uma vez mamífera

… sempre mamífera.

A mulher engolida

fotomamifera.com.br

Uma mulher, diante do sistema. Com a sua boca escancarada cheia de dentes pronta a engolir sonhos e destruir as melhores intenções sem qualquer piedade.

Cada vez que eu presencio, de longe ou de perto, uma mulher sendo engolida pelo nosso (falido) sistema obstétrico, eu penso em pegar em armas. De verdade. Porque é injusto, é cruel. Uma mulher que sonha parir seu filho – algo que deveria ser natural e instintivo – e se vê diante da necessidade de armar-se até os dentes para que isso tenha alguma possibilidade de acontecer. Isso, quando gravidez não é tempo de guerrear, não é tempo de confronto – gravidez é coisa que acontece em um ritmo todo particular, e toda mulher deveria ter a oportunidade de mergulhar neste mundo paralelo, que transforma a gente por dentro, que revira a gente em sentimento e nos alimenta de tamanha beleza.

É injusto que mulheres sejam operadas sem justificativas coerentes e que encontrem respaldo nas evidências científicas, por desculpas estapafúrdias como “pós-datismo” (a partir da 40 semana), bebê sentado, bebê grande demais, bebê pequeno demais, falta de dilatação, cordão enrolado no pescoço, para ficar só nas menos criativas.

Empoderar a mulher, apontar-lhe tudo o que é possível vivenciar em um trabalho de parto, trabalhar para devolver-lhe o protagonismo, para que seja senhora de suas decisões, para que amadureça e tome posse de sua vida e de suas escolhas, é importante, fundamental. Mas para além disso, é preciso trabalhar para mudar o sistema. É preciso transformar por dentro essa roda impiedosa que corta barrigas e engole sonhos, possibilidades e vínculos.

Às vezes penso que, dada a nossa realidade, em que as mulheres, salvo raras exceções, estão entregues a equipes incompetentes ou desatualizadas, que praticam a obstetrícia de maneira obsoleta ou mesmo desonesta, uma realidade em que as mulheres são abraçadas por um sistema que acredita na incompetência de seus corpos e na medicalização e na capitalização do nascimento, tirar o véu dos olhos de uma mulher e apontar-lhe toda a maravilha do nascimento, o infinito de possibilidades de um nascimento respeitoso, de um parto ativo, chega a ser uma crueldade. Antes, com os olhos vendados pelo sistema, ela perdia sem saber que estava perdendo. Depois, ela vê o que perde, mas ainda assim, perde – e perde conscientemente, perde sentindo a pontada de cada maravilha que lhe foi roubada, perde chorando por cada detalhe que lhe pertencia, e que lhe arrancaram com crueldade.

Sim, há mulheres que escapam. Contornam o sistema, dão-lhe voltas, passam-lhe rasteiras e parem lindamente, como sonhado. Eu não lhes tiro o mérito, são guerreiras, são lutadoras. Não diminuo de maneira alguma sua experiência, dizendo que foram agraciadas pela sorte – certamente, terá sido um caminho árduo, de muita luta e muito enfrentamento pessoal e diante de todas as forças contrárias. Eu conquistei dois partos normais muito batalhados – um gemelar, outro domiciliar -, e me orgulho disso porque não me caiu do céu. Mas há também todas as outras mulheres, aquelas que pelos mais variados motivos, não conseguem – e eu, sinceramente, não me sinto confortável em diminuir-lhes a experiência dizendo de maneira simplória que “quem quer parir, pari”. Somos mais complexos do que isso. Há mais entre uma mulher e um sistema que lhe massacra do que simplesmente a vontade.

Querer é importante, é muito, é grande parte da história. Querer é fundamental, e pode mover muitas montanhas – mas quando não move todas as que atravancavam o caminho, o que fazer?

Eu tenho um início de resposta para esta pergunta, e brigo por ela há anos, na minha caminhada como ativista. Por isso acompanho, engajo-me e apóio como posso cada iniciativa que vise a transformação do sistema, para torná-lo mais coerente, mais embasado e mais respeitoso com a mulher que deseja parir. Mas até lá, cada mulher engolida que vai aos prantos para a mesa de cirurgia, sabendo com detalhes como aquele momento poderia estar sendo diferente, leva consigo parte do meu coração.

Muitas podem, vão, fazem e conseguem. Mas eu gostaria que todas pudessem – eu gostaria que bastasse, mesmo, querer.

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7 comentários em “A mulher engolida

  1. Cyça
    28 de maio de 2014

    “… tirar o véu dos olhos de uma mulher e apontar-lhe toda a maravilha do nascimento, o infinito de possibilidades de um nascimento respeitoso, de um parto ativo, chega a ser uma crueldade. ”

    Tou vivendo esse momento com minha irmã. Que acompanhou minha luta pelos meus partos o primeiro normal e o segundo domiciliar (numa gestação em q eu dizia pra todo mundo q ia parir no hospital só pra q me deixassem em paz, mas ela sabia q era mentira, ainda q eu negasse.

    Eu no RJ, ela em Vitória, afirmando q quer um parto normal. Domiciliar não q ela diz q é coisa de doido hahahaha. Mas não tenho forças, à distância, pra brigar e mostrar e defender o direito dela com ela, por uma quase certeza de que o médico é só mais um.

