidos pedidos da pequena para “estudar”, passamos a deixá-la de vez em quando – experiência super positiva, já que a bichinha ficou desde o início o período todo, sem querer voltar pra casa, sem pedir pra me chamar, acenando pra mim do portão e virando as costas para ir brincar.

‘Caramba, seu tempo… anda passando meio rápido demais, né?’, foi o meu pensamento mais recorrente nas últimas semanas. De repente, eu não tenho mais bebês em casa. Foram-se os slings, os mordedores, os baldes de banho, as fraldas de pano, os bodys, os copos de transição, os sapatos de sola molinha, os quadrados de EVA colorindo o chão. Tenho agora três menininhas crescendo a olhos vistos, as calças ficando curtas, os sapatos apertando a ponta dos dedos, as cabecinhas fervendo de curiosidade e desejo de entender o mundo e as ideias escapando pela boca cada vez mais elaboradas, cada vez mais complexas, cada vez mais surpreendentes. Cada vez mais lindas, cada vez mais apaixonantes. Novas fases, novos desafios.

E tenho também o meu tempo de volta, um espaço diário que me pertence. Elas vão para a escola, e eu tenho os braços e as ideias livres. Um espaço para olhar para mim, para trabalhar, para correr atrás das minhas coisas, para resolver as pendências que, antes, eu resolvia no dobro do tempo, sempre com uma criança a tiracolo me puxando para contemplar os detalhes cotidianos da vida. Um espaço para redescobrir o que é ser, além de mãe, eu – somente.

Eu sinto saudades, sim. Como mudamos de casa há pouco, muita lembrança tem me caído nas mãos: vídeos, fotos, recortes dos anos que foram ficando para trás. E o que me invade é um sentimento agridoce. Porque tudo o que houve até aqui, tudo o que foi vivido junto, foi muito curtido. Mas a sensação de que a vida atropela, sem dar tempo da gente fazer e curtir tudo o que gostaria, persiste, como acho que persiste sempre.

Mas, engraçado. Não sinto vazio, nem tristeza. Aquele sentimento dolorido e amargo com que me ameaçaram tantas vezes, quando eu defendia a criação por apego, o respeito ao tempo da criança e a disposição de permitir a dependência, enquanto ela é natural, fisiológica e instintiva: “daqui a pouco eles crescem, e você vai fazer o que da sua vida?”. Puxa, eu consigo pensar em muitas coisas, viu?

É bem verdade que elas ainda têm muito o que crescer. São ainda tão pequeninas, aos quase 9 e quase 5 anos de vida. Ainda são, em muitas e muitas coisas, dependentes, como é natural e saudável que sejam. Mas penso que essa primeira “ruptura”, o início da vida escolar, em que a criança ganha um espaço para existir longe da esfera familiar, para descobrir um lugar no mundo onde ela é por si, sem misturar-se com os seus, é um primeiro grito de independência. Que pode ser bem dolorido, quando o que veio antes não foi saboreado, sorvido, aproveitado. Para nós, foi. Não sinto o desejo de me agarrar ao que já não é mais, porque quando era, eu olhei com cuidado, acarinhei, permiti que durasse. Então, pode ir. Vou sentir saudades, porque foi bonito. Mas estou aqui de coração aberto para todas as novas bonitezas que me esperam pelas esquinas. E sei que são muitas.

Eu me sinto feliz. Feliz por ter vivido os primeiros anos de vida das minhas três filhas de acordo com o que acredito: dando tempo a elas para que se sentissem seguras para caminhar, respeitando o ritmo de cada uma sem apressamentos, descobrindo tantas e tantas coisas junto, crescendo de mãos dadas, eu daqui e elas dali. E feliz por poder, agora, dar o primeiro passo nessa nova estrada: essa nova realidade em que estaremos juntas, mas também separadas. Em que vamos descobrindo novos espaços de ser e sentir, novas possibilidades de afeto, de olhar sobre o mundo, de ficar com o coração aos pulos diante do novo que a vida nos traz todos os dias.

E ao final de cada dia, quando nos reencontramos, é sempre uma alegria: são abraços e beijos de matar saudade, e uma tagarelice infinita para contar tudo o que houve enquanto estávamos longe. Voltamos para casa, para o canto que é nosso, onde novamente existimos juntas, misturadas, corações entrelaçados. Essa coisa bonita de estar ligado por um afeto maior do que todas as distâncias e intercorrências da vida. Isso que espero que tenhamos sempre, para o resto da vida, mesmo trilhando os caminhos mais variados, mesmo espalhadas por esse mundão. Isso, que sobrevive às milhas, aos quilômetros, e ao tempo que passa, por mais que ele insista em passar.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: