uma vez mamífera

… sempre mamífera.

O luto, a maternidade e a vida nova

renataanaluzestrelabebes

foto: arquivo pessoal

Imagine-se em um lugar inteiramente novo: pessoas desconhecidas, cheiros, gostos e sons inteiramente novos, uma língua que você ainda precisa aprender a falar e compreender, lugares misteriosos e caminhos que podem ser interessantíssimos e cheios de descobertas e aprendizado, mas você não tem a menor ideia de onde é que vão te levar.

É como uma viagem a um destino inédito: experimenta-se o susto pela novidade, pelo mistério, pelo desconhecido. Mas também a expectativa e a maravilha de olhar algo fresco, de se entregar a algo que não sabemos o que será, mas intuímos que será bonito, revolucionário, transformador.

Assim é o mergulho na maternidade, quando da chegada do primeiro filho. De repente e de um modo às vezes assustador, a vida passa a ser outra. Uma vida que desconhecemos e exige de nós muita mudança e muita coragem. É uma realidade inteiramente nova, a acontecer de modo totalmente desconhecido e misterioso, e para vive-la intensamente, precisamos nos despir de tudo o que antes sabíamos, desejávamos, planejávamos e acreditávamos, para acolher novos saberes, novos desejos, novos planos e novas crenças. Em verdade, precisamos abrir os braços, a mente e o coração não só para fazer coisas novas, mas para sermos inteiramente novas.

E se há que se abrir espaço para o  novo, é preciso deixar que o velho se vá, deixe de existir e vire poeira na estrada, recordação na memória, história para se contar. Se precisamos ser novos, é indispensável deixar que o que fomos antes se despeça, pereça, e deixe de existir.

O conceito de ‘morte’ costuma nos soar assustador, e por isso costumo receber olhares surpreendidos quando falo do ‘luto pós-maternidade’. Mas ele existe, é real e precisa ser olhado de frente. Nascem nossos filhos, e morre uma era: morrem prioridades das quais não poderemos dar mais conta, morre um certo tipo de liberdade que não voltaremos a ter (embora possamos descobrir muitas outras, tão lindas quanto ou até mais), morre uma rotina que não acontecerá mais, morrem planos que não conseguiremos mais realizar (mas nascerão outros, mais afinados com quem passamos a ser), morre um egocentrismo que não conseguiremos mais alimentar, morre o direito a nos considerarmos o centro absoluto de todas as escolhas e decisões.

A revolução pela maternidade pode ser fantástica – e quase sempre é, quando há entrega e o amor e o desejo de viver a experiência intensamente estão presentes. Mas ela é também um tanto aterrorizante, como qualquer revolução – porque traz a mudança, o novo, o desconhecido. Quando nos tornamos mães, a vida nos exige um desapego tremendo de tudo o que foi vivido antes – na verdade, quando temos um filho, a vida nos exige que nos desprendamos da pessoa que fomos até ali. E quando aceitamos fazê-lo, precisamos despedir-nos desta pessoa com muita calma, como nos despedimos de um ente querido que encerra sua jornada neste mundo – e finda esta despedida, se a vivenciarmos sem culpas e sem pressa, talvez possamos permitir verdadeiramente que ela morra para dar lugar ao novo.

A  maternidade é, em última instância, a um só tempo um nascimento e uma morte: nasce um bebê, uma mãe e uma nova vida, e morre alguém que nos acostumamos a ser, alguém de quem gostamos por muito tempo e que em algum momento acreditamos que seríamos para sempre. Enquanto acolhemos um novo ser nos braços, outro está morrendo – e é preciso olhar para esta morte, acolhê-la com carinho, chorá-la o tanto necessário, nem uma lágrima a menos, sem pudores e sem remorso.

Só quem vive corajosamente e de olhos bem abertos a morte do que deixou de ser pode abrir-se de fato para o que virá. A dor existe, é legítima. E como nos partos naturais, ela não é vilã, mas companheira – quando recebida com valentia e sem subterfúgios, ajuda-nos a crescer e nos faz mais preparados para o que há pela frente, neste novo mundo misterioso que temos tanta sede de conhecer.

Esta é a dinâmica da vida: coisas acabam, para que outras comecem. Coisas morrem, para que outras nasçam. E assim acontece, também conosco: morremos quem fomos para dar lugar a quem seremos.

 

(post originalmente publicado no blog Mamíferas)

Anúncios

32 comentários em “O luto, a maternidade e a vida nova

  1. Juliana Rodrigues Sargento Pereira
    3 de dezembro de 2014

    Finalmente alguém conseguiu colocar em palavras esse vazio que estava dentro de mim após a maternidade! Estou me recuperando do luto após dois anos, acho que demorei tempo demais, porém chegava a ser palpável. Obrigada por me dar essa oportunidade! Parabéns pelo texto!

  2. Katia Lima
    3 de dezembro de 2014

    Estou vivendo esse luto. Nunca imaginei, nem sequer por um segundo que isso fosse acontecer comigo. Mas é exatamente como vc descreveu lindamente. Choro, choro e choro e peço a Deus sabedoria e amor para que eu possa fazer essa transição em paz.. Por enquanto sentimentos misturados que aos poucos vão se separando. Obrigada por compartilhar.

  3. Stéphanie Brasil
    3 de dezembro de 2014

    super concordo…e quanto mais o tempo passa, mais parece nunca ter existido aquela pessoa de antes, aquela vida que vivíamos. Em muitos momentos ainda sinto saudade…olhando pra fotos, tentando lembrar como era algo que nunca mais será

    • renata penna
      6 de dezembro de 2014

      a saudade faz parte da caminhada, as despedidas também. o bom é a gente poder viver cada passo e seguir em frente com alegria, né?

      obrigada por comentar!

  4. Gabriela
    4 de dezembro de 2014

    Fantástica essa tradução do que sentimos como mamãe de primeira viagem. Chorei… e ainda me despeço do que fui e me acompanhou até minha filha nascer.
    Coragem!

    • renata penna
      6 de dezembro de 2014

      viver é um constante morrer e renascer, a todo momento estamos nos despedindo de alguma coisa para acolher um novo nascimento, né?

      um abraço forte e obrigada por comentar!

  5. Paula Miranda
    4 de dezembro de 2014

    Parabéns!! Pelas belíssimas palavras, pela coragem de escrever e a ousadia de ser tão autêntica em um assunto tão importante. Parabéns pela maturidade de abordar o nascimento e a morte com a mesma importância, amor e carinho. Enfocadas como um ciclo e não como opostos de uma régua. Parabéns pela humildade e generosidade de compartilhar essa visão. Não sou mãe e sequer estou gravida mas te digo que foram as palavras mais lindas e inteligentes que li sobre a maternidade. Obrigado por compartilhar e uma vez mais parabéns.

    • renata penna
      6 de dezembro de 2014

      que bacana, Paula. legal saber que bateu tão forte aí. 🙂

      obrigada por comentar!

  6. madamefufu
    4 de dezembro de 2014

    “Nascem nossos filhos, morre uma era”. Muito bem sintetizado, ótimo texto!!

  7. Daisy
    4 de dezembro de 2014

    É isso mesmo. Essa foi a coisa mais dolorida da maternidade. Doem as contrações, doe o pós cirúrgico, doem os braços, as costas, doem os seios rachados… mas nada doeu mais que me despedir de quem eu era, do casal que eramos, da vida que levávamos. E agora, nada me dá mais alegria na vida do que meu filho. Descrição perfeita.

    • renata penna
      6 de dezembro de 2014

      a dor e a alegria não precisam ser opostos excludentes, né? somos humanas e tá tudo junto e misturado… 🙂

      bjs e obrigada por comentar!

  8. clarice maciel
    4 de dezembro de 2014

    Estou a dez dias do parto de Alice minha filha e vc descreveu tudo que sinto neste momento

    • renata penna
      6 de dezembro de 2014

      sempre bom reverberar por aí! 🙂

      obrigada por comentar e parabéns pela filhota, que seja bem vinda!

  9. Marcela
    5 de dezembro de 2014

    Linda descriçao de como nos sentimos. Acredito que vivemos esse momento a cada nascimento. Estou vivendo a maternidade pela segunda vez e novamente me redescobrindo. Nasce um filho, nasce uma mae. E a cada outro, essa mae se redescobre e se transforma.

    • renata penna
      5 de dezembro de 2014

      com certeza, Marcela.

      tive gêmeos na primeira gestação, depois uma caçula após quatro anos, e a cada filho que nasce, nasce em nós uma pessoa nova.

      lindo, né?

      🙂

      obrigada por comentar!

  10. Anne
    5 de dezembro de 2014

    Gostaria de lhe parabenizar pela bela escrita e belo texto, mas acho que nem tudo é assim. No meu ponto de vista (que sou mãe de primeira viagem de GÊMEOS), nada morreu. Esse “luto” não durou nem 15 dias, acho que nem uma semana. Para a mamãe que disse que já dura dois anos, achei um pouco de exagero… É normal sentirmos falta de nossa “antiga” vida, mas desde que nos tornamos responsáveis (coisa que, para psicologia acontece após os 18 anos), temos visão de mundo e temos de nos responsabilizar por nossos atos. Agradeço todos os dias por Antônio e Miguel terem nascido e estarem em minha vida, hoje não imagino minha vida sem eles e, sinceramente, não sinto falta da antiga. Não me privo de nada, como uma saída aqui e ali, porque meus meninos sempre estão comigo. Não me privo de ficar com o pai deles assim que eles dormem, ou de ter minha vaidade. É corrido? Sim. É fácil? Não. Mas dizer que houve a morte do meu passado, que estou de luto e qualquer outra coisa assim, é exagerado. Ser mãe de primeira viagem é algo novo, desconhecido e bota medo, mas não há nada mais recompensador do que ter, no meu caso, os filhos com você praticamente 24 hrs Não enjoa, não estressa, não “enche o saco”. As mães que devem pensar em “morte” ou “luto” são aquelas que engravidam em sua pré-adolescência/adolescência, porque sim, neste caso houve a morte de um futuro plenamente construído (infelizmente a maioria dos casos é assim). Enfim, lhe parabenizo mais uma vez, mas como disse, essa é minha opinião.

    • renata penna
      5 de dezembro de 2014

      Anne,

      também fui mãe de primeira viagem de gêmeos – estamos juntas nesta. 🙂

      veja, é legítimo você dizer que o conceito de luto não se aplica à sua experiência. mas essa é apenas isso: a SUA experiência. ela não lhe outorga o direito de rotular a experiência alheia como ‘exagerada’ ou desproporcional, concorda?

      ninguém disse aqui que filho ‘enche o saco’, apenas que a maternidade, quando se mergulha profundamente na experiência, é transformadora. e o conceito de transformação envolve, necessariamente, uma morte – a morte do que se foi antes, para que se possa começar a ser algo novo.

      estamos falando de sentimentos. e quando falamos de sentimentos, nenhum é melhor ou mais correto e adequado do que o outro. todos são legítimos, fruto de experiências e formas de ver e viver a vida profundamente pessoais, nenhuma melhor do que a outra, e todas merecedoras de respeito e cuidado.

      obrigada pelo comentário!

      abs
      renata penna

    • Samila
      21 de maio de 2016

      Discordo totalmente de você, Anne! Fui mãe aos 30, já estou caminhando para os 34 e o luto me acompanha. Não tem descrição melhor! A Renata está com a razão quando diz que somos únicos e sentimos de forma distinta! Eu sinto falta, sim, da vida que eu tinha, pois ao contrário de você, viver em função de outra pessoa por 24 horas num dia é uma verdadeira anulação de mim! Eu necessito de momentos só meus! Ainda não me encontrei na nova vida que levo, estou perdida e há momentos em que canso de tudo isso, sim, afinal sou ser humano e não um robô (lembrando que robôs também precisam de pausa e reparos). Não sei se tal sentimento perdurará, não sei se hei de me redescobrir, talvez sim, pois a vida materna é uma constante metamorfose, mas hoje, digo-lhe: se você não consegue compreender o luto aqui escrito e qualquer outro sentimento contrário às suas experiências, dê-se por felizarda!! Queria ter tamanha sorte! Isso não quer dizer que eu não tenha amor pra dar à minha família, e nem que eu não receba de volta, o que quero dizer é que não estou completa, eu ainda não consegui juntar meus cacos e estou torcendo e lutando para que termine rapidamente! Felicidades!

  11. o tempo das ideias
    9 de dezembro de 2014

    Costumo indicar silêncio, escuridão e ininterruptibilidade totais pra quem for assistir ao filme do Terence Mallick, “A árvore da vida”. É filme perfeito para ser assistido depois de se ler, do Gabriel García Marquez, o livro “Cem anos de solidão”. O primeiro é sobre luto; o segundo, contém luto. E, de fato, fiquei em luto quando os assisti e li, eu, quem não tenho filho/a. Pude retomar leitura após e aquela estória se tornou como que uma parente, um membro de minha família. Como cuidei de mim! Como percebi minha sensibilidade cuidando de si mesma e de mim! Foi lindo! Paralelamente, talvez seja como cores amenas afagando carinhosamente uma a outra, de jeito que o suporte enigmatico e continente delas, perceba tal movimento de ação e tal qualidade de movimento.de ação suave, terna. Também como, talvez, os feixes de raios de luzes de estrelas que uns tocam aos outros e umas às outras, beneficiando-se, beneficando-se, reconstituindo ou pela primeira vez constituindo algo tranquilo que deva ser força de paz. Que garante-nos que quando o reflexo do sol na lua junto da luz das estrelas, quando atravessa linhas d’água em mares e oceanos onde haja estrelas-do-mar, ao tocar estes seres não os transforme momentaneamente em muito pequenas estrelas como aquelas lá de cima, do vácuo, brilhando no enigmático continente que as fixa chamado céu? Foi no começo deste ano quando os assisti e li. Alguma coisa em mim aconteceu. Não sou mais o mesmo. Sou melhor que antes. Foi reforçado em mim a estima que sempre tive pela ética, aquela da Filosofia Antiga. Talvez a ética não esteja no interior de nada, no hoje em dia brasileiro. Claro que isto que eu digo é altamente falível. Mas, se, infelizmente for real, or mais que inverificável, que esteja sempre como esforços e exercícios pró-dignidade da sensibilidade, de cada sentimento e da emoção. Bem, “O luto, a maternidade e a vida nova” também me ajudaram, também me proporcionaram algo de melhor e melhoraram-me. Sinto-me bem e penso ter certeza absoluta que é para proliferar tal bem-estar, de jeito que agrade outrem também, se/quando possível. Até porque, senão, não faz sentido. Assim. gratidão!

  12. Fernanda
    11 de dezembro de 2014

    Gratidão a essa sensibilidade e coragem de se colocar em palavras aquilo que sente no coração.
    me ajudou muito e a muitas com quem compartilhei!Namaste

  13. Caio Caselli Martins
    20 de dezembro de 2014

    Maravilhoso texto, sincero e verdadeiro. Acredito que leituras como esta são muito importantes para as mulheres/mães que se encontram “menos preparadas” para a experiência da maternidade. Ah, e quando nasce um filho e uma mãe, nasce um pai também! Que desconhece o tamanho do amor que tem pelo filho… Amor puro! Parabéns pelas palavras certeiras.

  14. Cilene Agostini Spinelli
    31 de dezembro de 2014

    Nunca vi uma coisa tão plausível feito esse texto! parabéns!

  15. Gleiciane
    6 de janeiro de 2015

    Texto belíssimo!

  16. Lia
    6 de janeiro de 2015

    Amei seu texto… sou mãe há 48 anos, mas lembro muito bem dos sentimentos… o amor e o medo… a coragem e a necessidade de amparo… voce retratou muito bem esse momento, deixando a sensibilidade fluir para nos nos alcançar. Gostaria de ter compreedido naquela ocasiao e desta forma poetica.
    Lia

    • renata penna
      7 de janeiro de 2015

      obrigada, Lia! realmente, são momentos intensos, muitas vivências profundas misturadas… 🙂

      abs!

  17. Eliane Ratier
    6 de janeiro de 2015

    Parabéns pelo texto. É uma fase confusa, às vezes não sabemos definir o que acontece e temos medo do que sentimos ou pensamos, culpa até. Sua escrita é redentora. Acontece e é normal, mas passa e se transforma. Beijo.

    • renata penna
      7 de janeiro de 2015

      obrigada, Eliane! fico contente que o texto tenha reverberado dessa forma por aí.

      abs!

  18. Flávio Matias
    12 de fevereiro de 2015

    Belo texto. Como pai de primeira viagem, posso afirmar que não há experiência mais encantadora, e para as mulheres, ela é ainda mais intensa.
    Parabéns

  19. Começo meu comentário dizendo o que muitos (com razão) pensarão e responderão: “Quem sou eu para opinar?”. De fato, não estou “habilitado” a opinar. Nunca serei mãe. Nem mulher. Mas eu sou pai. E isso pode até parecer pouco, comparado a ser mãe (e acho que de fato o seja). Mas algo também acontece na vida do homem com a paternidade. Digo os homens de verdade. Mas, embora o texto seja emocionante, eu não acho que seja um “luto”. Acho que se trata apenas de mais um ciclo, como tantos outros, mas, dessa vez, mais especial.

  20. christiane
    27 de março de 2015

    Parabéns pelo texto! Passei muito tempo achando que tinha depressao pos parto, quando notei que na verdade estava de luto e que a transição para mim estava mais dolorida que o normal. Tenho em bebe de onze meses e todos os penso nesta questão da mudança brusca. Tenho fe que encontrarei a fase de alegria..afinal estamos aqui p renascer sempre. Obrigada!

    Enviado

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 30 de novembro de 2014 por e marcado , , , , , .
%d blogueiros gostam disto: