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As crianças, os pais, a educação e a falácia do “deixar fazer o que quiser”

fotomamifera.com.br

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Poucas coisas parecem ter caminhado tão pouco, e tão preguiçosamente, quanto a educação, e o olhar da sociedade sobre as crianças, suas necessidades e direitos. Não é raro ouvir de pessoas supostamente esclarecidas discursos como “criança precisa de disciplina, precisa saber quem é que manda”, “criança precisa aprender a obedecer”, ou “os pais modernos acham que não tem que educar, tem que deixar a criança fazer tudo o que quiser, do jeito que quiser, na hora que quiser”. Quantos equívocos!

Nos últimos anos, até por força do início da vida escolar das minhas filhas, envolvi-me um bocado com debates a respeito da educação formal, do papel dos pais e dos professores na formação da criança, das questões de autoridade, hierarquia, autonomia, disciplina, liberdade e aprendizado. Temas fascinantes, que não pretendo esgotar nesse texto, nem poderia. Mas arrisco-me a pincelar algumas reflexões.

Começo dizendo que, da forma como entendo, educar uma criança para a liberdade e a autonomia, respeitando seus tempos e necessidades e concedendo-lhe voz e direito de se manifestar tanto na concordância quanto na discordância, não tem absolutamente nada a ver com “deixar fazer o que quer”. Tem a ver com dispensar as hierarquizações desnecessárias, abrir mão da muleta da autoridade vazia, não dar carteirada, não lançar mão do discurso oco do “eu mando e você obedece”. Tem a ver com abrir-se para ouvir o que a criança tem a dizer, olhá-la com respeito, permitir-lhe a responsabilidade de decidir coisas com as quais já pode arcar, compreendê-la como um ser humano inteiro, com direito de manifestar-se, de reivindicar o que lhe parece importante, de ir contra o que não compreende, de exigir que lhe expliquem e desejar compreender o que lhe é dito.

“As crianças de hoje não sabem mais obedecer”, dizem os críticos das novas formas de encarar a educação das crianças. Bem, será que isso é ruim? Estamos vendo nascer uma geração de crianças que não obedecem mais, assim simplesmente, por obedecer, ao ouvir a voz de comando. Eles querem compreender porque é que devem seguir uma orientação, querem opinar a respeito, querem ajudar a construir as regras, querem participar das decisões. Com isso, estamos vendo nascer uma geração que talvez saiba se responsabilizar melhor pelas escolhas feitas, por delas haver participado, do que a anterior, que sabia obedecer muito bem, mas não fazia a menor ideia do porque.

Estamos vivendo, nós, os pais desta nova geração, uma incrível quebra de paradigmas: convivemos, orientamos e temos a responsabilidade sobre crianças que não aceitam mais, cabisbaixas, como faziam seus pais e avós, o “porque é assim e pronto”, “porque eu mando”, ou similares. E sinceramente? Que bom! Porque podemos fazer melhor do que isso, não acham?

Os educadores acostumados à educação tradicional tremem diante das novas alternativas, que quebram com a hierarquia escolar e elevam o aluno à condição de protagonista de seu aprendizado, ao invés de enxergá-lo como mero receptáculo de conteúdo. E eu os compreendo: mudar não é fácil. Exige de professores, pais, alunos – exige de todos, em coragem e comprometimento verdadeiro com esta nova realidade.

