uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Da importância de pedir desculpas

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– Nunca peça desculpas aos seus filhos! Ainda que você acredite que errou, não peça desculpas, porque isso tira toda a sua autoridade! Pai e mãe acerta até quando erra!

Ouvi isso de uma conhecida tempos atrás, quando ainda nem tinha filhos. Desde então, já estranhei. Filhos, afinal, são pessoas, seres humanos com os quais a gente se relaciona. Se pedimos desculpas aos amigos, aos familiares, aos companheiros de trabalho quando cometemos um erro, por que não pedir desculpas a um filho?

Todas as vezes que peço desculpas às minhas filhas, quando percebo que agi de maneira inadequada com elas, ou ao menos de uma maneira diferente daquela que gostaria de ter agido, eu me lembro dessa conhecida. E sinto uma certa tristeza por ela, por todas as oportunidades que ela deve ter perdido ao longo da sua experiência como mãe – oportunidades de rever as próprias atitudes, de reconhecer as próprias limitações, de empreender um esforço sincero e comprometido para, dali por diante, ser uma pessoa melhor.

Reconhecer um erro, um engano, um tropeço, e pedir desculpas aos nossos filhos por aquilo que achamos que deveríamos ou poderíamos ter feito diferente, não é vergonha nem humilhação – é apenas o reconhecimento da nossa condição humana, imperfeita, falível, e o acolhimento de uma oportunidade única de amadurecimento, aprendizado e crescimento. Porque é errando que a gente aprende, mas é preciso reconhecer o erro como tal, e assumir por ele a responsabilidade, diante de si e do outro.

Pai e mãe erram, sim. Quase sempre, estão tentando acertar, fazer o melhor. Mas são humanos, têm suas limitações, suas idiossincrasias. Seja por um erro de raciocínio, por impaciência, por cansaço, por ignorância (no sentido de ignorar alguma coisa) ou pelo motivo que for, às vezes tropeçamos e nos desviamos do caminho que acreditamos ser o melhor. Ficamos aquém do que poderíamos. Nessas horas, não há nada como a possibilidade de olhar para si e para as próprias atitudes, rever o que precisa ser revisto, e reinventar-se reconhecendo o erro, pedindo desculpas e comprometendo-se verdadeiramente a agir diferente da próxima vez – coisa que às vezes conseguiremos, outras não. E virão novas desculpas, e novos aprendizados.

Já pedi desculpas às minhas filhas incontáveis vezes. Por coisas que disse e gostaria de não ter dito, por perder a paciência, por não ter condições de oferecer a elas o que me solicitam em determinado momento, e por muitas outras coisas. Do alto da sua sabedoria infantil, elas me acolhem sempre. Perdoam-me o erro sem qualquer traço de mágoa, e estão sempre de braços e corações abertos. Generosamente, elas reconhecem que as relações humanas – ao menos as sinceras, intensas e inteiras – são feitas de tentativas, de acertos e alguns erros pelo caminho. E me ajudam a apaziguar o coração e seguir adiante sem culpa, mas com responsabilidade.

Eu aprendo com elas, e elas comigo: que somos todos lindamente imperfeitos, aprendizes brincando e experimentando com a vida, e é isso que nos ensina e nos faz crescer.

Pedir desculpas não é sinal de fraqueza, ao contrário: é valentia. É coragem de estar desnudo diante do outro, reconhecendo as próprias falhas e os próprios limites, e desejando ser melhor da próxima vez.

Eu peço desculpas às minhas filhas, sim. E você?

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16 comentários em “Da importância de pedir desculpas

  1. Andréa Silveira
    11 de novembro de 2014

    Acredito, sinceramente, que pedir desculpas a um filho quando erramos chega a ser pedagógico. Aprendemos com eles que não agimos bem e ensinamos que todos estamos sujeitos a erros, que não somos perfeitos e que, por isso, eles também não precisam tentar sê-lo. Ensinamos que, quando errarem, podem sim se desculpar e tentar a cada dia ser pessoas melhores. Somos todos falíveis, nós e eles, e aprender a conviver com essa incompletude é um grande aprendizado para a vida de todos nós. Obrigada pelo texto!

    • renata penna
      11 de novembro de 2014

      concordo contigo da primeira à última linha Andréa! 😀

  2. Milena
    11 de novembro de 2014

    Eu também nunca compreendi isto de não poder pedir desculpas. E não sinto nenhuma perda de autoridade. Pelo contrário, sinto um aprendizado grande. Muitas vezes, no meio da impaciência, é meu filho que me lembra que eu prometi não mais me zangar, não mais falar alto. Acho formidável. Logo me recomponho. Acato, explico o motivo da minha zanga. E se estiver errada, peço outra vez desculpas. Acho bonito, muito bonito isto de saber dizer desculpa. Lindo, Rê! Um beijo grande.

    • renata penna
      11 de novembro de 2014

      é isso aí, ensinando e aprendendo, tudo junto e misturado. 😉

  3. Jane
    12 de novembro de 2014

    Que emocionante o que escreveu…também sempre pedi desculpa, concordo que somos aprendizes, muito mais do que nossos filhos.

  4. Elena
    12 de novembro de 2014

    Totalmente de acuerdo, pedir disculpas es un acto de humildad y respeto en este caso por nuestros hijos. Los valores y ejemplos se aprenden y vivencian en casa!

  5. leidiana uchoa
    12 de novembro de 2014

    Otima publicação, concordo plenamente com suas palavras, também erramos, e pedir desculpas nao e exclusividade de ninguém, pratico isso na vida, desculpar e ser desculpado, pq nao com nossos filhos? ! Que somos o exemplo, ja fui questionada uma vez apos pedir desculpas pra minha filha, a pessoa perguntou quem era a mãe, triste fico pela ignorância, mas quem sou eu para julgar . E vamos seguindo, aprendendo com os nossos filhos sermos bons pais…

    • renata penna
      12 de novembro de 2014

      talvez seja ignorância mesmo no sentido de ignorar: ignorar o quanto aprendemos, quando nos reconhecemos limitados, falíveis, imperfeitos; ignorar a beleza do erro, do engano, e sua imensa potencialidade de nos ensinar; ignorar o valor do respeito pelo outro.

      abs!

  6. thaismonteiroioioi
    12 de novembro de 2014

    Senao nao a jeito melhor de ensinar respeito e humildade e q nao doi tanto reconhercer sua falibilidade. Confeço q tenho dificuldades de reconhecer meus erros em circunstancias chave. Meu pais nao me pediram desculpas e nao pedem até hj, com td mundo já velho, adulto. Eu ieei sim pedir ao meu filho, alias, já pedi, mesmo ele estando . Ainda com 4 meses. E esta fala de nao pedir desculpas me soa como aquelas regras de ouro q adestrdores de caes passam para seus donos indiciplinados. Grata pelo texto.

  7. Cristiano
    12 de novembro de 2014

    Sensacional!
    Nos dias de hoje, Infelizmente, a atitude de pedir desculpa que, ao meu modo de ver deveria ser normal, tornou-se, de certa forma, uma coisa nobre….
    Parabéns pela matéria.

  8. ubiratan gentil
    13 de novembro de 2014

    O importante é sempre procurar acertar e quando errar reconhecer, retroceder e juntos procurar um novo caminho em busca da felicidade.

  9. Lilian Mancuso
    13 de novembro de 2014

    Uma vez, meu filho me fez um pedido (estava com fome), e eu nervosa, presa no trânsito fui ríspida na resposta. Ele abaixou o olhar e disse “Não dava para ser mais gentil?” Morri fuzilada de vergonha. pedi desculpas e pedi que ele formulasse a pergunta novamente a qual respondi com amor e paciência. E assim ficamos em paz e mergulhados no nosso amor e companheirismo.

  10. Carette véronique
    14 de novembro de 2014

    Absolument! Eu peço disculpas,seria somente para o exemplo! Exemplaridade, humildade, e…afinal papai e mamae podem tambem errar…mas pedir disculpas rende a gente melhor e mais grande. Obrigada de ter dito sobre um fato que deveria ser tao commum, nao?

  11. Cecília
    14 de novembro de 2014

    Ainda não tenho filhos, mas vejo a sua contribuição como algo muito importante que vou levar para o meu relacionamento com os meus futuros filhos

  12. Monica
    18 de novembro de 2014

    TB!!! Concordo! tb peço desculpas para meu filho se faço algo impulsivamente. Só tento nao dizer nao e depois sim ou sim e depois não, por isso muitas vezes quando pedem algo digo que vou pensar para nao voltar atras na decisao!

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