uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Carta à “mãe nova” que fui, um dia

renataanaluzestrela

Conselho, minha querida, se fosse bom a gente vendia, e caro – já dizia a minha avó.

Mesmo assim, eu vou te dar alguns. É, vou te dar de graça, até porque cheguei meio atrasada, você me conhece, pontualidade não é muito o meu forte, nunca foi. Mas ó, pra tirar o ranço, vou dizer que não são conselhos – são só umas palavrinhas amigas de alguém que já esteve nesse lugar onde você está hoje (literalmente), e queria muito ter sabido antes de algumas coisas, ter tido os olhos mais abertos pra alguns detalhes que me fariam acalmar o coração.

Talvez – estou pensando isso agora -, talvez não sirva para coisa nenhuma. Talvez a gente tenha mesmo que mergulhar na experiência, de olhos vendados e sem rede de segurança, com o coração aos pulos, para que ela faça algum sentido e sirva pra gente crescer, aprender e melhorar. Talvez aquilo que a gente vem a saber depois só valha por isso mesmo: porque a gente fica sabendo depois, e se soubesse antes não vivia aquilo tudo que tinha pra viver, aquilo tudo que era pra fazer parte da nossa história. Mesmo assim, eu digo – vai que serve pra alguma coisa, né? Melhor pecar por excesso, já diz o ditado. Então, vamos lá.

Primeiro, porque é muito importante: acredite no mantra da maternidade, ‘isso também vai passar’. E acredita em mim: passa. E passa rápido. Passa quase voando. Num belo dia, o bebê vai sair engatinhando, depois vai andar. Vai no colo de um outro, depois vai sair num passeio de horas, longe de você. E vai pra escolinha. E vai dormir na casa dos amiguinhos. E vai ter uma porção de coisinhas na vida dele que não te incluem. E vai pensar por si, e dizer por si, e decidir por si. Eles ficam grandes – por mais que pra gente, eles pareçam sempre tão pequeninos.

Pode parecer que sim, mas a verdade é que a privação de sono não mata – embora às vezes a gente tenha a sensação que vai nos levar à loucura. Dormir a noite toda, dormir horas a fio, é aprendizado. E aprendizado leva tempo. Seu bebê não acorda infinitas vezes à noite porque está mal acostumado, nem porque é desobediente, ou porque quer te provocar. E você também não está fazendo nada de errado. E seu bebê não veio com defeito, nem tem um problema. Ele só não sabe ainda o que significa esse papo de “descanso noturno”. E ele quer se sentir seguro, protegido, a salvo – e não tem referência maior de segurança pra ele do que você, seu colo, seu cheiro, sua voz, o ritmo das batidas do seu coração. Então traz ele pra dormir juntinho, porque se a cama está pequena agora, vai ter um dia que ela vai ficar grande. Vai ter espaço pra você dormir feito estrela de cinco pontas, e aí – olha a vida, que marota! – vai dar saudade de abraçar aquele corpinho pequenino bem no meio da madrugada.

Fique tranquila, e não sofra tanto por se sentir fora do ritmo, e sem saber direito quem é você, e qual o seu lugar no mundo a partir de agora. Sentir-se perdida na sua nova realidade é natural, é compreensível, é até esperado. Nada vai ser igual ao que era antes – isso é melhor aceitar. Não fique procurando em você alguém que você já foi – abra espaço para ser quem você será. Tem uma pessoa nova aí querendo muito começar a existir, e eu sou capaz de apostar que vocês vão se gostar um bocado. Desapegue, desprenda-se: dos seus sonhos de antes, dos planos anteriores, das ideias que não te cabem mais. O que tiver de ficar, há de permanecer – mas o que precisa ir embora, tem que ter espaço para dizer adeus. Chore o luto da pessoa que você foi, para poder celebrar o nascimento da pessoa que você está começando a ser.

A solidão às vezes é braba e toma conta da gente com toda força, mas isso também há de se acomodar. Amigos vêm e vão, e muitos desaparecem com a maternidade. Faz parte da vida: os interesses ficam diferentes, os ritmos de vida ficam antagônicos, as prioridades ficam irreconciliáveis. Afastamentos acontecerão, e não dá pra evitar. Alguns serão temporários, e os amigos mais queridos e verdadeiros hão de voltar, prontos para te fazer companhia na hora de abraçar a vida nova que você escolheu pra viver. Outros serão definitivos, e alguns amigos irão embora para não voltar mais. Nesse caso, guarde no coração a delícia dos momentos vividos juntos, das alegrias compartilhadas, e não se culpe por seguir em frente – despedidas fazem parte da vida, também. E ao pé do ouvido, eu te digo: virão outros, virão novos. A maternidade abre pra gente uma porção de portas, e faz nascer amizades inesperadas, que vão entrando devagar, ocupando sorrateiramente seus espaços, pra um belo dia você perceber que vieram pra ficar. Tem muita gente especial por aí, e ser mãe traz muitas delas pra perto da gente. Virão novas amizades, novos programas, novos afetos, novos vínculos e novos jeitos de conviver, estar junto e ser feliz.

