uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Cesárea é parto, ou cesárea não é parto?

cesarea

imagem: crisdoula.com

Uma velha discussão, recorrentemente requentada no mundo materno: cesárea é parto, ou cesárea não é parto?

Pensemos no significado do termo. Segundo o Houaiss, parir significa:

1 ( t.d.int. ) expulsar do útero (feto e secundinas); dar à luz; partejar

    ‹ a cadela acabou de p. uma bela ninhada › ‹ ela não foi feita para p. ›

2 ( t.d. ) fig. expelir (algo) de dentro de si

    ‹ pariu uma golfada de sangue pela boca ›

3 ( t.d. ) fig. criar (algo novo); produzir, engendrar

    ‹ acabou de p. um novo romance ›

Parir é, portanto, na acepção da palavra que nos interessa: parir, como o ato de expulsar o feto do corpo materno. A mulher é sujeito ativo do verbo parir – parir não é verbo que se possa conjugar passivamente, a não ser como sujeito ativo do verbo nascer: eu posso ter sido parida pela minha mãe, mas não posso ser parida no nascimento do meu filho. Obstetras não conjugam o verbo parir, apenas mulheres podem fazê-lo. A cesárea é uma intervenção cirúrgica na qual a mulher se torna paciente, ou seja, sujeito passivo da ação efetuada pelo obstetra, de extração do feto do ventre materno.

Isso posto, a forma como você lida com o seu parto pertence a você. Se para você, a cesárea foi um parto e você quer dizer que pariu seu filho, ainda que ele tenha nascido pela via cirúrgica, essa experiência é sua, e não cabe questionamento. Entre a acepção purista de uma palavra e os possíveis usos cotidianos derivados das experiências pessoais e seus vieses, por vezes há um oceano. Portanto, se você quer dizer “eu pari meu filho que nasceu de cesárea”, e alguém vem lhe colocar o dedo na cara para lhe dizer que não, você não pariu, essa pessoa não está sendo ativista, nem sanguenozóio, nem purista – ela só está sendo invasiva, insensível e desrespeitosa, mesmo. O caminho de elaboração das experiências é pessoal, e cada uma o vivencia como pode, ou como dá conta, ou como deseja.

Entretanto, e essa para mim (e repetindo, pela importância dessa informação: para mim!) é a parte fundamental da questão, podemos falar ainda do significado da experiência, e de seu potencial transformador. Dizer, diante do espelho ou do outro, “eu não pari meu filho”, pode ser libertador para a mulher que, por qualquer motivo, tenha sido submetida a uma cesárea. Quando nos encorajamos para assumir a realidade tal qual ela se nos apresenta, a vida nos presenteia com a possibilidade de transformá-la. Explico com um exemplo pessoal: eu tive um primeiro parto normal, com intervenções indesejadas que me doeram por algum tempo. Negá-las, escondendo-as sob o véu do eufemismo, dizendo que “eu tive um parto natural, com alguns “empurrõezinhos” da equipe obstétrica”, teria me tirado a oportunidade de trilhar um intenso caminho de autoavaliação e de transformação pessoal que me levaram a, na segunda gravidez, parir minha caçula em casa, em um parto naturalíssimo e à jato. Não, eu não tive um primeiro parto natural – eu tive um primeiro parto normal, com intervenções. Em que isso me diferencia de qualquer outra mulher, que tenha parido naturalmente ou sido submetida a uma intervenção cirúrgica? Em nada. Em que isso diminui a experiência? Em absolutamente nada, mas admiti-la tal qual aconteceu deu-me forças para ressignificá-la e transformá-la em um degrau para ir adiante.

O mesmo posso exemplificar, contando minha caminhada com o aleitamento materno: na briga para amamentar minhas filhas mais velhas, gêmeas, diante das (muitas) dificuldades para fazê-lo sem complemento artificial, eu poderia simplesmente ter recorrido à alternativa fácil de dizer, para mim mesma e para os outros: “eu amamentei minhas filhas, com a ajuda da mamadeira quando necessário” Dar mamadeira é amamentar? Não. Dar mamadeira é dar mamadeira, amamentar é amamentar. Assumi-lo, e confrontá-lo com o meu desejo de amamentar efetivamente, deu-me forças para superar os desafios e vencer também essa etapa, amamentando minhas filhas exclusivamente ao seio até os seis meses, e posteriormente até os três anos e meio.

Portanto, se cesárea é parto ou não é parto, talvez realmente não seja a questão. Discutir infinitamente ao redor da pergunta não nos levará a lugar algum. O importante que se nos apresenta aqui é: o que você vai fazer com isso? Qual o significado que dará a essa experiência, e qual a oportunidade que nascerá dela?

O seu parto é seu, antes e depois de acontecido. A elaboração da experiência pertence a você, e ninguém pode vivenciá-la no seu lugar. Dê a ela seus contornos próprios, e à sua maneira, tire dela o melhor que pode lhe oferecer. É para isso que serve a vida, afinal.

Entre parir e não parir, há um oceano de possibilidades – de amadurecimento, de aprendizado, de revolução. Seja qual for a palavra que você desejar usar para se referir ao nascimento do seu filho, a única oportunidade que não deveria perder é a de deixar-se transformar pela experiência.

