uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Crescemos nós

Crianças crescem. É um daqueles fatos da vida que independem da nossa vontade. Queiramos ou não, à nossa revelia, as crianças crescem.

Num dia, eles estão abrindo seus olhinhos curiosos para o mundo pela primeira vez. Choram um chorinho fino, estridente e desesperado, agarram-se ao peito como se fosse o remédio para todos os males do mundo, sugam todas as horas dos nossos dias e cabem inteirinhos no vão dos nossos braços, alimentando a nossa ilusão inútil de poder protegê-los sempre, diante de todas as dores de uma vida.

No outro dia, escapam ao nosso colo e engatinham velozes, descobrindo os cantos do mundo, experimentando outros toques e outros olhares, balbuciam sons curiosos e fofos, matam-nos de tanta ternura, enquanto ensaiam passinhos tortos, descoordenados, lindos. Lambuzam-se de tinta, de terra, de comida, do suor da brincadeira, da água do banho que espirra pra fora, numa rebeldia constante diante das adultices do mundo ao redor.

Depois saem a caminhar, descobrem o que há por aí na distância possível que aumenta aos poucos e de repente de uma vez só, começam a dizer frases inteiras cheias de sentido e transbordantes de uma personalidade que nos debruçamos a desvendar, nas conversas de todos os dias, às vezes mais apressadas e despretensiosas e outras vezes muito atentas e cheias de nuances, sutilezas e aprendizados – para eles, e para nós.

Vão para a escola (ou não), conhecem gente  nova, ampliam seus olhares sobre as coisas do mundo, sobre as coisas da relação com o outro, sobre as coisas da relação da gente com a gente mesmo, ‘se si consigo’. Voltam para nós todos os dias cheios de opinião, achando um pouco sobre tudo o que há e afirmando seus pensares próprios, independentes, autônomos. Um belo dia, lá estão eles a cultivar pequenos mistérios, espaços segredosos onde não podemos penetrar, delicadezas e sonhos que só a eles pertencem e escolhem a dedo com quem dividir – ora com o pai, ora com a mãe, ora com a avó ou o tio ou a madrinha, ora somente com a irmã ou a vizinha ou o amigo da escola, ora apenas consigo mesmos em um diálogo silencioso, num espaço impenetrável que, com todo amor do mundo, aprendemos a respeitar.

Logo não cabem mais em roupa alguma, as calças todas encurtam e deixam ver os calcanhares magros, os tênis apertam a ponta dos dedos, os cabelos avançam para muito abaixo dos ombros, o corpo todo se estica e se espalha num movimento indisciplinado de ocupação dos espaços, os sorrisos alargam e os olhos adquirem a cada dia uma profundeza que não conseguimos alcançar por inteiro. Eles são todo um mundo que se descobre a si mesmo, e isso é lindo.

Crianças crescem. De maneira desordenada, fora de ritmo, desafinando, desafiando as regras, as expectativas. Crianças crescem, e a gente aprende a estar ali. Apenas, ali. Numa conduta expectante. Presente. De camarote, assistindo o belo espetáculo da lagarta virar borboleta, desdobrar as asinhas coloridas cada dia um pouco mais. Romper o casulo, quebrar a casca do ovo para sair – mundo afora, viver uma vida inteira.

Crianças crescem. E que privilégio este, estar por perto quando isso acontece. Aparar a queda, quando é possível. Acolher o choro depois do tombo. Ouvir com o coração. Amar, sem porquês. Compartilhar os sonhos, as bonitezas, as alegrias e tudo o que reluz, e tudo o que dói. Ajudar a desembrulhar o laço de fita do presente da vida, diariamente.

Crianças crescem, e convidam a gente a crescer junto.

Eu vou.

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Publicado em 22 de abril de 2015 por e marcado , , , , .
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