Amar não é conto de fadas, e menos ainda quando tem um bebê na jogada: o relacionamento à dois fica de ponta cabeça com a chegada dos filhos, tudo vira mesmo do avesso e você ainda vai se perguntar uma porção de vezes onde foi parar aquela relação que você curtia e achava tão bacana antes de vocês virarem pai e mãe da mesma pessoinha. Pois é, ela também se foi – mas aí, bem debaixo dos teus olhos, quem sabe esteja nascendo uma outra, que pode te deixar boquiaberta de tanta beleza e intensidade. Apaixonar-se de novo e de novo e de novo por um companheiro(a) com quem se quis compartilhar o desafio de trazer uma criança ao mundo, cuidá-la e vê-la crescer, descobrir naquela criatura pequenina os traços, trejeitos, hábitos e manias daquela pessoa que você escolheu para ter do lado, seja por agora ou para o resto da vida, faz a gente compreender que amor não é só romantismo e tesão – é também parceria e companheirismo diante das coisas todas da vida, das mais poéticas às mais cotidianas. E que amar é muito mais do que mandar flores no dia dos namorados, sair para jantar num lugarzinho romântico no aniversário de namoro ou transar todos os dias batizando todos os cômodos da casa (embora tudo isso também seja bem bom de se curtir, e vale voltar a fazer tão logo seja possível de novo!).

Você vai precisar aprender a fechar os ouvidos, e abrir o coração. Palpites quase nunca vêm com a intenção de magoar ou desestabilizar – mas é fato, muitas vezes magoam e desestabilizam. Ouvir a experiência de gente em quem você confia, de quem você gosta, tem seu valor. Mas a voz mais sábia que você terá a oportunidade de escutar em sua caminhada materna, é aquela que nasce do seu lado de dentro: o seu coração, o seu instinto e os seus sentimentos são guias preciosos, e respeitá-los e segui-los te levará quase sempre exatamente onde você queria chegar.

Se você está nessa de coração aberto, querendo acertar e dar o melhor de si, você já é a mãe mais incrível que pode ser para o seu bebê – e para ele, você é todo um universo. Acredite, você pode. Você consegue. Você chega lá. Permita-se entregar de corpo e alma, conecte-se com seu bebê e saiba que vocês dois, juntos, vão escrever uma história que não pertence a mais ninguém – e tanto os erros quanto os acertos serão parte dessa história, que é linda e especial apenas por ser aquela que é parte de vocês, aquela que vocês dois vão compartilhar da melhor maneira possível.

Ame, ame muito. Não tenha medo de amar demais. Nesse amor, ninguém se perde – apenas se encontra. No fim, acho que isso era o mais importante de tudo: você não vai se perder, minha querida – vai se encontrar, e que encontro bonito vai ser.

A gente se vê daqui a alguns anos. 🙂

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26 comentários em “Carta à “mãe nova” que fui, um dia

  1. Gabi Ramalho
    24 de junho de 2014

    Que lindo, Renata!
    De terminar a leitura arrepiada!

    Beijos

  2. Isis Maria
    25 de junho de 2014

    No dia das mães escrevi um parecido pro meu eu de 1 ano e meio atrás. Gosto tanto de ver que muita coisa aprendi, muita coisa vou aprender mas seguir meu instinto, ouvido, cama compartilhada, colo e paciência sempre vão valer (:

  3. pri rocha
    1 de julho de 2014

    Renata.. que delicia de texto!!!! Engraçado que tudo isso veio pra mim especialmente após o nascimento da minha segunda filha… bom de ler e reconhecer!

  4. Keyla
    1 de julho de 2014

    Que texto lindooooooo! Chorei do começo ao fim. Estou grávida e curto cada dia da minha gravidez. Acho fantástico como um ser tão pequenino sabe nos transformar de uma maneira tão completa!

    • renata penna
      1 de julho de 2014

      verdade, é transformação em cima de transformação… que venham! 🙂

  5. Pingback: Coisa de mãe – texto valioso é texto compartilhado | PAPO DE ESTILO

  6. Janaína
    1 de julho de 2014

    obrigada, Renata, pelas palavras compartilhadas que confortam, acolhem, guiam. Faz um bem danado no coração de uma mãe recêm-nascida numa tarde de terça-feira, cê bem sabe, que eu li. Muito obrigada.

