uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Criança também é gente!


Uma amiga escrevia um dia desses, em meio a uma acalorada discussão política: “é doloroso ter que estar sempre a dizer o óbvio”. Concordo com ela, e estendo essa afirmação para muitas outras esferas da vida: muitas vezes, e tratando dos mais variados assuntos, temos que dizer o óbvio, apontar exageradamente aquilo que está diante dos olhos – caso contrário, há muita gente que não o vê.

Hoje de manhã, estavam minhas duas filhas mais velhas, conversando enquanto uma delas lia em voz alta a biografia de uma conhecida escritora de livros infantis, impressa na orelha de um exemplar:

– “Eu gosto de gente, mas gosto mais ainda de criança…”, leu a primeira.

– Mas se ela gosta de gente, ela gosta de criança! Criança também é gente!! – interveio a segunda, toda cheia de indignação.

Compreendo e compartilho de sua veemência, e me vejo forçada a repetir o óbvio porque, embora a minha pequena, aos 9 anos, já o saiba de cadeira, há muito adulto por aí que ainda precisa aprender: criança é gente. E por absurda que seja a reafirmação dessa verdade, levantada como bandeira, conheço muita gente que a ignora. Trata criança como se fosse qualquer coisa, menos gente. Como se merecesse todo tipo de tratamento, a não ser aquele que todos concordamos que qualquer ser humano merece: educado, igualitário e respeitoso.

Vivemos em uma sociedade que, repetidamente, relega à criança uma condição menor, subalterna, nega-lhe importância. Enxerga a criança como um projeto de algo que ainda virá a ser por inteiro, como um “adulto in progress”, como alguém que, por estar ainda em construção, não merece todavia o mesmo olhar respeitoso que devotamos a quem já cumpriu uma determinada cota de anos de vida e, por isso, viu-se alçado à condição de “gente”.

Por todos os cantos, crianças vivem cotidianamente o pesadelo de qualquer adulto: têm seus sentimentos negligenciados e desconsiderados, como se fossem menores do que os de outros; suas ideias e considerações a respeito da vida não são levadas em conta, afinal ainda não entendem muita coisa; sua forma particular de ver e experimentar o mundo é deixada de lado, como fruto de uma ingenuidade típica da fase da vida, ainda por ser soterrada diante da maturidade que está por vir. Isso vai desde o famigerado “deixar chorar” quando são bebês, passa pelo “não foi nada” repetido incessantemente diante do choro desconsolado de uma criança após um tombo ou uma frustração qualquer, e chega ao silenciamento diário a que submetemos os pequenos, negando-lhes o direito de opinar, participar, intervir e decidir, assumindo responsabilidades, expondo necessidades e posições, tomando parte nas escolhas, integrando de fato os coletivos de que participam – em casa, na escola, na família e em todos os outros espaços em que convivem.

Também na convivência diária em sociedade, em lugares públicos, as crianças são constantemente discriminadas e sofrem preconceito, bem debaixo das nossas vistas. Seja porque fazem barulho quando aqueles ao redor desejam silêncio, seja porque se movimentam quando alguém por perto desejava quietude, seja porque desejam participar de algo que acontece diante de si e do qual os adultos desejam simplesmente excluí-la – e vejam, não falo de situações específicas onde há uma expectativa razoável de silêncio, calmaria ou privacidade, falo de locais de convívio normal, onde a agitação natural do convívio social é perfeitamente aceitável, tolerável e esperada.

Não bastasse esse panorama, o preconceito contra as crianças também não apenas não é condenado como é totalmente aceito como algo perfeitamente comum e corriqueiro. Há quem bata no peito e diga: “eu não gosto de criança!”. Ora, troquem ‘criança’ por ‘idosos’, ‘mulheres’, ‘negros’, ‘homossexuais’ ou qualquer outro rótulo em que se possa enquadrar um certo número de pessoas que, de resto, são como todas as outras. Alguém acharia aceitável?

Adultismo é um preconceito, tão odioso quanto qualquer outro. É uma pena que nós, como sociedade, ainda não o enxerguemos como tal.

E é uma pena que ainda seja necessário repetir exaustivamente o óbvio: que criança é, sim, gente.

Anúncios

8 comentários em “Criança também é gente!

  1. Thami Hull Fotógrafa
    3 de setembro de 2014

    Nossa..que texto incrível.Penso assim e ajo também,é natural pra mim considerar meu filho um ser completo,importante e dono de uma opinião própria que pode sim decidir a própria vida ( com supervisão é claro!).As pessoas ao meu redor me chamam de louca e pelas costas devem lamentar o fato de eu “educar mal”.Temos a incrível mania de maldizer a crianção alheia e dizer que as crianças se tornarão adultos piores por serem criados desse ou daquele modo.
    PS: eu só mudaria o título pra “Criança é gente”..o também soa segregador e egoísta 🙂

  2. Giselle Ramos
    5 de setembro de 2014

    Realmente, um texto incrível! Tanto concordo que trouxe a ideia de mini GENTE pro nome do meu blog sobre maternidade. Mini, sim, porque são pequenos, e GENTE porque são gente tanto quanto nós, adultos.
    Sempre procurei tratar minha filha com o respeito que se deve ter por qualquer pessoa, independente da idade. Desde que ela nasceu, explico para ela o que vou fazer antes, mesmo com bastante gente rindo e dizendo que “ela não entende”. Lógico que, às vezes, você precisa agir rápido, silenciar, mas depois converso com ela. Fiz questão de agir assim desde sempre não só por causa dela, mas de mim também: de tanto fazer, torna-se um hábito. Saudável para todos.
    Quer ver uma situação que me deixava (e deixa) indignada é uma pessoa chegar e tocar, fazer carinho, pegar na mão, num bebê que nunca viu na vida. Acho uma invasão do espaço da criança, o ápice da falta de respeito.
    Parabéns! 🙂

  3. Raisa Arruda
    6 de setembro de 2014

    Parece que conversei contigo! hahaha… Esses dias escrevi algo semelhante, enquanto estudava sobre a clinica com crianças. Acho que esse compromisso com a infância, em dar voz e lugar para as crianças é fundamental. Muito bom o texto! Discussão que deveria ser ecoada todos os dias, uma luta que deve ser cotidiana em todos os espaços.

  4. Natalia Bordalo
    7 de setembro de 2014

    Concordo com a ideia, acho ridiculo a ideia de adultizar nossos pimpolhos… 🙂
    Mas tenho uma unica ressalva…Provavelmente a escritora de livros infantis acima citada não desejou dizer que criança nao era gente, mas algo diferente…
    Percebi isso como um elogio, sabe…Criança é MAIS do que gente, por não estar (ainda) influenciada pelos preconceitos e medos e regras tolas que nós adultos estamos…
    Sabe aquela velha ideia da criança ser um ser quase que transcendente, de tão cheio de amor e alegria de viver…Bem, acho que era isso que a escritora queria dizer! 🙂

  5. Sabrina dos Anjos
    8 de setembro de 2014

    Eu estou amando ler os seus textos, sempre acrescentam minhas ideias e pensamentos, e me fazem refletir muito sobre a sociedade e todo o amor e atenção que a minha filha precisa. Muito Obrigada!

  6. Pingback: o choro e a chuva | mãederna

  7. lucianecruz
    17 de outubro de 2014

    Republicou isso em Gravidez Invisívele comentado:
    Muito bom o texto, obrigada!

  8. lucianecruz
    17 de outubro de 2014

    Muito bom o texto, obrigada!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: