uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Que filho tem vida, e vida é pra gente deixar viver

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fotomamifera.com.br

 

Filho não é coisa, que a gente possa possuir. O direito que a gente tem é de amar. É estar presente.

Engraçado a gente dizer “criar” um filho. Porque a gente não cria coisa nenhuma. A gente não faz. Quando muito, a gente tem a sorte de presenciar uma coisa bonita nascendo, como um milagre. Uma coisa nascida da gente mas também nascida do outro, nascida do contato, da pele encostada na outra pele, do sentimento que a gente deixa escapar por todos os poros, do amor que a gente não sabia que podia sentir.

Filho é como uma força da natureza: vem, e acontece. Ai da gente, se quiser segurar, colocar-se na frente, direcionar, decidir. Filho é vulcão, e a gente nunca sabe quando é que vai entrar em erupção. E quando acontece, transforma tudo. Se a gente só olha o que podia ter sido e não foi, vira sofrimento. Se a gente abre o coração e aceita o inesperado, vira dádiva.

Maternidade, vejam, é desse jeito: é preciso abrir mão do controle. Desistir da vigilância, aceitar que é besta e inútil a gente se outorgar o direito de decidir sobre tudo, de determinar cada detalhe, de saber de antemão como cada pedacinho da vida há de acontecer. Ter um filho ensina a gente a respirar. Bem profundo, largando os braços ao longo do corpo. Como quem se entrega sem saber o que será. Como quem aceita que o bonito da vida nos escapa das mãos – e por isso mesmo é que é bonito.

Ouvi, por esses dias, contar de mães que determinam a data do filho nascer com base na astrologia, ou para casar com a data do aniversário de casamento, com o aniversário do tio, do padrinho, do irmão mais velho. Mas filho tem a hora dele, que não é a nossa – pode até coincidir, mas quase nunca vai. Não é a gente que decide se é cedo, se é tarde, se é agora ou daqui a pouco. Tem que respirar fundo, respeitar o tempo do filho vir e esperar. De braços cruzados, e de coração embriagado de amor. A espera pode ser bonita, a espera pode ensinar muita coisa.

O aprendizado de esperar o filho dizer quando vai nascer é o primeiro, de muitos. E é um bom começo. Que vai ajudar a gente dali a pouco a ter serenidade para respeitar o tempo dele de mamar, seja de duas em duas horas ou infinitas vezes ao dia. E a não querer determinar quantas horas aquele bebê vai dormir por dia, se vai ser de noite ou durante o dia todo para depois varar a madrugada. E a entender que a gente não pode arrancar as cólicas com a mão, nem acalmar todas as angústias que a gente não sabe nomear, e nem eles. E a aceitar que a gente tenta, e isso às vezes vai ser o suficiente e outras vezes não. E a gente vai aprender a lidar com tudo o que nascer daí. Filho não vem com manual de instrução, com o indicativo certo do botão a apertar para obter o resultado correto. Filho não tem resultado correto, filho tem vida.

E depois o filho vai sentar, e engatinhar, e caminhar, e falar, e aprender a ler e escrever, e descobrir uma porção de coisas bonitas e outras bem doloridas, e em todas essas horas, a gente há de estar lá: sem controle. Querendo muito poder decidir pelo que a gente acha ser o melhor jeito, mas sem nenhuma possibilidade de que isso venha a acontecer. Porque o filho é um sopro, solta-se pelo mundo e a gente não consegue agarrar. Quando muito, se a gente se dedica e tem coração grande, a gente sente. E sente profundo, e sente doído, e sente bonito. E sente, e é tudo o que dá pra gente fazer.

E daí pra frente, a coisa só cresce, elevada a uma potência que nenhum número poderia calcular. O filho vai dar os seus passos, o filho vai sentir coisas só suas, o filho vai se relacionar com gente que a gente desconhece, vai criar vínculo que não tem nada a ver com a gente e a gente nem compreende, vai fazer suas escolhas, vai encontrar as verdades só suas.

E a gente, bem. A gente fica ali, suspirando. Crendo na força daquilo que a gente quis ensinar, e tentou tanto quanto deu conta. Guardando aconchegadinho no coração todo aquele amor desavergonhado, que a gente sabe que vai estar sempre ali, sempre de prontidão. Pro filho deglutir como achar que deve.

Porque o que o filho faz desse amor imenso que a gente tem pra dar, isso a gente também não controla não.

Mas isso, eu desconfio que é a maior sorte de todas.

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24 comentários em “Que filho tem vida, e vida é pra gente deixar viver

  1. Gabi Ramalho
    22 de julho de 2014

    Lindo, lindo, lindo…!!!!!

  2. Diana
    22 de julho de 2014

    Lindo, perfeito!

