uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Sobre Alex, a violência, e o que nós temos a ver com isso

alex

O menino Alex, de 8 anos (a idade exata das minhas filhas mais velhas), foi espancado pelo pai, segundo palavras dele, “para aprender a andar como homem”. O pai lamentava que o filho gostasse de dança do ventre, e de lavar louça. Alex apanhou repetidamente, sem que ninguém fizesse nada. O corpo do menino tinha marcas de agressões repetidas, de longa data. Um dia, o inevitável aconteceu. A crônica de uma morte anunciada.

Não queremos falar sobre Alex. Nem sobre seu pai. Nem sobre o que antecedeu essa morte. Muito menos sobre o que ela diz a respeito da nossa sociedade – e a nosso respeito, por extensão. A morte de Alex nos é extremamente incômoda, não só pela óbvia e justificada tristeza diante da morte bárbara e precoce de uma criança com toda a vida pela frente, mas pela monstruosidade dos fatos que levaram a ela. Monstruosidade talvez seja, aí, a palavra chave – é disso que queremos nos convencer: que alguém que comete tal ato de violência é um monstro, um animal, alguém diferente de nós. Esse raciocínio nos traz algum conforto, porque nos afasta da tragédia como parte de uma realidade que não é a nossa.

Mas é, e por mais doloroso que seja olhar o fato e compreender seu significado, precisamos fazê-lo. Alex não foi o primeiro. Infelizmente, também não será o último. Todos os dias, crianças apanham de seus pais sem que a sociedade tome conhecimento disso. Todos os dias, crianças são humilhadas, agredidas, violentadas, sob a égide da “boa educação”, da “imposição de limites”. E a sociedade, ao invés de condenar, aplaude: “melhor apanhar dos pais do que apanhar da polícia mais tarde”, “pata de galinha não mata pinto”, e por aí vai.

No mesmo balaio, coisas muito diferentes, você pode dizer. Uma coisa é um tapinha educativo, outra muito diferente é um espancamento. Bem, sim e não. Tudo faz parte da mesma cultura – o que diferencia uma coisa da outra é a intensidade, e/ou o nível de descontrole do adulto envolvido. Toda surra começa com um primeiro tapa. Todo tapa começa com uma cultura que o torna aceitável.

Alex, Maria, Pedro, e tantas outras crianças sem nome, são vítimas de violência todos os dias. São vítimas de uma sociedade que banaliza a palmada, tratando-a como método educacional aceitável. São vítimas de uma sociedade que se recusa a enxergar as crianças como indivíduos, como sujeitos, como detentores de direitos. São vítimas de uma sociedade que varre seus fantasmas para baixo do tapete quando uma tragédia como esta acontece, afirmando, entre pigarros: “isso é um extremo, não vamos confundir as coisas”.

O pai de Alex foi responsável pela morte do filho. Seu ato de violência ridiculamente travestido de medida educacional o matou. Mas ao redor de Alex e seu pai, há toda uma estrutura que permite que tragédias como esta aconteçam. Nós também temos a nossa parcela de culpa. Todos os que nos calamos diante de pequenas agressões cotidianas que desrespeitam, magoam, ferem e marcam as crianças. Todos nós, que aceitamos que a violência contra a criança sequer seja nomeada como tal, em uma constante minimização e invisibilização do sofrimento de quem ainda não atingiu idade que o faça merecer a consideração da sociedade.

Alex morreu graças à violência, à ignorância, à homofobia de seu pai. Mas morreu também porque vivia em uma sociedade em que pais e mães sentem-se donos de seus filhos, soberanos de seus corpos, podendo usar deles como quer que acreditem ser bom, ou justo, ou “educativo”.

Alex morreu porque todos nós fechamos os olhos, todos os dias, à violência contra a criança. Em doses homeopáticas (e muitas vezes nem tanto), ela acontece aqui, ali, em todo lugar. Ela pode estar acontecendo na casa ao lado. Ela pode estar acontecendo no apartamento de baixo. E você, vai continuar fechando os olhos e acreditando que não tem nada a ver com isso?

Que Alex descanse em paz; e que nós despertemos, pelo bem de nossas crianças.

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Publicado em 6 de março de 2014 por e marcado , , , , , .
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