Fala-se muito sobre a famigerada “indisciplina” nas escolas. Culpa, na teoria, dos pais, que não estariam exercendo sua autoridade, o que confere aos alunos a crença de que não existem limites, e de que podem fazer tudo o que querem. Discordo, com veemência. Em primeiro lugar, porque respeitar as crianças em sua autonomia e dar-lhes liberdade para exercerem sua individualidade, respeitar seus tempos, curiosidades e desejos, e conceder-lhe voz ativa na discussão dos caminhos a serem trilhados, na vida como na escola, não tem nada a ver com “deixar fazer o que quiser”. Deixar fazer o que quiser poderia ser relacionado a uma tremenda ‘preguiça educacional’: não quero debater, não quero refletir, não quero gastar meu tempo com qualquer tipo de orientação, portanto deixo ‘fazer o que quer’. Conceder liberdade, autonomia e voz à criança e ao aluno, muito ao contrário, é trabalhosíssimo: envolve a disposição da escuta, que valoriza o que a criança/aluno tem a dizer; envolve o respeito aos tempos e necessidades individuais, o que nos obriga a constantemente reelaborar e repensar caminhos e possibilidades, de maneira que o aprendizado e as caminhadas da vida sejam proveitosos para todos; envolve abrir mão da confortável hierarquia que nos concede o direito de vociferar “porque sim”, e obriga a pensar a respeito das orientações, a buscar porquês, a compreender a que serve tomar esta ou aquela direção. Entre exercer a autoridade do ‘porque sim’, deixar a criança fazer o que quer, ou educar para a autonomia, não tenho a menor dúvida de que esta última opção será, de longe, a mais trabalhosa.

Além do mais, se observarmos cuidadosamente perceberemos que a tal da “indisciplina” é, no mais das vezes, um pedido de socorro: “olhem-me! reparem naquilo que me é particular, compreendam minha forma de ver o mundo e ajudem-me a compreender a forma de ver o mundo daqueles que estão ao meu redor”.

Lembro de uma reunião na escola das minhas filhas – uma escola democrática, uma iniciativa totalmente inovadora e de vanguarda – em que, entre pais, alunos e educadores, comentávamos sobre esta dificuldade: como educar uma nova geração para uma liberdade que nós mesmos desconhecemos, para a qual nós mesmos não fomos preparados? Nossa geração não foi educada para a autonomia, para a igualdade, para o respeito às diferenças. Muito ao contrário: uns mais, outros menos, mas em algum grau fomos todos educados para obedecer, para respeitar as organizações hierárquicas, para encaixar-nos no padrão determinado, para deixar-nos colocar em escaninhos etiquetados. Precisamos, portanto, não apenar ensiná-los a serem livres e autônomos, mas aprender também a sermos, nós mesmos, capazes de vestir esta mesma liberdade, esta mesma autonomia.

Isso talvez seja o mais bonito das novas iniciativas da educação: não há mestres, não há aprendizes – ou melhor, há mestres que são também aprendizes, há aprendizes que são também mestres, e os papéis se misturam e se confundem a todo momento, em uma experiência fluida e contínua em que todos ensinam e aprendem juntos, em uma construção coletiva de novas possibilidades.

Só alcançaremos uma nova educação, libertária de fato, que realmente prepare para a autonomia, quando abrirmos mão dessa visão limitada que, inacreditavelmente, ainda é tão comum no século XXI: a de que a criança é um ser que necessita ser dominado, domado, domesticado, adaptado a aquilo que esperamos dela. Não, não é. A criança é um ser único, como somos todos. A grande diferença é que nós nos acostumamos a ser desrespeitados em nossa unicidade – ela, ainda não.

Se ela aprenderá conosco a se adaptar, ou se nós aprenderemos com ela a nos libertar, é o que nos cabe decidir. E essa decisão urge, mais do que nunca.

 

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16 comentários em “As crianças, os pais, a educação e a falácia do “deixar fazer o que quiser”

  1. Grazieli
    22 de agosto de 2014

    Que texto lindo. De uma sensibilidade sem dimensão, amei, e compartilho desses anseios! Obrigada por traduzir em palavras minhas crenças!

  2. Natalie Catuogno Consani
    22 de agosto de 2014

    Sensacional! 😉
    Você conhece a Rebeca Wild, fundadora do Pestalozzi do Equador? Acabei de ler um livro dela (“Etapas del Desarrollo”) que vai bem nessa linha que você propõe e mostra, entre outras coisas, que nós adultos ganhamos muito em aprendizado e autonomia quando damos espaço para a autonomia dos pequenos.

