uma vez mamífera

… sempre mamífera.

A Lei Menino Bernardo: um passo adiante

foto: twitter do senado federal

foto: twitter do senado federal

A lei “Menino Bernardo”, apelidada de ‘lei da palmada’, que proíbe o castigo físico (além de quaisquer formas degradantes de “educar”) em crianças, acaba de ser aprovada pelo Senado. O texto segue agora para sanção da presidenta Dilma Roussef.

O ‘mimimi’ dos que se levantam contra a lei logo se fez ouvir, firme e forte: “eu apanhei e não morri!”, “criança que não apanha dos pais cresce e apanha da polícia”, “o Estado não pode dizer como eu educo o meu filho”, “a criança às vezes pede pra apanhar”, “um tapinha não é espancamento”, e por aí vai. Recusam-se a compreender que sim, uma palmada, uma surra e um espancamento que deixa lesões permanentes, ou até mesmo leva à morte, são faces diferentes da mesma realidade: uma sociedade que naturaliza a violência contra a criança, recusando-se até mesmo a nomeá-la como tal. Bater em idoso é agressão, bater em adulto é violência, bater em animal é crueldade, e bater em criança é… educação.

O mais importante de uma lei como esta, a meu ver, é jogar luz aos fatos como são, nomear as coisas pelo peso que tem e provocar a quebra de paradigmas, a mudança de conceitos até então arraigados. Bater em criança, seja um tapinha, um beliscão, uma chinelada ou uma surra, é sempre violência. É agressão, e não educação. É também covardia – já que a criança é a parte mais fraca, está em clara desvantagem e não tem como se defender (lembra-se daquele papo de “por que você não se mete com alguém do seu tamanho? pois é). E em última instância, é atestado de incompetência: quem agride perdeu a capacidade de argumentar, de levar adiante o diálogo, de ensinar com respeito, de relacionar-se com o outro com empatia, de igual para igual.

Aliás, acho que nessa ideia reside uma das maiores dificuldades de pais, mães e adultos em geral para compreender a efetividade de uma educação não violenta, sem palmadas, sem surras e sem agressões de qualquer tipo: na impossibilidade de enxergar a criança como um igual – como um ser humano que merece tanto respeito quanto qualquer outro, independente da idade. Crianças não são adultos em miniatura, não são seres humanos “in progress”, a caminho de merecer um respeito que nós, pela idade alcançada, já merecemos. Crianças são pessoas. Deveríamos colocar-nos diante delas com o mesmo respeito à individualidade e à integridade com que nos colocamos diante de todas as outras pessoas com quem cruzamos ao longo da vida.

Jamais cogitaríamos bater em um colega de trabalho que falha repetidamente em colaborar conosco; jamais consideraríamos a possibilidade de bater em um funcionário de loja que não nos atende como achamos que deveria; jamais acharíamos aceitável bater em um desconhecido que tem conosco uma atitude que entendemos como inadequada. Não é triste? Temos mais consideração e respeito por um total desconhecido com quem cruzamos na rua, ou por pessoas com quem convivemos apenas socialmente, do que por nossos próprios filhos, aqueles que colocamos no mundo e a quem deveríamos proteger, para quem deveríamos ser referência de afeto, proteção e segurança.

Aí, o argumento: “é diferente! não tenho autoridade sobre a pessoa que cruza comigo, nem sobre o vendedor da loja, nem sobre o meu colega de trabalho! e também não tenho a responsabilidade de educá-lo!”. A-ham. Ainda hei de compreender este fetiche pela questão da autoridade, pela hierarquia familiar, onde é preciso traçar uma pirâmide na qual se tenha bem claro quem manda e quem obedece, mas vá lá. Se for um subordinado então, alguém que por uma questão hierárquica está “abaixo” de nós, agredir sob o pretexto de ensinar alguma coisa, está valendo? Aliás, vamos falar em ensinamentos: quando batemos em uma criança para que ela nos obedeça, estamos ensinando que a violência (seja em que nível for, porque a partir do momento em que ser permite a agressão como medida educativa, a intensidade da violência é só uma questão de necessidade) é um meio lícito, justo e aceitável para conseguir o que se deseja. Ensina-se, mais do que pela palavra, pelo exemplo, e este é o exemplo que o tapa passa adiante: se não conseguiu pela conversa, imponha-se pela violência.

Educar é orientar. Educar verdadeiramente passa pelo respeito, pela empatia, pela capacidade de colocar-se no lugar do outro, pelo reconhecimento de suas necessidades e de sua condição de igual. Agredir não tem nada a ver com educar. No máximo, é adestrar – e até adestramento hoje em dia já se faz sem violência, sabiam?

Educar sem agredir é possível. Não é fácil, mas é muito recompensador. É trabalhoso, porque nos faz ter contato com as nossas sombras, com as nossas próprias impossibilidades e limites – e trabalhoso também, porque precisamos criar um repertório de alternativas à agressão, repertório esse que, como crescemos em uma sociedade que acreditou sempre que bater faz parte da educação, é muitas vezes falho e limitado. Lançando mão da alternativa ‘fácil’ do tapa, evitamos este auto enfrentamento, evitamos confrontar-nos com os aprendizados necessários, com o amadurecimento que uma educação não violenta nos obriga a experimentar. Por outro lado, perdemos a oportunidade de tornarmo-nos melhores, ensinarmo-nos a nós mesmos, enquanto ensinamos nossos filhos. Ao apelar para a agressão, tornamo-nos novamente crianças mimadas e birrentas, que levantam a mão quando contrariadas, porque não sabem conversar nem dialogar. É esse o espelho que queremos ser para os nossos filhos?

A aprovação da Lei Menino Bernardo, pra mim tem nome: evolução. E você, vai ficar aí parado?

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