uma vez mamífera

… sempre mamífera.

O tempo é deles

chiaratempo

foto: Renata Penna

(post originalmente publicado no blog Mamíferas, em maio de 2012)

Não é raro a gente falar aqui sobre como é importante e bacana a gente ter respeito com o tempo dos nossos filhotes, para todas as coisas da vida. Libertar-se das expectativas, recusar as comparações, recusar todo e qualquer raciocínio que principie com “tem que ser assim”. É uma atitude para exercitar cotidianamente, nos pequenos e grandes acontecimentos.

Aqui em casa, temos uma pequenina que não nos deixa esquecer a importância desta atenção e deste respeito, nem mesmo por um instante. Chiara, nossa caçulinha, parece ter vindo ao mundo para nos ensinar esta lição: ter tranquilidade e confiança suficiente para não apressar as etapas, os aprendizados, as conquistas da vida de uma criança. Ela tem uma personalidade muito ‘pronta’, que não aceita rótulos e generalizações – muito menos apressamentos bobos e desnecessários.

Foi assim, aliás, já desde a barriga: 40 semanas de gestação, certinho? Que nada! Lá se foram as 40 semanas, lá se foram 41 semanas, e só perto das 42 é que a bichinha resolveu dar o ar da graça. Antes disso, não houve reza, caminhada, acupuntura ou ‘trio de hots’ que fizesse engrenar o trabalho de parto. E quando foi hora de vir, veio, sem rodeios e sem demora: em pouco mais de três horas após a primeira contração pra valer, Chiara chegava ao mundo, sem chorar, de olhos abertos e curiosos, pronta para a vida.

Depois, veio a introdução de alimentos. Começamos com sete meses, mas quem disse que a mocinha estava disposta? Quando comia uma colherzinha de café, a gente comemorava. Não era a hora dela, e enquanto esta hora não chegou, não adiantava colocar o prato mais bonitinho, caprichado, delicioso na frente dela. Depois do primeiro aniversário, aí sim, ela se decidiu: tinha chegado a hora de sentir os gostos do mundo. E já começou com o pé no acelerador, batendo uns pratões que a gente até assustava, e experimentando de tudo o que via pela frente.

Foi assim também para engatinhar, coisa que a mocinha foi fazer com um ano de idade, tempo considerado ‘tarde’ pelos teóricos de plantão. Depois, para andar – só com um ano e sete meses. Enquanto não era a hora, não adiantava querer forçar coisa alguma. A bichinha empacava, e não seguia em frente de jeito nenhum. Mas quando decidia, decidia – ia adiante sem arrependimentos, sem duvidar e sem olhar para trás. Em todos esses momentos, fomos obrigados a driblar a ansiedade, respirar fundo e encarar o aprendizado: o tempo da caminhada é deles, e não nosso.

Pois isso acaba de acontecer de novo: prestes a completar três anos de vida, a bichinha resolveu desfraldar. Assim, por si, pedindo com todas as letras, e muito segura de si. Já tínhamos tentado antes, lá pelos 2 anos e 8 meses, idade em que as irmãs mais velhas haviam encarado este desafio. Mas como de costume,          Chiara deixou bem claro que quem escolheria o momento seria ela, e não nós.

E foi agora, em pleno inverno (quem decidiu que desfralde TEM que ser feito no verão, com tempo quente e bom para secar roupas molhadas e deixar a criança peladinha, certamente não tinha em casa uma criança tão cheia de vontade e decisão como a nossa – #fato!), e como de costume, de uma hora para a outra, sem recuos e sem indecisão: um belo dia, a mocinha decidiu que não usaria mais fralda. Já faz mais ou menos uma semana, e tivemos pouquíssimos acidentes (o que, de resto, confirma minha teoria, elaborada por ocasião do desfralde das mais velhas, de que desfralde, quando é feito na hora certa – da criança – acontece de maneira lisa e tranquila, sem acidentes e sem stress). E a bichinha sabe mesmo de si, não precisa que fiquem lhe lembrando coisa alguma. Quando sente vontade, avisa, vai lá e faz o que tem que fazer, sem firulas e sem dramas. Se já lhe puseram a fralda (para dormir, ou para passeios longos), mas ela ainda está perto do pinico e sente vontade, arranca de uma vez e se resolve – sem pedir licença nem perguntar se pode ser. Esta é a minha menina: cuca fresca e firmeza são suas palavras de ordem.

É mesmo verdade: nossos filhos, quando chegam ao mundo, trazem consigo uma sabedoria infinita, sabem muito das próprias coisas, dos próprios tempos, das próprias possibilidades. Quando conseguimos respeita-los e não atropelar, eles seguem adiante de maneira tranquila, sem sofrimento. Ninguém sabe melhor do que eles o que podem ou não fazer, do que dão conta, e do que ainda não. Cabe a nós ter sensibilidade e atenção, e é claro, estar presente para apoiar e orientar quando eles pedem orientação.  Mas quando demonstram querer e poder caminhar pelas próprias pernas, ter tranquilidade e humildade para decidir menos, interferir menos. E ouvir mais.

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Um comentário em “O tempo é deles

  1. NinguémCresceSozinho (@ninguemcs)
    6 de novembro de 2014

    Muito bom! Cada criança tem seu tempo e o tempo todo estamos apressando-a para que ela entre nos outros tempos! Compartilhamos aqui uma reflexão sobre isso: http://ninguemcrescesozinho.com/2013/09/02/anda-logo-nao-temos-tempo/

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Publicado em 2 de novembro de 2014 por e marcado , , , , , .
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