    Abraços

  3. Jaqueline Lima
    23 de agosto de 2014

    Oi Renata,
    Essa é uma reflexão que não podemos ignorar, né? Eu sempre me questiono sobre isso. Se, por um lado, em certas ocasiões eu “´preciso” que meu filho me “obedeça”, por outro, fico refletindo se quero criar um filho obediente ou um filho autônomo e responsável pelas próprias escolhas… E o mais importante: qual caminho nos conduzirá melhor para essa autonomia e responsabilidade x obediência, de forma equilibrada!?
    Muito obrigada por compartilhar a sua reflexão.
    Um grande abraço,
    Jaqueline Lima
    http://verdemamae.blogspot.com.br/

    • Yara Kenappe
      23 de setembro de 2014

      Perfeita sua reflexão… os sentimentos se misturam e temos muitas dúvidas sobre como devemos agir com nossos filhos.
      Eu acredito que a obediência não é uma coisa ruim e não prejudicará em nada a autonomia e boas escolhas de nossos filhos. Aprender a obedecer é uma forma de respeitar o outro, por que quando uma criança obedece seus pais está atendendo a um pedido de algo que não deve ser feito naquele momento. E que nós como adultos tentamos conduzi-los da forma mais amorosa possível.
      Na vida adulta “obedecemos” as leis de trânsito, “obedecemos” a lei do silêncio e não incomodamos nossos vizinhos. E começamos com as pequenas coisas… e as crianças com “as regras da casa” que elas aprendem a respeitar.
      E não adianta, sempre iremos nos perguntar qual o melhor caminho, só sabemos que não é pelo autoritarismo.
      Um beijo
      Yara

  4. alerib
    25 de agosto de 2014

    Nossa, que texto lindo. Tenho pensado muito nisso também, concordo contigo que é desafiador e angustiante termos que ajudar nossas crianças a fazerem um caminho que nós mesmos desconhecemos. Nenhuma referência, nenhum controle. É como ter que dizer uma palavra que não existe ainda, né? Trabalho imenso que exige coragem. E o mais complicado é encontrar interlocutores e lugares para tal. Me preocupo demais com esse trabalho imenso que a gente faz e que a educação formal ou até mesmo o nosso entorno desfaz, tentando recolocar todo mundo nos trilhos. Um abraço, Alessandra.

  5. Manu
    27 de agosto de 2014

    Muito muito bom! Antes de chegar na parte em que começava a elencar motivos de ser “trabalhosíssimo” eu já estava pensando cá com os meus bem particulares botões: “tudo lindo, tudo faz muito sentido… mas como é que eu vou conseguir ser assim? acho que vou ter que ler muitos e muitos textos desses pra introjetar…”. Eu, filha da minha mãe que quis filhas perfeitas e trabalhou arduamente na base da autoridade pra moldar a gente, com utilização de todos os recursos aceitáveis na época, incluindo diferentes tipos de violência combinados com distanciamento afetivo (pra impor respeito!), eu, filha do meu pai que queria que esse trabalho fosse feito por alguém que não fosse ele, e nos afagava fazendo crer que poderia nos salvar mas, na verdade, era o maior cúmplice do abafamento do que genuinamente éramos dentro da nossa própria casa – a casa era dela, e ela bradava: “minha casa!”, eu, que me criei como pude e fugi como deu logo que possível de tudo isso ainda repito e muito esses gestos abomináveis na minha casa que não é só minha. Com toda sinceridade, odiando repeti-los. Mas perdida de sentido por não saber pra onde ir, onde encontrar o que me falta pra agir diferente.
    Porque pensar eu já penso, certamente. Por vezes consigo. Mas é um esforço consciente e tremendo o que, mesmo na maioria dos textos de criação com apego, parece que deveria ser natural – dado a naturalidade das questões de necessidade afetiva, de automia e liberdade. Que eu ainda hoje sinto. E por isso esse texto foi lindo aqui pra mim. Reconhece: eu não tive isso. E vou dar como? E quase chorei com a idéia libertadora de enxergar a liberdade – minha, inclusive – na criança. Vai continuar a ser um desafio pra mim, mas provavelmente mais leve e melhor compreendido depois dessas palavras. Obrigada!

