uma vez mamífera

… sempre mamífera.

O que se vive e o que se conta

*

Dia desses, conversando com uma amiga que se tornou mãe há pouco tempo, falávamos de como tantas coisas seriam mais fáceis, especialmente para as mães de primeira viagem, se antes mesmo da gravidez, soubéssemos com mais clareza do que se trata a maternidade, e a vida depois dos filhos.

Explico: a vida de mãe pintada pelos comerciais de margarina – e muitas vezes, também nos papos de mãe  -, com bebês plácidos dormindo sozinhos no próprio berço, no próprio quarto, e de luz apagada, com filhos sorridentes e obedientes o tempo todo, com a mesa farta do café da manhã esperando pela família feliz todo santo dia, não existe na vida real.

Engraçado que, nas rodas de conversa, coisa difícil é encontrar quem compartilhe as dificuldades e ofereça um ombro amigo dizendo: “é assim mesmo, comigo também foi assim!”. Não, não. Quando seu filho mama trezentas vezes ao dia, todos os outros bebês mamavam regularmente em intervalos de três em três horas, bonitinhos. Se você fica triste de vez em quando e até chora com o bebê recém-nascido nos braços, todas as outras mães são baluartes da mais absoluta felicidade e realização. Quando seu bebê acorda à noite e você tem olheiras profundas no dia seguinte, todas as outras crianças dormiam a noite toda desde beeem pititicos – quando não desde a maternidade! Se seu bebê não quer comer, os filhos dos outros são fantásticos de garfo e comem até pedra. Se seu filho faz birra, os filhotes alheios são verdadeiros anjinhos, quietos e obedientes. Se você tem problemas com a escola dos seus pequenos, todas as outras escolas são a personificação do paraíso. Se seu filho te desafia, desobedece, se você perde a paciência, todos os outros lares são verdadeiros poços de harmonia e tranquilidade. Não é incrível?

A grande loucura disso tudo é que enquanto a gente persegue esse ideal de perfeição que só o outro tem, a gente perde a oportunidade de curtir todas as pequenas coisinhas que estão aqui, na vida de todos os dias, ao alcance da mão, entre os tropeços e imperfeições que toda vida de gente de verdade, tem.

Não seria bem mais fácil, por exemplo, se quando o bebê viesse para os nossos braços, a gente ouvisse contar que os bebês choram mesmo, por milhares de motivos, e que eles só precisam mesmo é de todo colo e de todo amor do mundo, de atenção e peito da mamãe em livre demanda? Que bebê não tem hora para sentir fome, e que é totalmente normal e esperado que ele mame quando sente vontade, já que não é um reloginho, mas um ser humano?

Não seria mais tranquilo se a gente ficasse sabendo que o pós-parto é um momento intenso, de muita delicadeza e de turbilhão emocional, que às vezes a tristeza vem com tudo, que é a coisa mais natural do mundo sentir o cansaço pesar, a responsabilidade assustar, e ter saudade da vida como era antes, cheia de liberdade? Que sentir a tal da ‘tristeza materna’ não diminui o amor que a gente sente pelo filhote, nem a felicidade de tê-lo nos braços, virando a vida de cabeça para baixo?

Não seria tudo mais suave se alguém nos contasse que todo bebê gosta de proximidade e contato, e que nada disso é defeito nem sem-vergonhice? Que a maioria dos bebês dorme mais tranquilo perto da mãe, no mesmo quarto e até na mesma cama, e que filho nenhum vai chegar aos dezoito incapaz de dormir sozinho no próprio quarto? Que mais cedo ou mais tarde chega a hora da independência, naturalmente, sem que seja preciso forçar qualquer coisa? E que quando essa hora chegar, você vai sentir uma vontadezinha quase envergonhada de agarrar o tempo e mantê-los juntinhos só mais um instante?

Não seria mais fácil se se dissesse por aí que o corpo não volta à forma depois da gravidez como num passe de mágica? Que a readaptação do organismo leva tempo, e que não ter eliminado os quilos a mais que restaram da gravidez não te confere automaticamente o título de preguiçosa e desleixada do ano? Que depois dos filhos, o corpo não precisa voltar a ser o que era – a gente é que precisa aprender a aceitar a passagem do tempo, as marcas que as experiências deixam na gente, e encontrar um caminho para ser feliz e se sentir bem sem delírios de perfeição?

Não seria mais bacana que a gente ouvisse contar que cada criança tem a sua hora para todas as coisas – comer, engatinhar, andar, falar, e para todos os outros pequenos-grandes passos que fazem parte dessa maravilhosa aventura que é crescer para a vida? Que a gente não precisa querer atropelar o tempo, e que a melhor coisa do mundo é curtir cada momento, porque todos eles passam depressa demais?

Não seria bem mais interessante se a gente soubesse que o que a gente ensina para os filhotes na vida de todos os dias, as atitudes que tem e os valores que passa, é que fazem a diferença no final das contas? Que a exceção é só isso mesmo: exceção, e não precisa ser motivo de sofrimento? Que se o filhote comer porcaria na casa da tia ou do amiguinho, se passar a tarde vendo desenhos – com propagandas! – na casa da avó, ele ainda vai voltar para casa no dia seguinte carregando consigo tudo aquilo que a gente passa cada dia ensinando e mostrando como deve ser?

Não seria tudo mais tranquilo se a gente ficasse sabendo que toda criança faz birra de vez em quando, fica irritada e não colabora, desobedece, desafia e testa limites? Que toda criança tem como objetivo de vida tirar os adultos ao redor do sério, um dia ou outro? Que seu filho dar um chilique aqui e ali não faz de você uma péssima mãe e educadora incompetente?

Não seria mais gostoso a gente ouvir dizer por aí que escola perfeita não existe, que toda parceria desafina de vez em quando, que não há mal em fazer concessões, desde que a gente possa manter aquilo que é de fato importante para a formação de nossos filhotes? Que em tudo na vida a gente fica insatisfeito de vez em quando, e pode e deve querer olhar para as coisas boas, ao invés de ficar procurando perfeição onde ela não pode, não precisa e não vai existir?

Não seria bem mais suave a gente ouvir contar que toda mãe perde a paciência de vez em quando, que gritar é uma coisa péssima mas tem horas que escapa, que quando a gente erra pode e deve pedir desculpas, que as crianças são seres incrivelmente generosos e têm o dom do perdão, e que no final do dia, com um abraço, um afago e uma conversa sincera explicando das nossas pisadas de bola, eles esquecem de tudo em um piscar de olhos, e presenteiam a gente com o sorriso mais cheio de amor e doçura do mundo inteiro?

Não seria bem mais gostoso que a gente pudesse entender que a vivência diária da maternidade não é perfeita, não é mar de rosas, e nem por isso deixa de ser uma experiência intensa, deliciosa e transformadora, que ensina e faz da gente alguém melhor, todos os dias?

Eu acho que seria. E vocês?

 

(post originalmente publicado no blog Mamíferas, em setembro de 2011)

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12 comentários em “O que se vive e o que se conta

  1. lidicematos
    30 de dezembro de 2014

    Sou uma avó de primeira viagem e eu e minha filha, mãe há menos de 2 meses, estamos encantadas com seus textos maravilhosos. Obrigada!

    • renata penna
      31 de dezembro de 2014

      eu é que agradeço a presença por aqui e o carinho, fico contente em reverberar por aí! 🙂

  2. Marina Matos
    30 de dezembro de 2014

    Arrasou, como sempre!

  3. Bia
    5 de janeiro de 2015

    Simplesmente fantástico!

  4. Ana
    6 de janeiro de 2015

    Sabe o que eu mais ouvi qd falava sobre estas dificuldades da maternidade? “É assim mesmo, ou vc achava que seria facil?”. O que há com as mulheres que não podem ser empaticas umas com as outras, que competem sem fim seja para ser a mãe mais perfeita ou a mãe mais cansada? A maternidade me fez descobrir uma tribo de mulheres-mães que eu desconhecia e busco com meus erros e acertos não participar de nenhuma destas tribos! Felizmente a gente tb vai descobrindo um grupo com o qual se indentifica, que ajuda a deixar mais leve o dia seguinte após uma noite não dormida… seja ele virtual, sejam as amigas mais “chegadas”! 🙂

  5. Clície
    6 de janeiro de 2015

    P E R F E I T O!!!!!!! Até que enfim achei uma pessoa que pensa como eu…. Seria muito mais justo. Parabéns!!!

  6. Kelly
    6 de janeiro de 2015

    Perfeito texto. Parabéns. No meu caso foi ao contrário. As pessoas falavam que dava muito trabalho, parecia o Apocalipse. Eu não achei nada disso. Minha filha tem um ano e três meses e eu já me esqueci de muita coisa. O importante é enxergar a beleza de cada fase do crescimento do bebê. Ser mãe é maravilhoso. Um privilégio. A vida é mais simples, nós que complicamos.

  7. Mammy
    6 de janeiro de 2015

    Republicou isso em MammyPoderosae comentado:
    Lindo este texto do blog “Uma Vez Mamífera”!!

    E olha que minha vida de mãe MESMO ainda nem começou… porém já me ajudou muito ler estas palavras! 🙂

  8. Daphne Paiva Bergo
    7 de janeiro de 2015

    Que delícia reler isso!!! Tanta verdade junta, cheiro de coisa viva, de gente de verdade, sem as maravilhas ilusórias que o mundo virtual tenta nos impor.Parabéns sempre!!!

  9. Carla Betta
    23 de abril de 2015

    Com certeza! E eu sou da época que nem se falava em depressão pós parto, então, dava uma cuulpaaaa danada! Minha filha, mais velha, falou logo. Meu filho, mais novo, em relação a ela, demorou para falar. Fui atormentada para levá-lo a uma fonoaudióloga, mesmo que o pediatra afirmasse que ele era “normal”. Em uma dessas pracinhas de mães com seus filhos, pela providência divina, acabo conversando com uma fonoaudióloga e esta me tranquiliza ao dizer que, pela idade na qual meu filho se encontrava, nem havia algum teste possível para detectar alguma anormalidade… … Pouco tempo depois, destrambelhou a falar… Minha filha tirou a fralda com muita naturalidade e quando chegou a “época certa” decido tirar a fralda de meu filho, quanto estresse! Uma amiga me disse: “vc já viu algum jovem com fraldas”? Não, né? Então, relaxei. Estendo esta pergunta para: “vc já viu algum adolescente dormindo com os pais”? Então… tudo passa, são fases e é tão importante carregar a lembrança de dormido pertinho de sua mãe ou seu pai ou ambos! Um bebê que chora e não é acolhido torna-se uma criança insegura. Cadê o porto seguro quando precisei atracar? Naturalmente e pelo seu jeito de educar, as crianças querem ser independentes.

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Publicado em 29 de dezembro de 2014 por e marcado , , , .
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