Parir é revolucionário. Não parir também pode ser. Só depende de você.

 

 

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13 comentários em “Cesárea é parto, ou cesárea não é parto?

  1. alerib
    7 de julho de 2014

    Nossa, que texto excelente. Você chegou naquilo que realmente importa quando a questão é parir ou não. Vou divulgar. Abraço, Alessandra.

  2. Lilian Mello
    7 de julho de 2014

    Oi Renata! Texto muito legal (como sempre!). Eu tive minha filha por cesárea depois de 75 horas de bolsa rota, quando ela entrou em sofrimento… antes da cirurgia, passei por intervenções que eu pedi (analgesia) e indução, por conta do risco de infecção (e do meu medo). Tudo super consciente, mas muito doloroso do ponto de vista emocional. E encarar o que houve foi essencial para eu entender por quê meu corpo não respondeu na velocidade necessária para que eu tivesse meu parto natural. O quê meu cérebro processou para bloquear o trabalho de parto. Sem dúvida, esse processo foi super importante e terá sido parte fundamental do meu próximo parto, que, espero, seja natural. Te conto quando acontecer! 😉 Um beijo carinhoso

  3. Lu
    8 de julho de 2014

    Parir um filho não torna ninguém mais mãe, a maioria dos bebes abandonados nas lixeiras vieram ao mundo de parto normal… Ser mãe é muito mais do que parir ou não seu filho… Do que amamentar ou não…

    • rebeca Almeida
      25 de janeiro de 2015

      Concordo. Sou mãe se três. Três partos. Um de processo natural e outros dois de cesária. Digo que na minha cabeça tudo está resolvido. Não precisei de libertações mentais. Não mesmo. Meu leite desceu igualmente em todos. Meus sentimentos maternais já estavam ligados a mil desde a hora que soube que os teria. Gosto de falar por minha experiência. Experiência vivida. E nesse quisito posso dizer que não houve diferença para mim quanto aos meus sentimentos maternais ou a minha visão do que eu pari, dei a luz, cesariei. O meu dia dia e as necessidades deles acabaram por tornar tudo secundário.

  4. Willian Germano
    8 de julho de 2014

    “ela só está sendo invasiva, insensível e desrespeitosa, mesmo.” – obrigado por essas palavras… Saímos da luta pelo parto humanizado pois as “chefonas” do “movimento” fizeram exatamente isso conosco… acho que falta-lhes muito amor. Mas creio que há, sim, pela forma como uma das “maiores delas” disse, que há um sanguenozóio sim. Parece que a reputação de voltar atrás e entender que humanizar é amor está longe.
    E foi bom perceber que o “problema é nosso e de mais ninguém”

    Paz pra todos (em especial pra quem teve de correr pro Plano B)
    PS. a quem mais comentar ou se ofender comigo: não estou discutindo. Não discuto mais esse assunto.

  5. Breno Peck
    8 de julho de 2014

    Se parir cesárea também é parir, então dar mamadeira também é amamentar.

  6. Alexandra
    8 de julho de 2014

    que lindo texto! amamentei por três meses apenas, complementando com LA desde o início, e minha filha nasceu por cesárea, não sabia nada do que sei hoje sobre partos, tenho algumas peculiaridades que não vem ao caso, a maternidade foi e é revolucionária para mim, e amei o seu texto!!! tento cuidar com muito amor e com limites, me preocupo com várias questões que acredito que são importantes, mas aprendo a cada dia que a melhor maneira de ensinar, é sendo…

  7. Jaqueline Lima
    8 de julho de 2014

    Nesse interminável debate de se é parir ou não é parir, achei o seu texto muito respeitoso e, por que não dizer, até carinhoso. Concordo com você, a questão (que são muitas na verdade) é o significado atribuído pessoalmente para cada experiência e a capacidade de transformação, de amadurecimento que essas vivências possuem para nos conduzir a sermos mães melhores, pessoas melhores, enfim.

  8. Karen Kroll
    8 de julho de 2014

    Fantástico!

  9. Natália
    28 de julho de 2014

    Oi Renata! Sempre me emociono com seus posts! Recebi um selo lá no blog e estou indicando blogs inspiradores. Com certeza vc é uma inspiração!
    Bjs

  10. Patricia Amorim
    6 de agosto de 2014

    Gostei de seu texto. Eu cheguei na maternidade e descobri que estava com a bolsa rompida há três dias, pois tive a chamada bolsa rota. Logo quando fui examinada pela plantonista, descobri que não teria como ter parto normal. Primeiro porque não tinha contrações, nem mesmo dilatação, segundo porque durante toda a gestação tive placenta prévia, porém a sensação de ver uma parte de mim, saindo de meu ventre e chorando, foi algo indizível. Parir, olhar para aquele rostinho, beijá-la e poder amamentá-la em seguida, fez-me mãe, fez-me amiga, mais mulher, uma mulher completa. Quem sabe numa próxima não consigo um parto natural?

    • renata penna
      6 de agosto de 2014

      fico torcendo que sim, Patricia!
      obrigada pelo comentário!
      abs

  11. Pingback: Melhores textos sobre maternidade: janeiro de 2015 — Roteiro Baby

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