    • Marcia Guarani Kaiowá
      30 de agosto de 2014

      Adorei suas palavras porque poderiam ser as minhas! também fico nesse impasse de como ser diferente de tudo que minha mãe foi para mim? e mesmo assim sem jogar fora o que foi bom (pouco mas teve)? eu tenho duas meninas, a mais velha um anjo, sempre linda com tudo, dorme bem, come bem, é tranquila posso dialogar tudo com ela, nunca precisei bater nem mesmo falar alto mas a mais nova veio me mostrar que nem sempre as coisas vão ser fáceis! aliás com ela nunca é, nem mesmo conversar é fácil…e agora eu me pergunto como vai ser?

  6. Alessandra Messias
    28 de agosto de 2014

    Esse texto foi a pitada de sal no meu arroz branco e que lhe conferiu um sabor inigualável. Me apaixonei tanto pelo texto que fiquei com o desejo de quero mais. Vc conseguiu traduzir essa angustia que tenho passado na tentativa de ajudar meus filhos a trilhar um caminho totalmente desconhecido por mim. Foi libertador pra mim como mãe e como criança. Espero ainda ler muitos outros textos seus.

  7. Victor
    28 de agosto de 2014
  8. Adriana mengotti schreiber
    28 de agosto de 2014

    Excelente texto!!!!
    A educação deve ser construída continuamente num processo de ensinar e aprender…. o modo como é feita esta construção é que faz toda a diferença! Que tipo de educação gostaríamos de proporcionar aos nossos filhos ?
    Gostaríamos de “seres” cópias, padrões de comportamento , seres robóticos consumidores, inseridos numa sociedade reducionista!
    É necessário mudanças …
    Um abraço

  9. Cesar Libero
    29 de agosto de 2014

    Sou educador, sou anarquista, e em breve serei papai! Esse texto é lindo e representa tudo o que acredito!

    Achei simplesmente fantástico!

  10. mw1972
    29 de agosto de 2014

    Vale conhecer sobre educação Waldorf…tem quase 100 anos!!

  11. escutoacor
    29 de agosto de 2014

    Sensacional!

  12. christieesilva
    31 de agosto de 2014

    Infelizmente, quando eu falo algo do tipo tanto na casa dos meus pais (porque tenho irmãos mais novos) e no meio que frequento (faculdade e escola básica – onde supostamente as pessoas teriam as mentes mais “abertas”), sou metralhada de todos os lados. É simplesmente absurdo para as pessoas dar qualquer voz para uma criança. É triste e tardeia o desenvolvimento da responsabilidade das crianças quando as inibinos do direito de entender o porquê das coisas. Isso é treinar operários e não pensadores. Revoltante!

    Parabéns pelo texto. Tenho um relacionado se quiser dar uma olhada. ;D
    http://caroquartoescuro.wordpress.com/2014/08/29/sou-biologa-mas-queria-ser-dancarina-de-jazz/

  13. Fabiana
    1 de setembro de 2014

    Parabéns!! Também vejo o mundo assim! Autonomia é ser ético, é um ato político, e neste sentido vai na contramão do que nossa sociedade valoriza e faz, quando naturaliza comportamentos de exploração, de desigualdade cultuando a morte e a violência, transformando pais e crianças em pessoas medrosas, alienadas e sem motivação para o questionamento. Oxalá a esse diálogo e atitudes prósperas como esta, bjs!

  14. Luli Tampieri
    2 de junho de 2015

    Fiquei mto feliz em ler um texto que gostaria de ter escrito!!! Parabéns!!!

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