uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Porque um parto não é só um parto

(post originalmente publicado no blog Mamíferas, em janeiro de 2012)

Já perdi a conta de quantas vezes ouvi: “Mas por que dar tanta importância ao parto, é só um momento, a relação com um filho é muito mais do que a via de nascimento!”, “A forma como o bebê nasce é só um detalhe!”. Uma amiga, mãe de filho pequeno, me disse uma vez: “você tem que entender que não é para todas as mães que o parto é um rito de passagem como pra você – para algumas, ele é um mero degrau para ter o filho nos braços”.

Na época, lembro que rechacei este raciocínio com veemência. Hoje, já consigo pensa-lo com mais isenção, tentando olhar as coisas com outros olhos e compreender que, quanto às experiências da vida, não existem parâmetros absolutos: o que para uns é oportunidade de amadurecimento e transformação, para outros é só mais um passo – e vice-versa.

Para mim, um parto não é apenas um parto. É uma transformação – ou pode ser. É – ou pode ser – uma daquelas experiências depois das quais nada mais volta a ser o que era antes, e para tudo é preciso encontrar novos lugares, novas formas de fazer, novos valores, novos caminhos. Comigo, foi assim. Nos dois partos: o primeiro, em que muita coisa saiu bem diferente do que eu sonhei e planejei, e o segundo, um parto ‘de sonho’, daqueles que a gente quer viver de novo, e de novo, e de novo.

É claro que eu não acredito, nem vou defender aqui a ideia de que a forma como um bebê nasce será absolutamente determinante para a relação mãe/filho, nem que nascer de cesárea, de parto normal ou natural, hospitalar ou domiciliar, pelas mãos de obstetra ou parteira, formará definitivamente o caráter dessa criança no futuro. Óbvio que não. Como dizia o escritor, há muito mais entre o céu e a terra do que julga a nossa vã filosofia – e embora eu acredite, sim, que a maneira como nascemos nos marca para a vida inteira, jamais estabeleceria aqui uma relação simplista de causa e efeito do tipo parto respeitoso = criança (e mais tarde, adulto) feliz. Somos mais complexos do que isso e nossa vida se tece na soma de muitas experiências ao longo do tempo, disso eu sei bem.

Mas em uma coisa eu acredito, e a esta ideia me apego para dar importância ao parto e às escolhas que determinam como ele há de acontecer: para mim, o parto é nosso primeiro passo nesta intensa caminhada que é a maternidade. Ao parir um filho, temos todo um futuro pela frente, como mães. O parto é apenas o começo, mas todo começo é importante – começar com o pé esquerdo, de maneira torta ou equivocada não significa fracasso eminente e inevitável, mas é sempre melhor começar de uma maneira atenta e presente, com o pé direito, não é mesmo?

Para mim, as escolhas que fazemos (ou as que, consciente ou inconscientemente, aceitamos não fazer) em relação a como parir nossos filhos são a primeira grande oportunidade para exercitar atitudes que serão extremamente importantes para que possamos exercer com consciência e maturidade nosso papel de mães: escolher como parir nos dá a oportunidade de assumir responsabilidades, de amadurecer e pensar por si, de tomar decisões informadas e conscientes, de não deixar que outros decidam por nós, de aceitar a falta de controle e o desconhecido, de escolher os caminhos mais corretos e não os mais fáceis. O longo caminho que temos que percorrer para parir como desejamos nos obriga a abandonar de uma vez por todas o papel da boa menina, aquela que acata o que lhe dizem e faz sempre o que esperam que faça, ainda que não queira, não concorde ou nem ao menos tenha parado para pensar a respeito; para parir de maneira ativa e consciente, é preciso que nos tornemos mulheres adultas e responsáveis, senhoras da própria história, que fazem o que entendem como correto sem pedir autorização, sem dar satisfações a quem quer que seja. Ter um parto ativo (aquele em que a mulher é senhora de suas escolhas, sejam elas quais forem) é libertar-se.

Por isso para mim o parto é importante e não mero detalhe: porque a forma como lidamos com esta experiência, a forma como batalhamos pelo que queremos e acreditamos ou deixamos que passem por cima de nossos desejos e prioridades, e sobretudo a forma como escolhemos adquirir consciência sobre o parto vivenciado, esta sim será determinante para o tipo de mãe que seremos para nossos filhos e, como óbvia consequência, para o tipo de pessoas que eles virão a ser.

No parto, além de nascer um bebê, nasce uma mãe, e isto é muito simbólico: no momento em que trazemos nossos filhos ao mundo, parimos também – ou ao menos, podemos parir – uma nova consciência, novas atitudes diante da vida, um olhar inteiramente novo para si, para os outros, e para tudo o que nos cerca. E isso não significa que apenas um parto natural sob a jaqueira fará de você uma mãe consciente e empoderada, mas que a forma como você decide olhar para esta experiência, seja lá qual ela tenha sido, terá muito a dizer a respeito da mãe que você há de ser.

Um parto, para mim, não é só um parto – é toda uma revolução. E para você?

Anúncios

5 comentários em “Porque um parto não é só um parto

  1. Rô Rezende
    14 de janeiro de 2015

    Renata, eu acho que concordo com a sua ideia (se entendi bem), entendo o que você quer dizer por trás disso. Mas discordo de que isso tudo seja o parto, o parir em si.

    Para mim o mais importante não é o desfecho (não acredito que para você seja, mas a construção do texto leva a entender isso) mas sim, o processo. E o processo desde o começo, desde o momento que se começa a pensar nisso.

    As escolhas que se faz, as decisões que se toma até chegar o trabalho de parto. E então, o trabalho de parto se torna mais um passo importantíssimo nessa jornada. E nem sempre o desfecho é o que queremos ou esperamos (uma cesárea necessária, necessidade de intervenções reais). E não importa como seja, acredito que cada processo é exatamente como deve ser, traz a tona cada detalhe que precisa ser trazido, as sombras.

    Sim, para mim é um ritual de passagem importantíssimo, mas tenho tentado, cada vez mais, tirar o parto em si do pedestal e colocado o processo e a mulher. Isso está acima do parto.

    Talvez essa minha necessidade parta justamente de eu ter colocado o parto em um pedestal, mas o contato com mulheres que tiveram processos lindos, se empoderaram de formas incríveis, mas não tiveram o parto sonhado ou precisaram da cesárea, me fez rever isso.

    Não imagino a dor disso, não consigo nem vislumbrar o que deve se passar na cabeça dessas guerreiras, mas acredito que nosso discurso em relação ao parto influencia ainda mais em como elas se enxergam.

    Será que o ritual de passagem não foi completo porque o desfecho foi diferente? Será que a revolução só existe ao parir de fato? Eu acredito que não, que isso, se formos ver, pode até ser o de menos, e você? Já pensou sobre isso?

    • renata penna
      16 de janeiro de 2015

      Rô,

      em nenhum momento eu disse que o desfecho é o mais importante. ao contrário, eu digo textualmente que o que faz a diferença é o olhar que lançamos sobre o processo, a forma como escolhemos protagonizá-lo ou não.

      sim, eu já pensei muito sobre isso. meu primeiro parto foi totalmente diferente do que imaginei que seria, e foi uma revolução imensa – e maravilhosa – na minha vida. porque é o processo, e não o desfecho em si, o que importa. foi exatamente o que eu disse. 🙂

      abs

  2. maejuanajcs
    25 de janeiro de 2015

    Meu primeiro parto foi uma experiencia incrivel e transformadora. Entendo perfeitamente seu questionamento pois senti que nós mulheres somos feitas para parir. Nosso corpo tem essa incrivel capacidade. Sentir as contracoes e empurrar um bebe pela vagina é parir. Cesaria é uma operação nao tem nada a ver com parir. Eu pari em casa. Sem drogas. Queria vivenciar a natureza do meu corpo em sua totalidade. Queria virar bicho mesmo. Acreditei piamente que eu ia conseguir e foi fundamental isso. Depois de parir minha filha eu me senti mulher. ‘Agora eu entendi o que é ser mulher!’ Pensei. Bom, isso tudo para dizer que é uma pena que nem todas as mulheres terao essa experiencia por puro medo ou falta de informacao. 😦 para responder a sua questao. A maternidade transforma tbm mas concordo em começar com o pé direito. 🙂

  3. fabrizia
    20 de fevereiro de 2015

    Acho que o que a Rô Rezende falou ( “Não imagino a dor disso, não consigo nem vislumbrar o que deve se passar na cabeça dessas guerreiras, mas acredito que nosso discurso em relação ao parto influencia ainda mais em como elas se enxergam.”) foi justamente para discursos como o da maejuanajcs.
    E eu concordo e agradeço por ela ter escrito isso.
    Minha história: 28 anos, gravidez saudável do primeiro filho, planejando parto em casa, tendo a sorte de estar residindo na Inglaterra onde seria acompanha por duas midwifes. Toda contente, super informada, pesquisando tempo de transporte para o hospital e aluguel de piscina. Chegaram as 20 semanas e detectou-se placenta baixa e tudo que isso acarreta (risco de hemorragia, repouso…). 33 semanas, placenta prévia confirmadíssima. 35 semanas, internada no hospital até o bebê nascer com 39 semanas e três dias de cesárea marcada porque a equipe médica também segue a orientação que eu queria de esperar o máximo possível. Mas, no meu caso, nem contrações eu poderia começar a sentir sob o risco de uma severa hemorragia. A natureza do meu corpo é bem fubeca, a começar por um septo uterino que provavelmente contribui para essa condição.
    Eu também me sinto guerreira, mas sinceramente tive que trabalhar mentalmente com muitas expectativas frustradas. Por um caminho completamente diferente, também me sinto incrivelmente mulher. E sem conseguir me identificar com quase nenhuma outra, porque não tive um parto natural, então não me encaixo nessa categoria, e nem tive uma cesárea pelos motivos de tantas outras que conheço. Guerreira junto do meu companheirinho de aventuras e do meu marido incrível. Não por ter parido, mas por termos juntos enfrentado uma barra grande desde o começo que não foi nem com pés, foi de voadora mesmo!

    • renata penna
      20 de fevereiro de 2015

      Fabrizia,

      como está no texto, o que importa talvez seja menos o desfecho em si, e mais a forma como a gente escolhe olhar para ele, e o que se propõe a construir a partir dali. você viveu sua história da maneira possível, e ela te trouxe onde está hoje, que bom. é disso que eu falo. 🙂

      obrigada por compartilhar sua experiência!

      abs

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 14 de janeiro de 2015 por e marcado , , , , , .
%d blogueiros gostam disto: