uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Sobre deixar-se transformar

Há por aí quem bata no peito com muito orgulho para dizer, engrossando a voz: “a maternidade não mudou minha vida, eu continuo sendo a mesma pessoa que era antes de ser mãe!”.

Pois eu, cá do meu canto, bato no peito orgulhosa para dizer o contrário: que a maternidade me mudou sim, e muito. Que minha vida hoje é outra, e eu mesma sou uma pessoa totalmente diferente de quem eu era antes de gestar, parir e maternar minhas três meninas.

Acho curioso que haja quem pense que a maternidade e a paternidade não devem transformar, trazer mudanças para a vida, deixar as coisas diferentes. Querer ter filhos e seguir com a mesma vida de antes, sendo quem sempre se foi, é ignorar que a maravilha da existência é a fluidez, a transformação: é a possibilidade de deixar-nos transformar pelo que nos acontece, pelo que vivenciamos, a oportunidade de aprender, crescer e melhorar.

Antes de ter filhos, eu tinha uma liberdade que não tenho hoje: era dona do meu tempo, das minhas prioridades, fazia apenas o que eu quisesse quando quisesse, minhas escolhas eram feitas pensando apenas no que era mais importante para mim. Podia dormir até tarde todos os dias, decidir viajar na última hora e sair sem avisar a ninguém, evitar as rotinas, virar a vida do avesso quando me sentia entediada de caminhar por aqui ou por ali. Com Ana Luz, Estrela e Chiara na minha vida, a coisa mudou de figura. Perdi algumas liberdades, e quem sabe até algumas oportunidades? Certamente. Mas ganhei tanto, e coisas tão importantes, que não faz o menor sentido seguir apegada às perdas – mais vale comemorar os ganhos, os crescimentos, os presentes.

A Renata que sou hoje, quase onze anos depois da descoberta da primeira gravidez, é alguém muito diferente daquela que eu havia sido até então. E não tenho dúvidas de que alguém melhor, maior. Depois de ser mãe, tornei-me mais tolerante, mais generosa; confio mais em mim, sou mais assertiva, mais segura das minhas escolhas, me banco mais. Sou mais adulta, mais consciente, mais responsável e menos ingênua – mas igualmente idealista, porque o que é importante e faz parte da essência a gente não perde, seja como for. E me gosto mais, muito mais hoje do que há oito anos. E não é para isso a vida – para que a gente evolua, siga adiante, e se veja então melhor do que já foi?

Li outro dia: “ser mãe não pode mudar a pessoa que você é”. Como discordo! Ser mãe TEM que mudar a pessoa que você é, porque assim acontece com todas as coisas que vivemos profundamente, com consciência, de um jeito inteiro: elas nos mudam, elas revolucionam, elas não deixam que nada permaneça como era antes – elas exigem que você se torne uma pessoa nova, e isso é maravilhoso.

A vida é dinâmica, as coisas se transformam. Desta fluidez não se pode fugir, sob pena de estar para sempre preso a uma ideia morta sobre o que se deve ser, uma ideia que pertence ao passado. Eu não sou mais a mesma que fui, antes de ser mãe – e que coisa fantástica! Que bonito é a gente se permitir tocar pela vida a ponto de transformar-se, de deixar de ser o que se é para acolher uma coisa nova, mais inteira, mais bonita, que faça mais sentido naquele momento.

Que bom seria se toda mãe, se todo pai, se permitisse esta entrega diante da fluidez da vida, e então a maternidade e a paternidade pudessem trazer o que de mais incrível têm a nos presentear: uma porta aberta diante do imenso da vida, da intensidade do amor que revoluciona, da inteireza da troca que faz a gente ser melhor, ser maior, ser mais.

Minha vida hoje não é a mesma de antes da maternidade, eu não sou mais a mesma pessoa  – e agradeço todos os dias por isso. Não tenho vergonha de dizer que minhas filhas, vindo ao mundo e passando a fazer parte da minha vida, transformaram-me em quem eu antes não era, ao contrário: tenho muito orgulho. Porque coisa boa da vida é isso: a gente deixar que o que tem de morrer, morra para dar lugar ao novo. Como já dizia a canção: “as ruínas são restos mas não do que acaba, mas sim do que morre pra recomeçar”.  E eu  adoro recomeços.

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4 comentários em “Sobre deixar-se transformar

  1. Sara Costa
    10 de abril de 2015

    Amei!! E concordo com cada palavra!

  2. Carla Betta
    10 de abril de 2015

    Ser mãe é transformação! É descobrir-se, descobrir o outro. Crescer, evoluir, saindo do egoísmo para o amor (quase) incondicional! Quanto a gente amadurece! As concessões são perdas temporárias. Filhos crescem e neste momento vc sentirá a tão pouca importância de fazer o que quer, sem pensar em horário.

  3. Caroline Pizzini
    11 de abril de 2015

    eu tenho agradecido diariamente pela oportunidade que a maternidade me dá de me desconstruir e me reconstruir diariamente, sempre com novos pilares e novas nuances. É isso, um dia após o outro! 😉

  4. ducabarreto
    22 de setembro de 2015

    Eu poderia ter escrito essas palavras. Com a diferença que tenho um filho de 3 anos e estou gestando a segunda, de resto, as sensações são todas iguais, inclusive o idealismo. 😉

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