uma vez mamífera

… sempre mamífera.

O mito da criança “boazinha”

chiaraatituderoqueira

Tenho andado um tanto incomodada com o ‘mito da criança boazinha’. Eu explico: entre as conversas – sejam familiares, sejam em grupos de amigos – onde se fala sobre crianças, a coisa mais comum é ouvir gente se referindo a um bebê, ou a uma criança, adjetivando assim: “fulaninho é um bebê muuuito bonzinho!”, “fulaninha é uma criança tããão boazinha!!”.

Eu vou dizer: bonzinho, boazinha, não são lá adjetivos que me cativem especialmente. O que é, afinal, um bebê bonzinho, uma criança boazinha? Aqueles que não dão trabalho? Aqueles que não choram? Aqueles que aceitam e acatam todas as orientações sem questionar? Aqueles que são obedientes, cordatos, silenciosos e educadinhos?

Minha caçula, Chiara, foi um bebê “bonzinho”, de acordo com o senso comum: praticamente não chorava, não estranhava ninguém, ia de colo em colo com um sorriso no rosto, estava sempre disposta e bem humorada. Em que isso a faz melhor do que Ana Luz e Estrela, que nessa fase da vida choravam um tanto, estranhavam desconhecidos e não iam em colos que não fossem os bem conhecidos da rotina diária?

Hoje, aos seis anos, Chiara é uma criança de vontade forte, dura na queda e difícil de dobrar. Questionadora e atrevida, não são poucas as vezes em que nos dá um verdadeiro baile para atender uma solicitação. Em que isso a faz pior do que as irmãs, que na mesma idade tinham um perfil mais dócil, nunca gritavam ou choravam em público e costumavam seguir tranquilamente as orientações dadas?

A resposta para estas duas perguntas é uma só: em nada. Chiara não é melhor nem pior do que Ana Luz e Estrela por agir assim ou assado, assim como nenhuma criança é melhor ou pior do que a outra porque chora menos, obedece mais, come melhor, dorme com mais facilidade, não faz birra ou cumprimenta desconhecidos.

Às vezes, ouço mães e pais adeptos do attachment parenting querendo ‘comprovar’ a eficácia deste estilo de maternagem e paternagem com o argumento: “meu filho foi criado com todo peito e todo colo do mundo, e olha só: é tão bonzinho!!”. O argumento tem toda boa intenção do mundo, eu bem sei, mas pode sair pela culatra: e se a criança não fosse, com todo colo, toda presença e todo peito do mundo, uma ‘criança boazinha’, o attachment seria menos válido então? Para pais que praticaram amamentação exclusiva e prolongada, cama compartilhada, colo e carinho em livre demanda, e têm filhos agitados, ranhetas, resmungões, irritadiços (como aliás, convenhamos: toda criança pode ficar de vez em quando, até a mais ‘boazinha’, não é mesmo?), seriam então, pela lógica contrária, prova da ineficácia desta forma de criação?

Criar filhos com todo amor, toda paciência, todo respeito e toda presença do mundo, é uma coisa bacana por si só, e certamente trará frutos maravilhosos pela vida afora. Mas não se trata de um meio para atingir a um fim: eu sou adepto da maternidade e paternidade por apego para que meu filho seja assim, ou seja assado. Nossos filhos serão como são, a nós cabe estar presentes, amá-los e acolhê-los da melhor forma possível – e aí é que se encaixam perfeitamente o respeito, o carinho, o diálogo, tudo em livre demanda e sem economia.

Eu não quero filhas ‘boazinhas’. Eu quero filhas felizes, vivas, autênticas, livres. Quero filhas que possam ser simpáticas ou antipáticas, bem ou mal humoradas, sorridentes ou ranzinzas, tranquilas ou espevitadas, silenciosas ou bagunceiras. Afinal, eu também tenho meus momentos para ser tudo isso – definitivamente, eu não sou uma ‘moça boazinha’, eu sou uma mulher inteira e livre, e posso ser tudo o que eu quiser.

E não quero menos que isso para as minhas filhas. E você?

*post originalmente publicado no blog Mamíferas
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14 comentários em “O mito da criança “boazinha”

  1. Hellen
    26 de maio de 2015

    Esse texto caiu como luvas em minha vida, estava precisando de uma leitura como essa no momento em que estou vivendo. Obrigada

  2. Lau
    26 de maio de 2015

    Maravilhoso esse texto…me senti acolhida. Parabéns 🙂

  3. Evandro da Silva e Silva
    26 de maio de 2015

    Texto muito bom e tema de ótima reflexão! Parabéns pelo trabalho 🙂

  4. Sarah Matta Machado
    27 de maio de 2015

    Perfeito Renata. Já me peguei pensando nisso, sobretudo na diferença entre meus filhos, uma menina de 9 e um menino de 3. Só o sexo e a ordem de nascimento já os fazem diferentes. Dei peito o quanto quiseram, cama compartilhada, sling, criação com apego. E tenho um menino que definitivamente não se encaixa no conceito de bonzinho. Mas é adorável, carinhoso, arteiro e alegre como toda criança normal!

  5. Adaiane
    27 de maio de 2015

    Minha sogra diz q meu filho mais velho e bonzinho nunca entendi pq mais isso sempre me incomodou lendo seu texto eu entendi o pq meu filho e bonzinho mauzinho sapeca e anjinho ele tem seu momento de tudo de ser tudo pq taxa-lo?

  6. Fatima Canzian Lemmi
    28 de maio de 2015

    Muito bom seu texto. Como tive a oportunidade de ter uma pediatra (que considero minha tutora educacional!), logo cedo pude ouvir e entender : que conhecer as diferenças dos filhos e respeitá-los nessas birras, manhas, resmungos e afetos, faz deles um ser individual. Como respeitamos essas diferenças, felizmente tenho três jovens adultos muito bem amados e resolvidos.

  7. Carolina
    28 de maio de 2015

    Otimo! Que bom ler isso, a gente se sente menos sozinha. 🙂 Mas é duro viver no mundo do “tem que” (tem que ser, tem que fazer…). Meus filhos também nunca foram e nao sao nada “bonzinhos”, e sempre tiveram muito colo, muito peito, eles sao o que eles sao. Concordo 100% contigo, deixemos nossos filhos/as serem o que sao, ponto final.

  8. Gabriel
    28 de maio de 2015

    Eu quero dormir, foda-se o resto…

  9. sylchiodarellilopes
    29 de maio de 2015

    Concordo totalmente… meu filho é e vai ser o que ele quiser, não o que esperam dele!!!!

  10. lelepax
    10 de junho de 2015

    Nossa realmente encantada com seus textos com embasamentos reais eu também tenho dois filhos, ambos opostos em comportamentos, não devemos rotular as crianças..<3

  11. carlaangerino
    10 de junho de 2015

    Adorei o seu texto ,identifico me muito….

  12. Claudia
    26 de junho de 2015

    Penso que a questão principal desse tema tão polêmico e tão sem receita,seja a questão do rótulo.Quando rotulamos não damos a oportunidade para que a criança possa visitar todas as formas de ação e “escolher’ qual a que a deixa mais satisfeita e feliz,que modo a deixa mais confortável e a que cumpra e cubra os buracos que todos temos.Penso também que cabe a nós como educadores ,mostrar que nossos desejos e vontades são importantes,porém ,o outro existe e merece respeito.Talvez essa seja a palavra chave RESPEITO .Cada um encontrará seus pares ….seus iguais e seus diferentes…

  13. Georgia
    5 de agosto de 2015

    Olá! Muito bom seu texto.
    Sou mãe de duas meninas, Elis de 11 anos, e Lorena de 6. Tenho 33 anos, e algumas inseguranças. Já que minhas filhas são completamente diferentes. A Elis se encaixa até hj na definição de de “bebê bonzinho ” já Lorena… passa longe. E ando me cobrando muito em relação, ao que passei, para uma e para outra. Achando que esse temperamento um pouco mais forte, se deve á alguma falta minha. Então seu texto me apareceu em boa hora. As dores e os amores da maternidade.
    Parabéns pelo texto!

  14. Shirlei Cerqueira
    8 de dezembro de 2015

    Ótimo texto, concordo, e não entendia ainda pq, mas sempre pensei em não ter filhos bonzinhos, sempre falava com minha mãe que não queria filhos quietos, queria filhos curiosos, espertos com vontade conhecer tudo. E graças a Deus fui atendida.

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