uma vez mamífera

… sempre mamífera.

10 anos, e a descoberta das coisas que eu nunca vi

pimentas10anos-2

“aprendi com meu filho de dez anos

que a poesia é a descoberta

das coisas que eu nunca vi”

(oswald de andrade)

ontem, quase agora há pouco (lá se foi dezenove de maio e ainda cá estou eu, acordada madrugada adentro, cabeça a ruminar pensamentos vários, coração agitado, emotivo e contente), fez dez anos desde que vocês nasceram. desde que vocês vieram, definitivamente, colorir com seus risos e sisos o mundo do lado de fora de mim. aterrisaram por cá num fim de tarde calorento, depois de catorze horas em que esforçamo-nos juntas, num processo longo, dolorido (das mais variadas maneiras), lindo (das mais variadas maneiras) e turbulento que me transformou de todas as formas possíveis.

vocês vieram tão pequeninas. tão frágeis. dois pacotinhos de menos de três quilos cada um, que eu aconchegava entre meus braços cheia de sonhos e de medos – quanto medo de não dar conta de não ser boa o suficiente de estragar tudo de sofrer de fazer sofrer de me perder no desconhecido de mim de vocês e do mundo que se criava ali, entre nós três. e tão cheia de sentimento. um gostar que me doía por dentro, porque eu ainda não sabia sentir, de grande que era. cada vez que vocês choravam, entre seus soluços eu sentia como se morresse um pouquinho por dentro. mas não era morte o que eu sentia, era vida: vida de amar grande demais, de um tamanho que eu nem sabia que se podia experimentar.

hoje, eu já não consigo mais me lembrar como era a vida sem que vocês fizessem parte dela. penso, puxando pela memória como se revisitasse um passado muito distante – tão distante que parece nem mesmo ter acontecido comigo, mas com outra pessoa qualquer que me contasse os fatos que resgato, empoeirados, da lembrança -, que era uma vida muito diferente.

menos ainda me lembro da pessoa que eu era, antes de vocês. essa pessoa morreu, para sempre, e de susto, naquele dezenove de maio. despediu-se sem qualquer aviso, foi-se. quando eu olhei, já não existia mais. hoje, é um retrato pendurado na parede. um sorriso um pouco desbotado, no álbum de fotografias. um olhar perdido, esquecido no porta-retratos. ela era eu, mas depois de vocês eu fui outra – e como gosto de ser.

nesses dez anos teve de tudo, só não teve monotonia: teve medo alegria dor tristeza saudade euforia dúvida cansaço teve vontade de sair fugida de todas as coisas teve dias de não querer botar o pé pra fora da cama teve dias de achar que não me cabia de tanta alegria teve dias de me achar a melhor do mundo e outros de me achar a última das criaturas, mas antes disso tudo o que teve sempre, sem faltar um dia, foi amor. bom de sentir, acarinhando e transformando a gente em algo maior e melhor, um pouquinho por vez.

com vocês, eu aprendi a ser mãe. de primeira viagem, metendo os pés pelas mãos. sem manual. sem curso preparatório. sem test drive. assim, no susto da vida. no mistério dos dias, apenas sendo, existindo, tentando. e errando. errando um bocado, bem mais do que eu gostaria. mas fazendo sempre tão bonito quanto possível. até mesmo no erro. até mesmo na dor. até mesmo na falta, na falha e no desafino. que é nosso, também. feito a seis mãos, porque é assim que a gente gosta de viver a vida. junto, seja no passo de dança ou no tombo bem no meio do salão, enquanto a música não cessa de tocar – porque a música, a gente já sabe, nunca cessa de tocar.

foram dez anos incríveis, minhas meninas. intensos, cheios de piruetas, rodopios e cambalhotas. com emoção, como a gente gosta.

para os próximos dez, eu só desejo a gente assim, como tem sido: aprendendo e ensinando todos os dias, sem saber direito quem faz o quê. e sem dar a menor importância.

porque se a gente está junto, seja como for: é bonita, é bonita e é bonita.

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Publicado em 20 de maio de 2015 por e marcado , , , , , , .
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