uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Da menina que eu fui aos 9 anos, e das minhas meninas de 9 anos

foto: Renata Penna

foto: Renata Penna

“Coloque-se no lugar do outro”, a regra de ouro da empatia.

Com nossos filhos, tantas vezes nos esquecemos desta regrinha básica, que faz tanta diferença em nossas posturas, palavras, atitudes.

Um exercício que tento praticar sempre – embora nem sempre consiga, mas a tentativa é constante e penso que a cada dia consigo mais, o aprendizado é diário e não termina nunca – é lembrar de mim mesma, quando criança. Da menina que fui, dos sentires que me habitavam quando pequena, do tamanho delas, na mesma fase da vida. Esforço-me para recordar quem eu era, o que sentia, o que pensava das coisas, quais eram as dores que me angustiavam, as alegrias que me afogavam o coração.

Nem sempre é fácil. Quanto mais afastada a idade, mais difícil lembrar. Quando minhas filhas eram bebês, esse exercício era intuitivo, quase de adivinhação. Obviamente, não posso me lembrar dos sentimentos que me habitavam quando tinha dois, três, quatro anos. Então, tentava imaginar. Trabalhoso, mas sempre gratificante.

Hoje, minhas meninas mais velhas têm 9 anos. Uma fase tão deliciosa quanto exigente. Cheia de altos e baixos. de novos desafios, de questões até então desconhecidas.

9 anos é uma idade que, embora distante de mim na linha do tempo, preserva-se viva de alguma maneira na minha memória. Tenho lembranças bastante vívidas, quase palpáveis, de quem eu era nessa idade. Do que não me lembro, posso lançar mão dos diários que escrevia na época, para recordar (sim, eu os guardo até hoje, abençoado apego que hoje me serve para alguma coisa).

Olho para as minhas meninas, tão cheias de sentimento, tão mergulhadas nas intensidades próprias dos nove anos, e lembro-me de quem eu era, com alguma alegria e alguma dor. Misturam-se os sentimentos, e a menina que eu fui vem dar as mãos às minhas filhas, compreendendo-as porque esteve no mesmo lugar.

É um exercício bonito de acolhimento, de compreensão, de generosidade mútua. E de cura, também. Posso ensinar e aprender ao mesmo tempo. E posso abraçar a mim mesma, à menina que fui há tanto tempo, e compreendê-la também. E acolher seus exageros, suas contradições, e tudo aquilo que hoje, do lugar onde estou, já não entendo, mas posso – e devo – respeitar.

Sobretudo, a menina que fui aos nove anos me ajuda a não diminuir aquilo que hoje, vestida das minhas adultices, já não posso alcançar. Tudo é importante, para quem sente. Meu mundo aos nove anos era diferente daquele que me cerca, hoje. As prioridades eram outras. A dimensão das coisas, também. E que alguém de fora viesse me dizer que não era importante aquilo que me trazia tamanha angústia, seria entendido por mim como uma violência. Resgato esse olhar, que me impede de exercer essa violência com as minhas filhas. Por isso, toda vez que penso em dizer: “isso não é importante, deixe pra lá”, ou “tudo isso por causa de uma coisa tão pequena”, penso de novo. E engulo as palavras, para escolher outras. Que julguem menos, e compreendam mais.

Ter nove anos é um desafio e tanto. Todos os dias, procuro lembrar para não esquecer.

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