uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Três é demais, e é bom demais

Sim, é cansativo. Não vou dizer que não.

Ter três filhos é muitas vezes uma experiência próxima de uma maratona tão exaustiva quanto a são silvestre, mas que não tem linha de chegada. Você corre, corre, corre, pra depois correr mais um pouquinho. Infinitamente, feito aqueles ratinhos girando a roda que não acaba nunca.

Há os dias em que a casa se parece muito com um hospício, você tropeça em brinquedos ou roupas espalhadas pelo chão, encontra desenhos mirabolantes na sua gaveta de calcinhas e bonecas milimetricamente penteadas dentro do forno.

Há os dias em que a rotina é tão exigente que quando chega a noite, você sente como se todas as energias armazenadas nos cantos mais escondidos do corpo já tivessem te abandonado. Largar-se no sofá e passar umas duas horas sem mudar de posição e sem ter energia sequer para arrumar o que precisa ser arrumado antes de ir dormir parece ser a única solução possível.

Há os dias em que tudo, mas tudo mesmo, acha de dar errado. O carro quebra, o despertador não toca, a cozinha alaga, o chuveiro queima, a maior não quer comer a salada e a menor não quer ir para a escola. E você? Bem, você só quer mesmo a sua mãe. Ou uma passagem para o Tibet, só de ida.

Há os dias em que as crianças acordam viradas no Jiraya – e acreditem, isso sempre acontece com as três ao mesmo tempo, murphy é um cara muito implacável. Nada está bom, nada agrada, nada é suficiente, tudo tem que ser dito pelo menos umas dez vezes antes de ser feito (se é que será), toda e qualquer argumentação (e acredite, a capacidade de argumentação das crianças quase triplica nestes dias) virá entremeada de chorinhos, lamentos e lamúrias.

Há os dias em que a casa vira um verdadeiro ringue do UFC, e tudo é motivo de briga: todas querem a mesma boneca, uma quer ler sossegada enquanto a outra quer cantar no último volume no mesmo cômodo da casa, as duas querem usar a mesma cor de canetinha e todas querem ser a primeira no banho, a ganhar o prato no almoço e a entrar no carro na hora de passear.

É. Ter três filhos deveria pedir vestibular. Ou exigir certificação ISO dez mil e qualquer coisa.

Mas tem também aqueles dias. Aqueles, sabe quais são.

Aqueles dias em que as três se juntam para criar a historinha mais criativa de todos os tempos. Ou para encenar a peça mais mirabolante que você já viu. Ou para pintar juntas um desenho da família inteirinha – incluindo aí meio-irmãos, cunhadas, futuros sobrinhos, tios, padrinhos e agregados.

Aqueles dias em que elas entram no banho sozinhas, sem você ter que pedir, e as mais velhas dão banho na mais nova, que ri às gargalhadas enquanto as irmãs ensaboam-lhe a bunda cantando uma quadrinha curiosa, cheia de palavras de baixo calão.

Aqueles dias em que as três te acordam se enfiando de mansinho por baixo do seu edredon, entre risinhos abafados e palavrinhas carinhosas sussurradas no pé do seu ouvido, como quem canta uma canção de ‘des-ninar’.

Aqueles dias em que as três voltam da escola falando umas por cima das outras, deixando escapar as alegrias dos acontecimentos por todos os poros, terminando as frases umas das outras e soltando sorrisinhos de cumplicidade ao recordar as peraltices do dia.

Aqueles dias em que as três se escondem num canto do quarto e cochicham, muito sérias, compartilhando segredos inacessíveis a aqueles que têm mais de dez anos de vida.

Aqueles dias em que te vêm uns desejos de parar o tempo, de agarrar o ponteiro do relógio só dessa vez, pra fazer os anos passarem mais devagar, e aquelas três criaturinhas caberem no seu colo por mais um tempo. Se der, pro resto da vida.

Aqueles dias em que não tem cansaço, nem desgaste, nem irritação, nem sobrecarga, que ache espaço no coração – porque ele está todo, todinho, ocupado de um amor que você nem sabe se dá conta de sentir, de tão grande que é.

Aqueles dias em que você pensa: em mil vidas, eu faria tudo de novo. E de novo. E de novo. Porque pode ser mais ou menos de vez em quando, mas quando é bom, é bom demais.

É. Ter três filhos devia vir assim, embrulhado com laço de fita.

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7 comentários em “Três é demais, e é bom demais

  1. Fúlvia Andrade
    3 de outubro de 2014

    Que lindoooo!!!! Realmente, temos de tudo aqui em casa também. e são só duas. Mas é por enquanto hehehehehe.

    E as partes boas, são ótimas! São as que nos fazem ver que vale a pena, muito a pena, ter filhos ❤

  2. Bárbara
    4 de outubro de 2014

    Nossa me identifiquei muito! Tenho 3 filhos Beatriz Maria 5 anos, João Gabriel 2 anos e meio e Heitor Felipe 3 meses.

  3. Louise
    5 de outubro de 2014

    Lindoo demais!Prabéns!

  4. Josi
    6 de outubro de 2014

    oi, também tenho 3!, Linda (7) Vida (5) e Cristal (3meses) e, logo que ganhei a terceirinha pensei exatamente o título do seu post! 3 é demais de bom!!! 😉 já havia lido um outro post seu, que fala sobre meninos e meninas, muito bom! abraços

  5. Patricia Alvarenga Cardoso
    8 de outubro de 2014

    Sensacional, parece que vc descreveu minha vida, parece que vc me conhece por dentro e por fora! Sensacional o texto!

  6. Edilene
    9 de outubro de 2014

    Demais! Super me identifiquei! Parabéns!

  7. fláviabin
    26 de outubro de 2014

    eu serei sua fã para sempre!!! Eu quero muito 3 quem sabe 4, mas as vezes perco a cabeça com a pequena e única Olga, fecho os olhos e digo Renata tem 3, eu aguento, eu aguento e cato a guria que tá lambendo o chão e choramingando porque quer alguma coisa que ainda não sabe dizer o que. Filhos pura aventura. Ontem ela pediu “licença” pra cachorra, imagina?! Falando a palavra pela primeira vez, tem como não amar?

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