uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Parir não é natural!

 

foto: fotomamifera.com.br

foto: fotomamifera.com.br

 

Na nossa realidade, infelizmente, não é.

O natural, hoje, na nossa realidade, é ter sete camadas do seu corpo cortadas, seu organismo bombardeado por uma série de medicamentos fortíssimos, para que seu bebê seja tirado do útero, pelas mãos de um médico – por comodidade, por inabilidade, por ganância, por falta de ética ou em nome da tranquilidade do final de semana.

Quando se descobre uma gestação, especialmente no caso das mães de primeira viagem, é inimaginável o caminho a ser percorrido, para conquistar – sim, é uma conquista! – um parto natural, um nascimento respeitoso para seu bebê. É preciso mais do que simplesmente “deixar acontecer”: é preciso criar condições para que possa, de fato, acontecer. E como? Buscando informação de qualidade, enfrentando os próprios fantasmas, quebrando paradigmas, fazendo escolhas conscientes e afinadas com aquilo que se deseja para o próprio parto.

Ouço dizer, às vezes, sobre o  bombardeio de informações, teorias, números e evidências, sobre uma gestante que, teoricamente, deveria preocupar-se somente em curtir seu estado gravídico e a espera de seu bebê. Bem, do lugar da minha experiência de quem pariu duas vezes, eu não acredito que informar-se seja motivo de sofrimento – muito ao contrário, ajuda-nos a crescer, assumir a responsabilidade e tomar nas próprias mãos as rédeas da própria vida, algo que será fundamental na caminhada que virá a seguir, de maternar o filho nascido (por uma via, ou pela outra).

Mas ainda que consideremos que em uma realidade ideal, uma gestante poderia curtir seus nove meses de gravidez preocupada apenas em conectar-se com seu corpo e seu bebê, fazer coisas agradáveis e levar a vida adiante. Quando entrasse em trabalho de parto, dirigiria-se a qualquer unidade de saúde, ou mesmo seria naturalmente acompanhada em sua casa por um profissional qualificado, e se entregaria ao processo sem maiores preocupações, ciente de que as coisas aconteceriam como deveriam acontecer: salvo raras intercorrências, seu bebê sairia por onde entrou.

Infelizmente, estamos longe de uma realidade ideal como esta. Em um país cujas taxas de cesárea ultrapassam os 50% (e nos hospitais particulares, chegam a bater nos 90%), e que oferece àquelas ‘sortudas’ que escapam da faca desnecessária uma enorme probabilidade de vivenciar um parto normal violento, cheio de agressões, desrespeito e intervenções desnecessárias, o destino mais natural para uma gestante que não se municia de informações e conhecimento ao longo da gestação, é ter seu parto roubado – aconteça ele por via baixa, ou por via alta.

Sim, parto é entrega. Sim, para parir, é preciso que em algum momento a mulher se desligue da racionalidade, esqueça das evidências científicas, livre-se das estatísticas para abraçar seu instinto e deixar-se levar pelos movimentos que a natureza lhe traz ao corpo. Sem isso, o parto fica difícil. Mas na realidade em que vivemos hoje, essa entrega e este desapego da razão só podem acontecer quando foi cuidada – e muito bem cuidada – a etapa anterior: o mergulho na informação que leva às escolhas conscientes, empoderadas, lúcidas.

Para entregar-se ao parir, é preciso que a mulher se sinta segura. Ninguém pari em estado de alerta. Para sentir-se segura, é preciso estar acompanhada de uma boa equipe, na qual se possa confiar. É preciso estar em um ambiente no qual você não se sinta ameaçada, nem imagine ter que lutar para parir como você deseja.

Partos naturais acontecem em ambientes inóspitos, com equipes dando o contra? Sim, acontecem. Mas essa é a exceção e não a regra. Contar com essa possibilidade é contar com a sorte – se é que se pode chamar de sorte a experiência de parir com todos os seus sentidos voltados para a autopreservação, que é o que acontece com a maioria das mulheres que, a despeito de tudo e de todos, conseguem ter suas experiências desejadas de parto em um ambiente tradicional hospitalar, cercadas por profissionais não afinados com a humanização do nascimento e o protagonismo feminino.

Eu acredito na sorte, sim. Mas prefiro deixar que ela me agracie naquelas esferas da vida onde não é possível contar com outro tipo de planejamento, que me aproxime com mais segurança daquilo que eu desejo que me aconteça.

Se parir não é natural, hoje, na realidade em que vivemos, é preciso fazer acontecer.

E você, vai deixar acontecer, ou fazer acontecer?

 

ps: para aquelas mulheres que fizeram as melhores escolhas possíveis dentro da sua realidade, e ainda assim se viram engolidas pelo sistema, recomendo passar por aqui.

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10 comentários em “Parir não é natural!

