uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Da maternidade e seus acessórios

acessorios

Entrei hoje em uma loja de brinquedos. Logo na entrada, toda uma seção dedicada exclusivamente aos bebês – não apenas brinquedos para o primeiro ano de vida, mas uma porção de acessórios para conquistar mães e pais: todo tipo de quinquilharia dedicada, teoricamente, a tornar a sua vida com seu bebê mais confortável, segura e feliz.

Não que seja novidade para mim, mas eu realmente me surpreendi com a quantidade de acessórios disponíveis. Desde espelhinhos para vigiar o bebê do banco do motorista no carro, protetores de canto e travas de todo tipo para adaptar a casa aos pequeninos, até uma gama inacreditável de ‘facilitadores para a amamentação’ e carrinhos que mais pareciam ter saído do desenho animado dos Jetsons diretamente para as prateleiras da loja.

Que a maternidade virou um grande negócio (imagino que um dos melhores e mais rentáveis que há),  não é segredo pra ninguém. Para pais e mães deslumbrados diante da experiência nova – e da possibilidade de mostrar-se ao outro e adquirir status através dela – é possível vender desde pequenas uti-futilidades bobinhas e graciosas até utensílios caríssimos, dos quais os bebês, ao crescer, não terão nem ao menos boas lembranças para chamar de suas.

‘Cada um com o seu cada um’, dirão vocês, e eu concordo. Bem, ao menos em parte: não estou aqui para controlar o carrinho de compras de ninguém, e cada mãe e/ou pai sabe – ou deveria saber – onde lhe apertam os calos, e até onde chegam seus limites do cheque especial. Eu mesma, embora nunca tenha tido grandes arroubos consumistas, quando grávida das filhas mais velhas mandei fazer um border personalizado para a parede do quarto, um mimo (caro, dividido em uma infinidade de parcelas) totalmente desnecessário, que enfeitou lindamente a parede de um quarto que elas nunca  usaram. Isso, entre outras pequenas coisinhas que comprei desnecessariamente – embora na época, eu achasse que sim, seriam muito úteis e necessárias. Gata escaldada, com a terceira filha tirei tudo de letra, comprei muito pouco (para dizer a verdade, quase nada) e passei longe das seções de inúteis das lojas infantis. Das coisas que às vezes, a gente aprende a fazer diferente.

Mas para além da questão do consumismo e do apetitoso filão comercial em que se transformou a chegada de uma criança ao mundo e seu desenvolvimento, especialmente ao longo do primeiro ano de vida, penso no que se revela nas entrelinhas. Com tantos acessórios, em que vem se transformando a relação entre mães (e pais) e filhos? Com tantos intermediários cuja suposta função é a de nos ajudar a cuidar de nossos próprios filhos, onde sobra espaço para o contato direto, sensível e atento, para o instinto e a intuição? Onde fica o toque, o olho no olho, a troca? Estaríamos perdendo nossa capacidade primária e instintiva de, sem lançar mão de instrumentos facilitadores, garantir o bem estar de nossas crianças?

Das prateleiras abarrotadas de artefatos mais ou menos complexos cuja (supostamente) inocente intenção é a de ajudar mães e pais a fazer aquilo que poderiam fazer por si mesmos, cada produto nos sussurra uma mensagem , persistente e venenosa: não, não somos capazes; não podemos fazer sozinhos.

Ao longo da minha experiência com minhas filhas mais velhas, uma das lições mais definitivas que aprendi foi que, para ser mãe, é preciso pouco (embora seja muito) : um par de seios, um colo aconchegante, tempo disponível, disposição para encarar os desafios e muito, muito amor no coração. Todo o resto é dispensável – alguns poucos artefatos, é bem verdade, colaboram muito (eu colocaria um sling no topo desta lista, por exemplo), mas caso faltem, mãe e bebê sobreviverão, e muito bem obrigada. Sim, eu sou capaz de fazer sozinha – como todas as mães também o serão, se quiserem.

Comprar ou não comprar, que fique claro, não é a questão – pernicioso não é o objeto em si, ou o ato de utilizá-lo pela razão que for, mas a rendição à crença na inevitabilidade do uso dos facilitadores, sejam eles quais forem. Alguns acessórios são úteis? Bem, são. Podem ser – mais para uns, menos para outros. Mas não são indispensáveis, nenhum deles é. Quando nascer, e por um bom tempo, tudo o que seu bebê precisará de fato você já tem, sem precisar pagar por isso. Querer este ou aquele ‘facilitador’ é uma coisa – acreditar que você não poderá cuidar adequadamente de seu bebê sem ele é outra, bem diferente, e bem prejudicial.

Mães e pais inseguros, convencidos de que precisam de um aplicativo que lhes indique quando a fralda do bebê está suja, ou de um carregador que mantém a temperatura do bebê ao redor de um padrão pré-determinado, são um material incrível para fazer girar a roda do capitalismo – mas péssimo para a vivência de uma maternidade e paternidade autônomas e conscientes, responsáveis, afetivas, instintivas.

Conheço mães que não saem  de casa sem o carrinho mega moderno a tiracolo, que não colocam o bebê no banho sem confirmar a temperatura exata no termômetro ultra preciso, que não dão a papinha sem o prato térmico de última geração cuja ventosa se agarra à bancada do cadeirão e cujo fundo muda de cor para avisar que a comida está na temperatura adequada e pode ser servida, que não saem para um passeio até a praça sem vestir o filhote com a camiseta com FPS e o sapatinho cuja sola é feita do mesmo material que compõe os uniformes dos astronautas da NASA. Meu conselho para elas (e aliás para mim mesma também, quase todos os dias, um conselho do qual eu mesma procuro não me esquecer e que já pensei em tatuar no corpo em algum lugar bem visível) é um só, curto e direto: ‘a vida é simples, caminhe mais leve’.

Não, não vou defender aqui que queimemos acessórios em praça pública, mas podemos fazê-lo simbolicamente: com seu bebê nos braços, levando seu filhote pela mão, procure servir-se de cada vez menos intermediários. Olhe, toque, sinta, e confie. Podemos usar os acessórios que quisermos, mas precisamos nomeá-los pelo que são: inúteis, dispensáveis, desnecessários. Utilizamo-nos deles se e quando desejarmos fazê-lo, mas não precisamos deles, muito menos dependemos deles para exercer um papel que nos é natural e instintivo quando há disposição, amor e entrega.

Coisas, é preciso lembrar, são apenas coisas. A relação entre uma mãe e um filho é feita de pele e sentimento. Isso é mais valioso do que todas as coisas do mundo.

Maternidade é essência; e a essência, a gente já sabe, supera todos os acessórios.

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21 comentários em “Da maternidade e seus acessórios

  1. Beatriz Lobato
    7 de novembro de 2014

    Ah, eu ainda não tenho filhos.
    Mas sou simplismente apaixonada pelas quinquilharias de bebê.
    Claro que atrapalhar a vida é um ponto que precisa ter cuidado.
    Mas termometros, pratos que mudam de cor.. São tão legais kk

    • renata penna
      7 de novembro de 2014

      Bia, obrigada pelo comentário! 🙂

      como eu digo no texto, a questão é menos o comprar em si, e mais o significado – acreditar-se dependente deste ou daquele acessório, e incapaz de maternar/paternar sem ele.

      beijos

  2. Amanda Ribeiro
    7 de novembro de 2014

    Ótimo Texto, reflete em muitos pontos minha opinião, e te falo, no alto das minhas 34 semanas de gestação tenho que me desviar das ‘sugestões’ sobre essas quinquilharias e me passo por chata ao avisar a família que não comprem pois não acho necessário, infelizmente, muitos estão ~pagando pra ver~.

    • renata penna
      7 de novembro de 2014

      Amanda,

      é curioso, as pessoas querem demonstrar carinho, demonstrar que se importam, e não conseguem fazê-lo de outra maneira que não seja presenteando com bens materiais, né? mas é um aprendizado a ser exercitado, por todos nós e todos ao nosso redor. 🙂

      obrigada pelo comentário!

