uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Se você não tem algo agradável para dizer…

diante do desafio: encorajamento

diante do desafio: encorajamento

Quando estamos diante de uma situação delicada, exigente, cansativa, tudo o que gostaríamos de ouvir são palavras de incentivo, de apoio. Isso parece óbvio. Seria bom, nestas horas, ouvir algo como: “sei que está sendo difícil agora, mas esse momento vai passar, e quando tiver passado você vai se sentir muito bem por não ter se afastado do que acreditava ser o caminho certo!”. Mas qual o quê!! Quase sempre, o que acontece é exatamente o contrário. E se vocês acham que não, eu exemplifico.

Quantas gestantes, em tempo avançado de gravidez e esperando até que o trabalho de parto se inicie naturalmente, tentando se manter tranquilas e confiantes, já não ouviram comentários do tipo: “pra quê ficar nessa ansiedade, essa criança está passando do tempo, vai lá e induz/marca, acaba logo com isso!”?

Quantas parturientes, às voltas com as dores e angústias de um trabalho de parto intenso e demorado, em um esforço comprometido e apaixonado para encontrar a própria força e despertar de dentro de si a fêmea parideira, já não tiveram que engolir a capciosa sugestão: “pra quê sofrer desse jeito, por onde o seu bebê vai nascer não tem a menor importância, toma logo uma anestesia/vai logo pra cesárea e você vai ter logo o seu filho no colo, deixa de bobagem!”?

Quantas recém-paridas, passando horas a fio com bebês chorosos no colo, acalentando e acolhendo de todas as maneiras possíveis, já não se viram diante de comentários como este: “dá um remediozinho para esta cólica, é só um pozinho/analgésico/antitérmico, você vai ver como ele acalma, não é nada de mais!!”?

Quantas lactantes, lidando com as dores e delícias da amamentação, insistindo tanto quanto podem para não sucumbir à ditadura do leite artificial e à falácia do leite fraco ou insuficiente, já não tiveram que escutar a clássica conversa: “besteira ficar insistindo, amamentar não é para todo mundo, dá logo uma mamadeira, esse bebê engorda mais rápido, você descansa, ninguém morre porque não mamou no peito da mãe!”?

Quantas mães, em momentos de fragilidade e cansaço lidando com doenças dos pequenos, após noites e noites sem dormir acalentando uma febre, abordando o desequilíbrio o mais naturalmente possível, já não se viram às voltas com comentários do tipo: “dá logo uma alopatia/antibiótico, acaba com o sofrimento dele(a) e você descansa, todo mundo sai ganhando”?

Isso, além do rótulo clássico que já estamos todas empapuçadas de ouvir, e que via de regra vem logo em seguida de todas estas sugestões não solicitadas: “puxa, mas você é muito radical!!”.

É como se, diante de alguém em dificuldades, as pessoas esquecessem o significado da palavra ‘empatia’. Parece tarefa impossível colocar-se no lugar do outro, compreender suas necessidades, seus valores e suas escolhas, não tentar demove-lo do caminho que deseja trilhar para vender uma solução milagrosa qualquer que só faz sentido para quem a oferece.

Fica a dica: se você vir uma pessoa passando por uma situação delicada e exigente, coloque-se no lugar dela antes de oferecer a ela aquele que, para você, é o caminho mais fácil. Tente se lembrar que talvez ela não esteja à procura do caminho mais fácil, apenas do mais correto para ela. A maternidade não é feita de escolhas fáceis. Ser mãe é maravilhoso, mas implica aceitar as dificuldades, os cansaços, as dúvidas, as angústias, as escolhas delicadas e exigentes que fazem parte da caminhada.

Lembro-me sempre do Tambor, aquele coelhinho de patas enormes, melhor amigo do veado Bambi na historinha infantil. Tambor era boa pessoa (ops! bom coelho!), mas um pouco linguarudo demais, e sem perceber vivia fazendo comentários desagradáveis a respeito dos outros. Seu pai então lhe ensinava uma valiosa lição: “se você não tem algo agradável para dizer, não diga nada!”. Sábio conselho!

Então, diante de uma gestante de 41 semanas à espera de um trabalho de parto iniciado naturalmente, não sugira marcar ou apressar o parto. Melhor dizer algo como: “vamos almoçar amanhã, depois passeamos um pouco e você se distrai e pensa em outras coisas?”. E leve-a para comer uma comida bem apimentada, seguida de um bom chá quente para auxiliar a digestão.

Diante de uma mãe em trabalho de parto, não sugira ajuda medicamentosa ou uma solução cirúrgica desnecessária. Ofereça sua presença e seu apoio, um carinho entre uma contração e outra, palavras de incentivo, massagens, uma colher de sorvete ou um gole de água de coco para hidratar e dar energia.

Diante de uma mãe recém-parida, não sugira pozinhos milagrosos. Melhor oferecer um par de braços extras, ou dar de presente um fast wrap, para que o bebê possa ficar bem aconchegadinho junto do corpo da mamãe – melhor remédio não há.

Diante de uma mãe amamentando, não sugira complemento. Ao invés disso, ofereça-se para fazer o almoço ou dar uma arrumada na casa, enquanto ela aproveita para dormir junto com o bebê, acordar mais descansada, alimentar-se melhor, beber mais água e aumentar a produção de leite.

Diante de uma mãe com filho doentinho, não chegue com a sacola cheia da farmácia. Ofereça ajuda, esteja por perto para facilitar a logística, cuidar dos outros filhos que estejam precisando de mais atenção, ajudar nas rotinas da casa que ficam esquecidas nestas horas.

E sempre, sempre tenha em mente que palavras podem dar força, acalentar e animar – mas quando mal empregadas, podem também desequilibrar, gerar insegurança, angústia e tristeza. Então, “se você não tem algo agradável para dizer (ou para fazer), não diga (faça) nada!”.

É isso. Nem é tão difícil assim. Vamos tentar?

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4 comentários em “Se você não tem algo agradável para dizer…

  1. Gabi Ramalho
    4 de fevereiro de 2015

    Que lindo isso do “caminho mais fácil” x o “mais correto para aquela mãe”!!
    É mesmo muito difícil maternar “fora da caixinha” sem ser taxada de radical!
    E, aliás, se mais gente lesse textos como esse – e levasse a sério o conselho, seria mais fácil !! rsrs
    Beijos

  2. 26 de março de 2015

    Adorando seu textos…experimentando a gravidez e me preparando para ser mamãe!!! Já tive uma empatia boa com sua ótica ( até por conhecimento de causa) sobre a maternidade!

    • renata penna
      26 de março de 2015

      obrigada, Jô, seja bem vinda, ao blog e ao mundo da maternidade! 🙂

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