  3. robertarez1
    22 de julho de 2014

    Lindo demais! E para mim veio com um suspiro de alívio porque vez ou outra me sinto mal por não tentar controlar tanto a vida do meu filho quanto eu acho que eu deveria… e nem sei porque eu acho isso. Confuso, confuso! rsrs

    Grata por essa poesia em prosa rs

  4. Jaqueline Lima
    24 de julho de 2014

    Emocionante… lindeza!!!
    Jaqueline Lima
    http://verdemamae.blogspot.com.br/

  5. Marisa Alves Izidio Rezende
    30 de julho de 2014

    Lindo demais…

  6. Pingback: Que filho tem vida, e vida é pra gente deixar viver | arquimãe

  7. gabriela
    30 de julho de 2014

    Muito Lindo!!!

  8. Ana Maria Passarini
    30 de julho de 2014

    veio da alma essas palavras neh ❤ amei

  9. ´
    30 de julho de 2014

    obrigada Senhor por me dar a honra de ter UM FILHO.

  10. Aline Coutinho
    31 de julho de 2014

    lindo e verdadeiro. adorei!

  11. Mariana Vieira
    31 de julho de 2014

    Virou um mantra, vou colar na parede: “Se a gente só olha o que podia ter sido e não foi, vira sofrimento. Se a gente abre o coração e aceita o inesperado, vira dádiva.”

  12. patricia
    31 de julho de 2014

    Tudo muito lindo, tudo muito verdadeiro. Mas temos a oportunidade única de falar pra nosso filhos do seu Criador, este que o desejou e nos presenteou com essas dádivas preciosas. Só assim tenho a certeza que ao me desprender estará em segurança!!!! Deus tudo que Ele fez e planejou é perfeito!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    • renata penna
      1 de agosto de 2014

      o importante é compartilhar com os filhos aquilo que a gente acredita, né?
      abs!
      renata

  13. Mônica
    31 de julho de 2014

    Lindo demais !!!!!!

  14. Juliana
    1 de agosto de 2014

    Achei muito pertinente , muito inteligente , muito legal …
    Mais queria só fazer um apelo nesse texto em especial , pq não usar a linguagem inclusiva ?

    • renata penna
      1 de agosto de 2014

      o que você chama de linguagem inclusiva, Juliana?
      abs
      renata

  15. Mariane
    1 de agosto de 2014

    Que lindoo!! Ameii, ser mãe é exatamente isso…mtoo amoor!

  16. Puttkamer
    1 de agosto de 2014

    Mais ou menos como o texto do Affonso Romano Sant’Anna:
    http://www.releituras.com/arsant_antes.asp

  17. Grace
    1 de agosto de 2014

    Tenho um blog no Yahoo e citei seu post! Achei muito lindo. Parabéns! Está na home agora, chamando pelo vídeo: https://br.mulher.yahoo.com/blogs/mamae-eu-quero/filho-para-nascer-e-crescer-204557713.html

    • renata penna
      2 de agosto de 2014

      muito obrigada, Grace!
      fico feliz que tenha reverberado por aí. 🙂
      abs

  18. Bruna Rios
    4 de setembro de 2014

    Texto lindo, chorando litros!

    “Porque o filho é um sopro, solta-se pelo mundo e a gente não consegue agarrar. Quando muito, se a gente se dedica e tem coração grande, a gente sente. E sente profundo, e sente doído, e sente bonito. E sente, e é tudo o que dá pra gente fazer.”

    Obrigada pelas palavras 🙂

  19. Tina Zani
    4 de setembro de 2014

    Que lindo ❤

  20. Gahh Moreno
    9 de março de 2015

    Estou de pijama 24h, amamentando sabe lá de quanto em quanto tempo, sem sair de casa. Mas completamente apaixonada, amando ser mãe. Meu filho é lindo, perfeito, com saúde, feliz, porque sorri muito e as vezes ate da gargalhada. Ele é tudo que eu acho lindo num homem, e não poderia ser melhor!
    Minha mãe é doutora em ser mãe e agora avó, e todos os conselhos que ela dá eu sigo, tudo que ela fala eu ouço, e se ela me diz que é assim que faz, pode vir qualquer outra pessoa e dizer que ta errado, que não me importa, o certo é como ela diz.
    Esse filho me trouxe a alegria de ser mãe, e mais ainda alegria de ser filha, ele me trouxe a oportunidade de me aproximar de uma mãe que eu não conhecia, dar valor na educação que tive, e amá-la em poucas horas mais do que já amei a vida toda. Tive parto normal e ela ficou o tempo todo comigo, foi maravilhosa, incrível e muito forte, porque o parto foi difícil e com complicações. Mas no final deu tudo certo e ela me fez ser a guerreira que ela sempre foi…

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