  3. Taciane Aguiar
    7 de novembro de 2014

    Chorei! O texto tem muito mais que palavras, tem sentimento. Como é bom ler os teus textos. Obrigada!

  4. Maria Bueno
    7 de novembro de 2014

    Adorei o texto! Vou ter bebê em março e não comprei quase nada ainda, somente umas poucas roupinhas e o sling! 🙂

    • renata penna
      7 de novembro de 2014

      bom, pelo menos você já sabe que não é louca! (ou se for, pelo menos não está sozinha!)

      😉

      obrigada pelo comentário!

  5. Isabela
    8 de novembro de 2014

    Ao longo da minha gravidez, minha mãe sempre me dizia, quando me via deslumbrada por diversas dessas quinquilharias infantis: você não vai precisar de nada disso, você vai ver. Sempre repetia: tudo que o bebê precisa é do seu peito e do seu amor, todo o resto que você comprar será mais para você do que para ele. Confesso que chorei muito – hormônios – por ter que abdicar à fantasia consumista de primigesta, mas cada vez mais percebo que minha mãe, sábia, estava certa. E olha que o bebê nem nasceu ainda.

  6. Nicole
    8 de novembro de 2014

    Acho que isso é desculpinha pra pais e mães mais simples que nao tem condicoes financeiras de comprar tais produtos. Tirei 2 anos de folga.pra cuidar dos meus filhos e ADORAVA ir na loja comprar novidades. Oq tem de errado nisso? Se nao tem dinheiro, ok. Mas nao fique insinuando qur quem o faz deixa de “tocar; sentir, olhar” pro seu bebê.
    SIM comprei thermometro de banheira, carrinho de 2 mil dólares e muitas outras coisas que te garanto que fizeram minha vida e dos.meus.pequenos muito mais praticas e felizes.

  7. Márcia Golz
    8 de novembro de 2014

    O apelo consumista atende o desejo infantil das pessoas. Como a maioria humana é imatura demais é um prato cheio. Mas diga a uma pessoa imatura que a atitude dela é imatura e verá o tanto de impropérios e tonterias que você receberá de volta. A maioria dos casais que se empanturra destas quinquilharias tenta agradar a si mesmos. Não raro são os mesmos que darão 50 barbies pra filha, uma moto elétrica aos 3 anos, um note aos 5… “Meu filho vai ter tudo”..
    Suspiremos e aguardemos, um dia cresce.

  8. Klaudia Bitencourt
    8 de novembro de 2014

    Bem isso mesmo!
    Estou com 21 semanas da segunda filha e hoje percebo que não precisamos de nada disso! Com o primeiro filho já comprei muito pouco, nesta agora vou comprar menos ainda… 😀
    Amor não é vendido em lojas! ❤

  9. Irmão na caridade e no Amor
    10 de novembro de 2014

    maravilhoso!!! e imprescindível nos tempos de hoje lembrar disso a cada minuto!!!

  10. Cristiane
    10 de novembro de 2014

    Acredito que muitos dos comentários estão sendo extremistas. Acho que algumas novidades em produtos infantis realmente tem o efeito de auxiliar os pais. Não acho certo o consumo desenfreado apenas pelo modismo, mas cada família tem uma rotina e de repente algum acessório pode auxiliar a vida do papais em algum momento. Vi que muitos citaram o sling ou canguru. Para mim este não teve função nenhuma, porém a babá eletrônica com câmera foi excelente.
    O fato de ter usado tal acessório não me torna uma mãe mais relapsa ou menos atenciosa. Mesmo com a câmera checava o sono da minha filha a todo o momento. Mas tal acessório nos ajudou a deixar nossa filha dormir desde a segunda semana de vida no quarto dela, a acordar calma, porque antes de chorar lá estamos ao lado do berço.
    Então não consigo ver o mal em ser auxiliada e tentar cuidar do seu bebê com a ajuda de acessórios e novos produtos. Isso não me torna menos mãe.
    Existe uma grande cobrança na excelência da criação de filho. Se não for parto normal, se não amamentar, se voltar a trabalhar muito cedo, se tiver uma baba, se utilizar de métodos e produtos você não é 100% mãe. Acho que devemos mudar um pouco o modo de pensar.

  11. Fabiane
    11 de novembro de 2014

    Na primeira gravidez queria uma dessas banheiras nem tao caras, elevadas, de dar banho no quarto. Meu marido comprou uma de 9,90 e disse: deixa que eu dou o banho no pequeno. E deu, quase todas as vezes, eu só assistia, emocionada com o carinho e o amor do papai. Agora, aguardando a chegada da nossa pequena, nao vejo necessidade nem de gastar mais 10,00 numa banheira cor de rosa.

  12. Aurora
    14 de novembro de 2014

    Nicole que bom que estás feliz com o carrinho de 2 mil dólares, “mães mais simples” pra não dizer pobres? Riqueza está na alma e não no dinheiro, tenho certeza que teus filhos não são mais felizes pelo carrinho mega caro, talvez você sim. Que bom que pra você está dando super certo assim.

    Cristiane em nenhum momento a autora falou que você é menos mãe, relapsa ou menos atenciosa, é uma pena que pense assim e se sinta cobrada na criação dos seus filhos.

    Pelo que eu entendi do texto, não é que ela esteja dizendo ‘proibido comprar essas bugigangas!!’ É entender e discenrnir que todos esses aparatos são dispensáveis, são somente coisas materias e que são dispensáveis na hora de demonstrar o amor por um filho.

    Simples assim!

    • Aurora
      14 de novembro de 2014

      *discernir

  13. Guilherme Leoni
    15 de novembro de 2014

    Eu confesso que fiquei meio triste por não comprar trocador, banheiras caras, carrinhos com n coisas e tudo mais. Não pela minha filha, mas por mim. Mas agora que a pequena tem 3 meses vejo que o necessário mesmo eu tinha, que era leite materno, muito amor e vontade de cuidar. O resto é só pra facilitar. Comprei um carrinho barato, na promoção, mas quase não uso porque minha filha está sempre no colo. Comprei hoje um babybag porque achei que podia ser útil. Eu queria fazer um quarto desses todo decorado, mas não tinha dinheiro,o que foi bom, porque minha filha não sai do meu quarto, o berço dela fica lá. É esse mito de que mães não podem ser mães sozinhas. Mãe é mãe, com ou sem dinheiro e aparatos.

  14. Camila batista
    17 de novembro de 2014

    ótimo texto, sou mãe de três…apendi muito em relação a consumo. minha terceira filha ganhou fraudas de pano usadas em perfeito estado. muitas roupinhas foram ganhadas de amigos e as compras por mim são com sites e paginas no face de desapego a um preço bem mais baixo. uma vizinha minha me perguntou certo dia porque eu estava tendo o terceiro filho?! expliquei meus motivos e ela disse que só iria ter um filho porque ela daria Tudo para ele…!! ai me pergunto o que é dar tudo pra ele?! eu como filha unica acho que tudo..é a dedicação, é esta presente na vida dos filhos mais que qualquer video game, tablet…só eu sei o falta que pais e irmãos avós fazem na vida. hoje tenho uma família linda e grande..sou feliz….tenho muito trabalho mais levo com leveza.

  15. Vanessa Mendes
    26 de novembro de 2015

    que texto maravilhoso e inspirador. Eu acabei de escrever sobre o assunto no meu espaço, como uma reflexão do momento que estou vivendo (a chegada do meu primeiro filhote e as inúmeras duvidas que tenho em relação ao consumismo nesta fase), e encontrei seu texto, o li e fiquei feliz em reforçar algumas das minhas crenças, mesmo sendo inexperiente e cheia de receios, sei que há algo muito errado nesta imposição do comprar, comprar, comprar para ser ter um bebe ‘seguro, feliz’… Obrigada (e parabéns!)

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