uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Os ‘do’s e don’ts’ da maternidade

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Maternar consciente significa, a priori – e como o próprio nome já diz – encarar a experiência da maternidade (e da paternidade também) com consciência, sem ligar o piloto automático, pensando a respeito do que se faz, do porque se faz o que se faz, e das consequências das escolhas que fazemos, e das atitudes que tomamos com nossos filhos. Isso é positivo: estar atento, tomando decisões conscientes e informadas, é sempre melhor do que ir seguindo a boiada, sem pensar a respeito, fazendo como sempre se fez, apenas porque sim.

Contudo, também nesta tomada de consciência, nessa busca da atenção para a maneira como cuidamos de nossos filhos, pode-se exagerar. E é claro que o exagero é um conceito muito pessoal, assim como o equilíbrio – o que é equilíbro para mim, pode ser o extremo do outro, e vice-versa. Mas vou falar aqui daquilo que a mim – a mim! – soa como um exagero desta “tomada de consciência” que nos permite ser mães e pais ativos na parentalidade: às vezes penso que, de um extremo em que se fazia tudo ‘como sempre se fez’, sem gastar muito tempo pensando a respeito e elaborando os porquês, às vezes esbarramos em um outro ponto (a meu ver, igualmente equivocado): talvez estejamos, vez por outra e desavisadamente, ‘vendo chifre em cabeça de cavalo’, como se costuma dizer.

Explico: não raro, aparecem na minha timeline do Facebook (que atualmente é a minha fonte mais dinâmica das reflexões nascidas pelo mundo afora), “textos do tipo don’t”. O que seriam os “textos do tipo don’t”? Textos que têm como objetivo principal fazer com que você abandone certos hábitos que você costumava considerar bacanas, saudáveis e naturais, quando se trata de relacionar-se com os próprios filhos.

Refletir é sempre bacana, certo? Sem dúvida! Mas se passamos da medida, e começamos a racionalizar cada pequeno passo dado, cada pequena palavra dita, cada mínima atitude tomada no cuidado diário com nossos filhos, corremos o (seríssimo, a meu ver) risco de perder a naturalidade. E relação de afeto sem naturalidade acaba ficando meio ‘manca’, como se faltasse alguma coisa. O amor não flui, porque o amor, e toda atitude nascida dele, é coisa que nasce do coração e não da cabeça. Pensar é bacana, é fundamental. Pensar demais pode ser paralisante.

Toda vez que leio um texto dizendo “não chame sua filha de princesa”, “não deixe sua filha usar rosa”, “não elogie a beleza física de sua filha”, “não brinque assim com seu filho”, “não brinque assado”, “elogie seu filho usando estes termos e não aqueles”, fico pensando: será mesmo necessário consultar o manual de boas condutas, a cada nanossegundo de interação com nossas crianças?

É bacana pensar a respeito da maternidade e da paternidade, fazer as coisas sabendo porque as fazemos. Aliás, mais do que bacana, é fundamental. Mas maternidade e paternidade não podem ser apenas teoria, apenas racionalidade. É preciso ir fundo na teoria, buscar informação, escolher o caminho que se quer trilhar. Mas a partir de um certo momento, há o instinto, e há o sentimento. Há a nossa forma única de dialogar, de demonstrar afeto, de brincar, de tocar. Cada mãe e pai tem sua forma de conversar, brincar, afagar e se relacionar com sua cria.

Dizer que chamar minhas filhas de princesas vai torná-las futuramente mulheres sem iniciativa, desempoderadas ou fracas, a meu ver, é de um reducionismo quase imbecil. Dizer que soltar um “você é linda!”, salpicado entre todos os outros elogios feitos à sua inteligência, esperteza, agilidade, companheirismo ou o que for, fará desta criança alguém obcecado pela própria imagem, é um pensamento ridiculamente limitado. Aliás, há quem diga que não se pode elogiar os próprios filhos, a não ser de maneira matematicamente calculada, sob pena de torná-lo alguém exageradamente confiante e incapaz de enfrentar dificuldades. E na hora de brincar, mais regras.

Outro dia, li um texto que dizia que não se deve brincar de cócegas com as crianças. A primeira coisa que me veio a cabeça foi: “caramba, até onde isso pode chegar?”. As argumentações desse tipo de texto, sempre muito racionais e lógicas, costumam ignorar a premissa básica para uma relação saudável entre mães/pais e filhos, entre adultos e crianças (e em última instância, entre dois seres humanos, qualquer que seja o laço afetivo entre eles): a capacidade de olharmos para nossos filhos, compreendermos como se sentem, e agirmos empaticamente a partir desta percepção, com sensibilidade e afeto. A criança está desconfortável, mostra-se desagradada de qualquer forma com a brincadeira? Se a resposta é positiva, então ela deve ser interrompida, seja uma sessão de cócegas, um jogo de xadrez, uma contação de história ou um passeio de bicicleta! Caso contrário, permita-se divertir com seu pequeno, ao invés de perguntar-se a cada minuto se aquele toque está adequado, se aquele tom de voz pode ser utilizado, se aquela palavra é a correta, ou se você está saindo do que manda o manual.

A questão chave, a meu ver, é uma só: abra seu coração para o seu filho. Dialogue com ele de maneira sincera, ouça o que ele tem a lhe dizer, com e sem palavras. Seja sincera, seja espontânea, seja você. Diga o que tiver vontade de dizer, acarinhe-o da maneira que fizer sentido para você. Quando se fica diante dos filhos escaneando mentalmente o manual das boas práticas a cada passo, calculando o que se pode ou não dizer, como se pode ou não fazer, perde-se a oportunidade de estar presente, de olhar no olho, de tocar a pele e viver a relação de verdade, da maneira que faz sentido na história daquela família, daquela dupla mãe/filho, daquela dupla pai/filho, ou daquele grupo familiar, seja qual for a sua configuração.

Pensar, tomar consciência, agir com coerência, é parte fundamental da caminhada materna e paterna. Mas deixar que o coração dite as regras, também. Se permitirmos que ele silencie, soterrado sob um calhamaço de instruções, de ‘podes’ e ‘não podes’, estaremos perdendo algo fundamental – e quando nos dermos conta disso, talvez já seja tarde demais.

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Um comentário em “Os ‘do’s e don’ts’ da maternidade

  1. Jaqueline Lima
    8 de julho de 2014

    Lindo esse seu modo tão sereno de ver as coisas.
    Jaqueline Lima
    http://verdemamae.blogspot.com.br/

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