uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Não queira pelo outro, já basta querer por si

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foto: Renata Penna / fotomamifera.com.br

 

Alô você, que às vezes deseja um parto natural mais do que a própria pessoa envolvida, que deveria ser protagonista da história: olha, eu te entendo. Mesmo.

Entendo, porque eu já estive nesse lugar. Acho que saí dele há bem pouco tempo, pra dizer a verdade.

Quando a gente vai se enfiando – de fininho, ou de uma vez só – nesse universo da maternidade ativa, do protagonismo feminino, do empoderamento materno e tudo mais, a gente se embriaga. De repente, só quer falar disso, só quer pensar nisso, só vê disso por todos os lados. Fica meio fanático, mesmo – e não digo isso como crítica, mas como simples constatação de quem já passou por isso sem nem se dar conta. Nessas horas, se a gente vê uma grávida, já sai chispando querendo despejar todo o discurso ativista-roots-empoderador-baseado-em-evidências em cima da pessoa por trás da barriga, de uma vez só.

Sabe gente religiosa, que bate na porta da gente às oito da manhã no domingo, querendo vender revistinha e enfiar uma filosofia goela abaixo? Pois é, chato né? Eu já fiz isso uma porção de vezes. Não com religião, porque bem, não é a minha. Mas já perdi as contas de quantas vezes eu me empolguei além do aceitável pra falar sobre parto com alguma gestante que cruzou o meu caminho. E olha, as intenções eram as melhores. Eu estava genuinamente imbuída daquela sensação maravilhosa de inteireza e poder que a gente sente quando descobre o que é parir um filho, e tudo de lindo que pode nascer dessa experiência. Mas eu devo ter atropelado um tanto de escolhas pessoais e verdades subjetivas nesse caminho, todas as vezes que o fiz sem esperar um sinal a respeito, um indicativo qualquer de que a pessoa estava interessada no que eu tinha a dizer.

Não, eu não acho que “tanto faz” a via de nascimento. Não, eu não acho que não vai fazer diferença, tanto na vida da mãe quanto na vida da criança, a forma como ela veio ao mundo. Não, eu não acho bacana que uma pessoa escolha uma cesárea, ou escolha não se informar (o que, na esmagadora maioria dos casos, leva a uma cesárea), ou mesmo tendo acesso à informação, escolha continuar com o médico bonzinho e deixar a sorte, ou o destino, ou os deuses, ou whatever, decidir no que vai dar. E obviamente, também não ignoro e não vou ignorar nunca as evidências científicas que atestam que parir naturalmente – em relação à via cirúrgica de nascimento – é mais seguro e mais saudável para a mãe e para o bebê.

Mas eu não me sinto (mais) no direito de querer por ninguém. Desejo, necessidade, vontade: tudo isso nasce do lado de dentro da gente, ou não nasce.

E olha, nem todo mundo quer. Nem todo mundo está disposto a correr atrás de informação, nem todo mundo quer ter o trabalho de mover montanhas, de nadar contra a corrente. Há quem só queira ir caminhando, ao sabor do vento, sem fazer muitas perguntas. E eu – bem, eu sei de mim, não do outro. Sei qual é a minha verdade, mas não posso saber qual é a verdade do outro, nem enfiar a minha pela sua goela abaixo.

Eu ainda milito, eu ainda falo, eu ainda tagarelo pelos cotovelos, quando alguém me pergunta e quer saber sobre parto, amamentação, criação por apego e tudo mais. Está em mim, não consigo fugir e nem quero. Mas aprendi a esperar pela permissão, explícita ou ao menos subentendida: ‘sim, eu estou interessada’, ‘sim, eu quero saber mais sobre isso’, ‘sim, eu me interesso em ver as coisas por um viés diferente’. Se o sinal não vem, eu me reservo o direito de ficar calada. Depois de gastar muita energia à toa e dar muitas vezes com os burros n’água, finalmente entendi que isso me preserva, e preserva o outro também.

Não, eu não deixei de ter opiniões fortes, nem de me posicionar apaixonadamente sobre tudo aquilo em que acredito, sobre tudo aquilo que eu defendo. Só aprendi a me reservar o direito (aliás, nem sei se dá pra falar em direito, talvez caiba mais falar em obrigação, mesmo) de não fazê-lo com quem não me dá qualquer abertura, nem demonstra de forma alguma seu interesse em trocar ideias sobre o assunto. Porque com o seu desinteresse, ela está me passando uma mensagem bem clara: “isso simplesmente não é importante pra mim, nesse momento”. E quem sou eu para dizer o que deve ser ou deixar de ser importante para o outro, não é mesmo?