  7. Rose
    1 de julho de 2014

    Renata, lindo texto!! Como mãe me identifiquei muito com que escreveu, nunca liguei para o que as pessoas diziam, “se pegar no colo acostuma”, “se colocar na cama acostuma”, “não dê chupeta” e outras coisas mais….sempre segui minha intuição e bom senso. Tenho duas filhas uma com 23 anos que depois de formada iniciou hoje o primeiro emprego e uma de 20 que mora em outra cidade por conta da faculdade de engenharia. Sabemos que vamos cometer falhas durante a jornada, mas usando o amor, bom senso….nao temos como fracassar!! Minhas filhas são exemplos vivos disso!!! Sou psicologa clinica e quando atendia crianças sempre conversava com os pais sobre essa condição de poder ser pai/mãe sem ter que seguir regras que são vendidas não levando em conta o ser humano!! Hoje compartilhei seu texto com um casal de amigos que depois de muita luta conseguiram realizar o sonho de ser pai/mãe. Espero através de você poder ajudá-los!!
    Parabéns!!! Beijo

  8. Marcela
    2 de julho de 2014

    Renata, parabéns pelo texto incrivel!!! Me identifiquei da primeira linha ao final. O luto pela pessoa q a gente foi, os amigos novos e antigos, a questão do “vai passar”. Tudo mesmo!! Eu cai de cabeça na maternidade e me surpreendi e concordo com tdo q vc descreveu. Principalmente q é nesse amor q a gente se encontra e nunca se perde!!! bjs

  9. Karine Maia
    2 de julho de 2014

    coisa linda!!!

  10. Daisy
    2 de julho de 2014

    Tava muito precisando ler isso,e hj mais que nunca E por acaso encontrei aqui! Não te conheço… mas conseguistes tocar bem no fundo do que sinto! Obrigada…. hj com lágrimas e 10meses de maternidade estou me despedindo do quem eu era! OBRIGADA!

  11. Juliana
    5 de julho de 2014

    Muito bonito o seu texto! Descreve bem o q acontece quando a gente vira mãe! tenho duas filhas e estou grávida novamente… Só me sinto perdida…me encontrar?!!! Ainda não consigo ver essa luz no fim do túnel, vivo de lamentar e sei o tanto q estou perdendo! Por enquanto é o que tenho!

  12. Jaqueline Lima
    9 de julho de 2014

    Lindo o seu texto. Emocionante até!!!
    Jaqueline Lima
    http://verdemamae.blogspot.com.br/

  13. Ro
    15 de julho de 2014

    Obrigada pelo texto! Por acaso alguém do meu facebook o compartilhou hj, justamente quando eu precisava! A maternidade é a melhor coisa no mundo!!!! Voce consegui descrever exatamente o q eu sinto nesses 5 meses em q me tornei mãe.

  14. Lilian
    8 de agosto de 2014

    Lindo texto. Emocionante e verdadeiro, está chegando meu primeiro filhinho e as vezes fico me perguntando se darei conta, mas a resposta está dentro de mim. Vai dar tudo certo.

  15. Jaqueline Lima
    18 de agosto de 2014

    Oi Renata,
    Fiz uma resenha sobre o livro “A máscara da maternidade”, de Susan Maushart, que você pode conferir neste link http://verdemamae.blogspot.com.br/2014/08/livros-para-maes-mascara-da-maternidade.html.
    O livro é ótimo e fala um pouco sobre esse lado B da maternidade, dentre outras questões maternas. Você já leu? Além disso, cito esse seu relato lá no post. Se tiver um tempinho, confere lá.
    Um grande beijo,
    Jaqueline Lima
    http://verdemamae.blogspot.com.br/

  16. Marta Galafassi
    21 de agosto de 2014

    Simplesmente vivenciei cada frase!!! Lindooooo

  17. bruna
    6 de setembro de 2014

    lindissimo o texto..adorei cada palavra e me espelhei em muitas outras…parabéns para quem escreveu.

  18. Daniela
    24 de setembro de 2014

    Que texto lindo Renata! Traduziu tudo o que penso e os maiores aprendizados que a maternidade me trouxe, parabéns!

  19. Pingback: Livros para mães - A Máscara da Maternidade, de Susan Maushart - Ver de Mãe

  20. Stephanie
    23 de março de 2015

    Nossa chorei… Lindo texto, obrigada por compartilhar isso comigo, estava precisando de palavras assim 😉

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Publicado em 22 de junho de 2014 por e marcado , , , , .
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