    E pra que não seja ela quem “perde conscientemente, perde sentindo a pontada de cada maravilha que lhe foi roubada, perde chorando por cada detalhe que lhe pertencia, e que lhe arrancaram com crueldade.”, eu optei por me ausentar.

    😥

  2. Isis Maria
    28 de maio de 2014

    Estou numa situação parecida com a da Cyça. Tenho uma amiga, que já tem uma cesárea e está com umas 30 semanas. Disse que vai tentar o parto normal e que a GO vai fazer de tudo pra ajudar.
    Eu sei que não vai, que nos 45 do segundo tempo alguma desculpa estapafúrdia vai vir. Mas evitando a perda consciente, ou pior, o afastamento da amiga, eu parei. Mandei links, falei, tentei mostrar, mas há portas que só abrem por dentro.
    Espero de todo coração que um dia ela tenha essa consciência e consiga ficar em paz, se quiser. Mas me dói saber que ela pode ser enganada de novo
    PS: A primeira cesárea foi com 40 semanas, pois, depois disso, o bebê entra (automaticamente) em sofrimento fetal…oO

    • renata penna
      29 de maio de 2014

      tenho percebido que às vezes, humanizar é também colocar o pé no freio. e tem razão: a porta só abre mesmo por dentro.

  3. Valeria Rezende
    29 de maio de 2014

    Olá Renata.Tenho 34 anos e estou na minha 1 gestação.Acompanho vc desde as mamíferas . Estou com 27 semanas e lutando ferozmente pelo meu direito de parir.Meu 1 obstetra teve a cara de pau de me dizer que eu era muito miudinha pra parto normal. Depois meu filho estava com o cordão enrolado no pescoço e segundo este médico seria temerário me esperar entrar em trabalho de parto porque meu bebe se estrangularia no meu canal vaginal.Resultado:marido apavorado que só foi convencido depois de muito luta a me acompanhar ao 2 GO.Este disse que cordão enrolado é terrorismo, que faria o parto normal, mas que só espera até a 40 semana e depois estoura a bolsa.Marido já empoderado discordou na hora 🙂 Ontem fui ao 3 GO.Novo na cidade, atende numa sala de um consultório odontológico.Pela 1 vez me senti verdadeiramente ouvida por um médico que também está lutando pra aumentar o número de partos normais :discutimos quais procedimentos serão usados ou não, tudo segundo meu plano de parto.Sei que se tudo correr bem serei uma exceção num mar de cesárias.Mas em meu nome e do meu filho receba todo meu carinho e respeito, pois se hoje estou trilhando este caminho é em grande parte graças a mulheres como vc que se empenham em mudar esta triste realidade dos nascimentos no nosso país.

  4. Claudia
    30 de julho de 2014

    “… tirar o véu dos olhos de uma mulher e apontar-lhe toda a maravilha do nascimento, o infinito de possibilidades de um nascimento respeitoso, de um parto ativo, chega a ser uma crueldade. Antes, com os olhos vendados pelo sistema, ela perdia sem saber que estava perdendo. Depois, ela vê o que perde, mas ainda assim, perde – e perde conscientemente, perde sentindo a pontada de cada maravilha que lhe foi roubada, perde chorando por cada detalhe que lhe pertencia, e que lhe arrancaram com crueldade.”

    Nossa Renata seu texto se encaixou exatamente com o que estou passando…

    Minha vontade é pegar uma arma e sair atirando contra esse sistema lixo que estou/estamos inseridas HAHAHAHHA (muita vontade por sinal)!

    Tenho uma filha de 4 anos que foi de PN (após muita muita luta, passei por mais de 5 Go’s fofos), porém, mesmo assim fui “agraciada” com uma episiotomia gigante e mais alguns tantos outros tipos de violência obstétrica que hoje depois de me informar, sei que foram verdadeiras violências.

    Agora, na segunda gravidez, mergulhei e continuo mergulhando de cabeça em todas as informações possíveis sobre o assunto e sonho com meu PH com todo o respeito merecido, porém a questão financeira (aqui em Curitiba não sai por menos de R$ 4.000,00, isso que tenho plano da Unimed), está acabando com meus planos, me sinto realmente ENGOLIDA, a cada nova frustração, imagino um monstro cheio de sangue com a boca escancarada só esperando minha hora de parir para me engolir, até agora a realidade para mim é de quem não tem dinheiro, não pari de maneira respeitosa, fica a mercê da sorte, de um milagre, sei lá… 😦

    Minha vontade é correr pro meio do mato é ter ela sozinha, pelo menos assim, minhas vontades serão respeitadas sem precisar de dinheiro sobrando na conta bancária.

    • renata penna
      30 de julho de 2014

      claudia, vc já conseguiu contato com o pessoal da humanização aí de curitiba? eu não conheço muito da realidade daí (sou de são paulo), mas se quiser te passo uns contatos que talvez possam te ajudar a achar opções. qualquer coisa me escreve: renata@fotomamifera.com.br bjs

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Publicado em 28 de maio de 2014 por e marcado , .
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