  1. Natália
    30 de julho de 2014

    Oi Renata! Excelente reflexão! Desde quando eu suspendi o uso de anticoncepcional para tentar engravidar, eu já conversava com minha ginecologista sobre ter um parto “normal” (nadando contra a maré, pois na minha família, depois de minha avó, eu seria a primeira a parir desse jeito). Depois que engravidei, comecei a buscar mais informações a respeito e descobri o conceito de humanização. Mais uma luta pra achar quem pudesse me proporcionar um parto de respeito.
    No seu post, acho que faltou só uma abordagem: a financeira. Não sei como é por aí, mas aqui em Salvador-BA, tive que desembolsar R$ 5.000 para ter o parto que eu desejava – mesmo tendo plano de saúde. Essa é mais uma (grande) barreira aos que desejam e buscam “parir normal”. Se eu optasse pela cesárea, estaria coberta pelo plano.
    Quero muito um segundo filho (a minha bebê tem 8 meses) e já estou providenciando uma outra poupança para, quem sabe, daqui a um ano mais ou menos suspender novamente o anticoncepcional e ter que pagar o preço para trazer mais uma vida ao mundo com seu devido respeito.
    Bjs

    • renata penna
      30 de julho de 2014

      olá Natália.
      com certeza a questão financeira é um ponto importante, vou pensar em outro post falando disso. obrigada pela colaboração.
      bjs

    • Bia Câmara
      30 de julho de 2014

      Natália,
      Realmente esta é uma questão importante, mas já há inúmeros projetos relacionados a esta questão, como a construção de novas CASAS DE PARTO e CPNs espalhados pelo Brasil>
      Agora, vc mora em SALVADOR, e específicamente em SALVADOR, existe a CPN MANSÃO DO CAMINHO, vc conhece?
      Que eu saiba, o atendimento é gratuito…
      Aqui vai o site:
      http://www.mansaodocaminho.com.br/mansao/saude-centro-de-parto-normal.php
      E aqui a página do Facebook:
      https://www.facebook.com/cpn.mansaodocaminho?fref=ts

      Em algumas outras cidades, tb já existem opções GRATUITAS para quem busca um parto respeitoso…em SP temos a CASA DE PARTO DE SAPOPEMBA, em Brasília a CASA DE PARTO DE SÃO SEBASTIÃO…e mais algumas opções em outras localidades…

      Para quem se importa, é sempre interessante procurar se informar quem são as pessoas que lutam por melhorias neste sentido, em sua cidade, e se envolver nesta luta!
      Há muito sendo feito…muitas pessoas lutando pelo acesso ao parto respeitoso PARA TODOS…mas quanto mais pessoas se unirem nesta luta, melhor! TEMOS QUE AGIR!

      • Natália
        1 de agosto de 2014

        Oi Bia! Que legal seu cuidado! Obrigada!
        Sim, eu conheço o CPN. Inclusive o GO que fez o meu parto é o Diretor de lá da casa de parto. Na verdade a decisão foi minha de querer parir num hospital. Pra minha tranquilidade, eu preferi estar num ambiente em que tivesse disponível, se desejasse, analgesia, além de UTI neo. Então eu tive que “pagar o preço”. É injusto, pois a humanização deveria estar estendida a qualquer ambiente que tivesse estrutura para receber uma parturiente.
        Mas meu parto foi tão tranquilo que me faz pensar na possibilidade de tentar parir um segundo filho (quem sabe?) lá no CPN.
        Um grande beijo!

  2. Claudia
    30 de julho de 2014

    É… infelizmente justamente por essa questão financeira, terei que contar com a sorte…
    Estou totalmente desiludida com o parto humanizado que tanto sonhei… Só tendo dinheiro para conseguir, quem não tem, que conte com a sorte.
    😦
    😦
    😦

    • Bia Câmara
      30 de julho de 2014

      Claudia,
      Aonde vc mora?
      Já procurou algum grupo de apoio ao parto na sua cidade ou próximo de vc?

  3. Pablo Rodrigo Jacinto
    31 de julho de 2014

    Olá Renata, estou buscando informações e fontes diferentes da tradicional (consumista e cesariana). Você poderia nos indicar sites, profissionais, livros, filmes etc neste sentido, de um parto natural e humanizado? Abraços

    • renata penna
      31 de julho de 2014

      olá Pablo!
      filme, “O Renascimento do Parto” é um maravilhoso começo, um panorama super claro da realidade obstétrica brasileira.
      livros: “Parto normal ou cesárea, o que toda mulher deve saber (e todo homem também)” considero uma fantástica introdução.
      sites: estudamelaniaestuda.blogspot.com, parto no brasil, cientista que virou mãe, eu quero parto normal, mamatraca…
      comunidades no FB: Cesárea, não obrigada!.
      acho que por aí já tem um bom começo de pesquisa!
      seguimos em contato, se quiser pode me escrever no renata@atelierdapalavra.com.br
      abs
      renata

      • Pablo
        31 de julho de 2014

        Olá Renata, muito obrigado pela pronta resposta!

        Já estou lendo e estudando algumas das fontes que você sugeriu! Muito bom, obrigado!

        Quanto ao filme, estamos querendo comprar o filme ou emprestar de alguém que o tenha, mas já acompanhamos o site e funpage mesmo antes de “engravidarmos”.

        Tentei lhe responder pelo email que você indicou, mas não funcionou.

        Acabamos de retornar ao Brasil e contratamos um plano de saúde, mas nenhum deles cobrirá o parto, haja vista que há uma carência para todas as operadoras.

        De qualquer forma, parece-nos que os hospitais do SUS priorizam o parto natural e por isso estamos pesquisando a respeito deste assunto, especialmente aqui no hospital de Cotia onde moramos. Peço a gentileza de nos enviar dicas e fontes de hospitais públicos e privados que priorizaram o parto natural e humanizado, bem de profissionais nesta área.

        Seguiremos suas publicações futuras.

        Abraços,

        Pablo e Karina

      • renata penna
        31 de julho de 2014

        Pablo,
        me desculpe, passei um email antigo q está desativado, o atual é renata@fotomamifera.com.br

        já pensaram na possibilidade das casas de parto? a Casa Ângela tem um trabalho bem interessante. há também a Casa de Parto de Sapopemba, que atende pelo SUS.

        abs

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