E querer pelo outro, além de ser invasivo, é improdutivo: quando o parto não acontece, a gente sofre mais do que a própria pessoa envolvida. Energia jogada fora, querendo mexer nos desejos e prioridades do outro quando cuidar das nossas já dá um trabalho danado. Além disso, tem tanta gente espalhada por aí com uma vontade verdadeira de mudar a própria história, de abrir a cabeça, quebrar paradigmas, questionar verdades absolutas e escolher caminhos diferentes para si, que jogar energia fora querendo conquistar a fórceps quem não tem o mínimo interesse no assunto, acaba sendo mais do que desnecessário: vira burrice, mesmo.

Então, pode acreditar: mais vale a gente esperar que quem quiser, queira por si. E aí, tá super liberado ficar feliz da vida e se jogar de cabeça quando chamarem a gente pra querer junto. 😉

 

 

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5 comentários em “Não queira pelo outro, já basta querer por si

  1. robertarez1
    30 de junho de 2014

    Eu tenho acreditado cada vez mais que, de alguma forma, seja importante para pessoa passar pela experiência, seja lá qual for. Algo me diz que a “não escolha” é uma escolha por si só. E talvez uma cesárea seja mais eficiente para o verdadeiro empoderamento que um parto super natural, porém ainda sob a tutela de alguém, sabe?

  2. Mariane
    1 de julho de 2014

    Amei seu texto. Faz muito sentido, realmente a mudança é algo que só pode mesmo vir de dentro pra fora.
    Em 2010 eu tive meu primeiro filho por uma cesárea. Não fazia a mínima ideia da existência do mundo do parto humanizado. Desejava um PN mas super acreditei nas justificativas que o GO fofo me deu para fazer a cesárea sem eu nem entrar em TP.
    Não questionei. Não sabia que deveria. Minha cabeça realmente estava em outro mundo. Todas as minhas amigas ou conhecidas que tiveram filhos na mesma época tb tinham feito cesárea. Tudo me pareceu normal.
    No inicio de 2014, minha 2a filha também veio ao mundo da mesma forma que o primeiro. Dessa vez uma amiga que mora em outro país, com a qual só tenho contato por facebook, tentou me dar uns toques sobre tentar um PN. Mas eu mais uma vez estava absolutamente convencida pelo GO fofo que eu precisava de uma 2a cesárea por determinados motivos. Nunca me deu outra opção.
    Somente no meu 2o puerpério, é que comecei a ler sobre humanização do nascimento, protagonismo feminino, maternidade ativa… Só então aí a ficha caiu. Foi muito difícil aceitar e assumir que eu errei feio. Sinto uma mistura de culpa e frustração. Sinto-me traída. Sinto-me vítima do sistema. As vezes me pego pensando que gostaria que uma ativista tivesse me dado um “acooorda”… Mas sei que talvez não mudasse nada, por que chave só funciona mesmo é aqui pelo lado de dentro.
    Isso é um pouco da minha história. Me consolo exercendo a maternidade da forma mais plena, amorosa e ativa que posso. O difícil é controlar a vontade de despejar o discurso sobre parto humanizado e a realidade obstétrica brasileira em cada gestante que passa por minha vida…

    • Thami Hull Fotógrafa
      21 de novembro de 2014

      Mari,assim como vc tive em 2010 uma cesárea que pra mim foi totalmente traumática…caí em mim no início desse ano e pretendo ter o segundo em casa custe o que custar…a questão é que quando agente fala pra alguém sobre esse nosso “novo pensamento” somos muito questionadas no sentido de “quem é vc?” quem é vc pra falar de humanizado se pariu por cesárea…isso nos sabota muito.Eu já to no meu quadrado faz tempo…falo muito pouco sobre isso,a nãe ser na minha rede social que não direcionada a ninguém e é minha,posso falar o que quiser….mas sou atacada demais,imagine se for falar diretamente,perco todas as minhas amizades! rsrsrsr

  3. valeria rezende
    3 de julho de 2014

    Concordo com o que vc disse,mas tenho vivido isto sob a ótica da gestante.Só agora encontrei um GO que está verdadeiramente me apoiando no parto natural, depois de escapar de 2 cesaristas.Parei de falar pras pessoas que estava indiquinada por estar sendo empurrada pra uma desnecesária porque ninguém entendia o quão importante pra mim é parir meu filho.Ouvi coisas como o importante é a criança, se o médico indicou cesária é porque ele sabe o que está fazendo,fiz cesária e estou ótima, pra que sofrer com dor de parto…

  4. Mariane
    1 de agosto de 2014

    Concordo, concordo e CONCORDO!! Mariane, me vi no seu comentário, foi exatamente o que aconteceu comigo, o GO não me deu outra opção, ou melhor, no auge das minhas 36 smeanas de gestação ele me disse, não eu não faço partos, trabalho apenas com cesárea, me encheu um misto de frustração, desconhecimento, aceitamento…e aceitei suas condições, não procurei informação. ”Solamente” alguns meses depois do meu ”parto-cesárea” que conheci um pouco sobre o parto humanizado, tento me consolar, mas é difícil. Tento ser uma mãe de qualidade quando estou com meu filho, mas é difícil aceitar…quem sabe no próximo!!

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