uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Maria e as escolhas

MAEPICASSO

(post originalmente publicado no blog Mamíferas, em novembro de 2010)

Eu conheço uma mãe de 4 filhos, uma ‘mulher porreta’, como costumamos dizer por aí. Dois são seus filhos biológicos, a terceira é a irmã mais nova que ela acolheu após a morte da mãe, e o quarto, um sobrinho abandonado pela mãe, sua irmã mais velha. Vou chamá-la de Maria.

Maria não amamentou seus filhos. Voltou a trabalhar quando tinham menos de um mês de vida, porque não tinha licença-maternidade, e era preciso trabalhar para colocar comida na mesa. Quando o caçula era bem pequenino, Maria me contava das mamadeiras de leite de vaca batido com arroz que preparava para o bebê de poucos meses. ‘Para encher a barriga e engordar’, ela dizia.

Alguns meses depois, vinha me dizer dos progressos do filho pequeno no andador, que ela sabia que não era lá muito bom, mas quando ela chegava em casa, era preciso arrumar as coisas, fazer o jantar, lavar as roupas, e não havia quem ficasse com o bebê. Ele tinha que ter uma certa independência, precisava poder brincar e distrair-se sozinho.

Vou dizer pra vocês com toda sinceridade do mundo: eu admiro Maria, muito. Ela é uma batalhadora. Nem lhe passam pela cabeça os ‘ideais mamíferos’ de aleitamento, parto, alimentação. Na realidade em que ela vive, nada disso acha espaço. Mas ela é uma grande mãe. Vejo isso no brilho amoroso de seus olhos ao contar da filha mais velha e suas descobertas na escola, da irmã mais velha e de como ela a ajuda com os pequenos, do sobrinho e como ele é falante, do caçula e como ele está gordinho e sapeca. Sem saber o que vem a ser attachment parenting, ela me conta como adora pegar suas crias no colo, e como o carinho é importante pra qualquer criança ‘ser feliz nessa vida’.

A seu modo, dentro de suas possibilidades, Maria dá o melhor de si. Ela é a melhor mãe que pode ser, e tem o principal: ama seus filhos, intensamente. Daria a vida por eles, disso não tenho a menor dúvida.

Quando não se tem o básico, buscar opções diferentes passa a ser um luxo inalcançável. Quando é preciso lutar pela sobrevivência todos os dias, a prioridade é a comida na mesa, o cobertor nas noites de frio, a roupa para ir à escola. Maria se preocupa em que não falte a seus filhos o básico, essa é sua luta de todos os dias.

Nós, aqui do Mamíferas, não somos loucas alienadas. Sabemos bem qual é a realidade do nosso país. Sabemos bem que fazemos parte de uma elite privilegiada, que tem escolhas, possibilidades, caminhos. Maria não tem escolhas, não tem possibilidades. Seu caminho é restrito. Ela faz o melhor pode, e digo sem pensar duas vezes: faz muito bem. Tenho certeza que seus filhos crescerão com um orgulho imenso de sua garra, de sua luta. E do amor desmedido, da doçura que sobrevive à crueza da vida.

Mas é preciso esclarecer conceitos: quando falamos aqui sobre fazer escolhas e assumir responsabilidades, não falamos da realidade das milhares de Marias espalhadas por esse país. Maria não é a mulher que opta pela cesárea porque é mais rápido, ou porque não quis se informar o suficiente. Maria não deixou de amamentar por sentir dor nos seios, para dormir à noite, porque não aguentava a dependência do bebê. Maria não acessa a internet, não lê blogs, não tem computador em casa. Suas escolhas não foram escolhas, foram pura necessidade. Mas esse não é o caso da esmagadora maioria das mulheres que nos lêem.

Quem lê nosso blog pertence a um outro tipo de mãe, de mulher. A mãe que chega até nós, em geral, tem um perfil diferente: ela tem, sim, escolhas. Ela pode optar. Algumas mais, outras menos, dependendo do padrão e da realidade de cada uma. Mas nós temos escolha, sim.

Seria bom que a gente se lembrasse todos os dias do quanto isso é importante. Da sorte que é poder escolher, optar, assumir responsabilidades.

Maria, mesmo com todos os ‘nãos’ que a vida lhe diz, é uma grande mãe. Ela luta todos os dias para fazer o melhor que pode. Nós, que muito menos limitações temos, jamais deveríamos contentar-nos com menos do que isso.

 

Imagem: ‘A Mãe e o Filho’, de Pablo Picasso, daqui

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: