uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Por favor, repare a bagunça!

imagem: google images

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Quem não gosta dos ambientes milimetricamente calculados das revistas e mostras de arquitetura? Móveis arranjados com perfeição, almofadas estrategicamente posicionadas, tapetes tinindo de novos, cortinas sem uma mancha de gordura, rodapé combinando com a maçaneta da porta, souvenirs obsessivamente posicionados sobre as prateleiras, bem ao lado de um porta-retrato brilhante da família sorridente, de férias em um lugar paradisíaco qualquer. Tudo combina com tudo, e nada foge ao script. Quem não gosta?

Eu gosto. Pra ver. E também já quis viver em um ambiente assim, confesso. Aliás, acho que passei um tempo precioso perseguindo esse ideal da casinha de bonecas – e sofrendo por, obviamente, não conseguir alcançá-lo.

Aqui em casa, sempre encontramos um brinquedo esquecido pelo chão, ou debaixo do sofá, ou por trás das almofadas. Uma camiseta, ou pé de meia, ou calcinha, ou pé de chinelo, sempre acha de se esconder nos lugares mais inusitados: embaixo da mesa de jantar, por entre os livros da prateleira, na gaveta do banheiro, por baixo das almofadas.

Não passamos roupas. Elas vão direto da máquina de lavar e secar para o armário – ou, quando falta o tempo, para uma prateleira do quarto, de onde são estrategicamente recolhidas para ir direto para o corpo, na hora da necessidade.

A área de serviço, com seus cestos coloridos, está sempre entulhada: raramente conseguimos colocar as roupas em dia. A louça do dia a dia vai sendo esquecida na pia, até que ela encha e seja a hora de fazer um ciclo na lava-louças (artigo cujo inventor abençôo silenciosamente todos os dias – embora só há pouco tenha acabado de pagar suas infinitas prestações).

No banheiro, já há muito desisti de arrumar em frente ao espelho pequenos frascos de perfume (que aliás não usamos, e só servem mesmo para juntar pó) ou outros souvenires decorativos. A decoração é minimalista, e normalmente inclui um bonequinho de playmobil, uma pecinha colorida de lego e um giz de cera perdido do estojo.

Nossa sala é alegremente adornada por mochilas de bichinho, livros e dvds empilhados aqui e ali, um quadro coloridíssimo pintado pelas pimentas pendurado na quina (elas mesmas escolheram um lugar e inventaram um meio de fazê-lo) da janela, a mesa coberta por uma toalha de chita sob um plástico transparente (não muito bonito, mas bem mais prático para a limpeza do dia-a-dia).

A casa da revista de decoração é linda, é perfeita, é impecável, mas não tem vida. Porque gente vivendo em casa bagunça, tira as coisas do lugar, suja, mistura, deixa suas marcas da vida de todos os dias. A casa da revista de decoração é linda, mas não tem história. E mais importante: não tem a nossa história.

Nossa casa tem crianças, mas mais do que isso: ela tem vida. Nela vivem pessoas que trabalham, comem, brincam, estudam, choram e dão risada, desejam coisas, sonham e realizam. Como querer que esteja tudo sempre arrumadinho? Nossa vida interior não é arrumadinha! Por que a exterior deveria ser?

Cada pedacinho da nossa casa conta uma história particular e especial – fala sobre os nossos erros, sobre os nossos acertos, sobre o que gostamos e o que não, sobre as nossas impossibilidades e limitações, sobre aquilo tudo que fazemos bem, sobre aquilo que nos faz felizes.

Então, da próxima vez que eu receber uma visita em casa, não vou dizer: “por favor, não repare a bagunça…”. Ao contrário. Vou dizer, em alto e bom som, e com um sorriso de orelha a orelha: “por favor repare a bagunça, ela tem muitas histórias pra contar. e lembre-se: ela é diretamente proporcional à alegria dos moradores da casa!”.

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7 comentários em “Por favor, repare a bagunça!

  1. Shirley Leal
    5 de maio de 2015

    Nossa! Adorei! Tenho 4 filhos e, me encaixo perfeitamente em tudo que vc descreveu… E minha casa rem muita vida!!! Parabéns!

  2. Carolina Vilar
    5 de maio de 2015

    Eu tive um professor que havia trabalhado inspecionando abrigos infantis. E ele sempre desconfiava dos abrigos que eram muito arrumados e assepticos. Ele fala que escrevia no relatório dele que ali tinha algum tipo de abudo. Porque não era normal um lugar cheio de crianças, crianças que passaram por N situações problemáticas fossem tão organizadas. Na época achei estranho. Na minha família, uma casa em ordem era o sinonimo que estava tudo bem. No entanto. depois desse relato, passei a observar melhor e conclui que estava certo.
    Hoje eu sofro por buscar o ideal de casa de revista de decoração. Foram anos de criação que me fizeram assim rsrsrs Sou daquelas que destroi a coluna arrumando a casa porque vou receber visita e odeio que aparecem sem avisar, porque á um absurdo verem brinquedos e livros espalhados pela casa.
    Quem sabe um dia me desapego? rsrsrs
    Abraços.

  3. Mônica Cadorin
    5 de maio de 2015

    É também o que cada um considera bagunça. As caixas de canetinhas da minha filha sobre a estante de livros, os brinquedos no sofá, os livros e DVD sobre o rack da televisão podem não estar milimetricamente posicionados, mas nós decidimos que o lugar deles É ali. Não escondo nenhuma “bagunça”, simplesmente assumo como “o lugar correto”, mesmo que mais ninguém considere assim. E, como tenho uma filha virginiana, se ela decidiu que tal coisa deve ficar em tal lugar, está decidido!

  4. karineataide
    7 de maio de 2015

    Texto perfeito!!

  5. velacerda
    7 de maio de 2015

    Eu sofro um pouco por causa da bagunça. Fui criada achando que ser bagunceira me fazia ser uma pessoa ruim. Quando criança, muitas vezes deixava de fazer brincadeiras porque iria criar muita bagunça. Hoje eu penso assim: Se minha filha não pode usar a própria casa pra fazer suas bagunças, onde mais ela podera fazê-las? Mas é um processo sofrido, e eu tenho que lutar muito comigo mesma, e pedir muitas desculpas pra ela quando eu dou a louca e peço/exijo que ela arrume o quarto (normalmente pra um padrão que me satisfaça). A forma como tem funcionado melhor hoje em dia é, se esta muito bagunçado e eu estou muito incomodada, eu começo a arrumar e ela as vezes até me ajuda sem eu falar nada. Digo que sou uma perfeccionista em recuperação.

  6. velacerda
    7 de maio de 2015

    Ah, e lava-louça é alegria de viver! Já morei em um apartamento com uma e posso dizer que foram os 6 meses mais felizes da minha vida. Mentira, exagero, mas quase isso!

  7. Nalygia Feitosa de Mello
    28 de maio de 2015

    oia gente, lá em casa!

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Publicado em 5 de maio de 2015 por e marcado , , , .
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