uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Por uma escola menos ordinária *

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Estamos em 2015. Uma década e meia de distância do início do século XXI, a tecnologia transforma nossas vidas todos os dias e experimentamos realidades cotidianas que seriam impensáveis, vinte anos atrás. A vida muda cada vez mais rápido, tudo se torna obsoleto e ultrapassado antes que possamos inteirar-nos completamente do que se tratava, e no meio deste furacão de constantes transformações uma seguida da outra, a educação caminha a passos de tartaruga. Ainda mandamos nossas crianças para a escola da mesma maneira (e com as mesmas expectativas) que fazíamos há cinquenta, oitenta anos atrás. Pouquíssima coisa mudou. Sobretudo, nosso (e quando digo nosso, quero dizer ‘nosso’, enquanto sociedade) olhar sobre o processo de aprendizado e sobre o papel do educando neste processo continua igual àquele que tinham nossos avós.

 

De algum modo, para a educação infantil parece ser mais fácil buscar alternativas lúdicas, baseadas no brincar, na liberdade da experimentação e no aprendizado como um processo de divertimento e alegria. Vejo muitas mães e pais buscando espaços que valorizem estes conceitos, quando seus filhos são ainda pequenos. Mas por alguma razão que me escapa, esse olhar muda radicalmente quando a criança cresce, e adentra este território sisudo que chamamos “ensino fundamental”. De uma hora para a outra, a coisa fica ‘séria’ – no pior sentido possível, como algo taciturno, engessado e desprovido de alegria. Os mesmos pais e mães que, até um ano atrás, valorizavam que seus filhos tivessem tempo para experimentar o mundo em seu ritmo, sem pressões desnecessárias e precoces, vêem-se às voltas com a necessidade de disciplina, rigidez de conteúdo, hierarquia, o olho no vestibular lá adiante, quase anos-luz distante do momento presente.

 

Certa vez, não muito tempo atrás (menos de cinco anos, na verdade), ouvi de uma professora (de escola dita ‘alternativa’, formada em uma pedagogia tida como inovadora e diferenciada, percebam) que o ensino fundamental é a hora da criança “aprender a ficar sentadinha, quieta, ouvindo o professor falar e absorvendo o conteúdo”. Opa. Para tudo, que tem muita coisa errada aí. Uma criança nunca deveria ficar “sentadinha quieta ouvindo o professor falar”, porque isso não é aprendizado. Passividade não rima com conhecimento, com autonomia, com descoberta, com crescimento – não rima com coisa alguma. Ao invés de ter a bunda afundada em uma cadeira enquanto a vida acontece do lado de fora das paredes da sala de aula, a criança deveria estar participando ativamente da construção de seu aprendizado, deveria estar sendo parte ativa deste processo, atuando nele com todos os seus sentidos e com cada parte de seu corpo. Aprendizado é protagonismo, é movimento ativo. Aprender não é algo que se faz passivamente – é algo que se constrói pelas próprias mãos.

 

É urgente que reinventemos nossa forma de pensar a escola, o processo de aprendizado, a aquisição do conhecimento. Aprendizado e vida não são compartimentos estanques, sem comunicação – eles acontecem simultaneamente. Não há que se parar a vida, e tudo o que pulsa em nós – nossos desejos, curiosidades, encantamentos, angústias – quando cruzamos a porta da escola. Ao contrário: é esta bagagem que nos move, ou deveria mover-nos, enquanto aprendizes. Enquanto não formos capazes de derrubar este conceito atrasado do aluno como elemento passivo, como mero receptáculo de um conhecimento morto, engessado e pré-determinado, não formaremos sujeitos autônomos, mas meros repetidores. Papagaios amestrados, nada mais.

 

O aprendizado não é imposto, não é forçado nem pode ser conduzido pelo lado de fora do indivíduo: ele nasce. E nasce de dentro para fora. Nasce da alma do sujeito aprendiz, que pede por aquele conhecimento como algo vital, como alimento para o ser. Nasce, como diria Rubem Alves, “das perguntas que o corpo faz”. Aprender é criar. O aprendizado pode – eu diria que deve – ser uma experiência de celebração e alegria, e não de resistência ao tédio e ao sofrimento. O aprendizado verdadeiro é um processo vivo, muito distante do que se dá com a imensa maioria dos alunos pelo mundo afora, sentados enfadonhamente em carteiras enfileiradas, copiando mecanicamente conteúdos pelos quais não se interessam, ‘estudando’ tediosamente para alcançar notas em testes que não dirão nada a respeito do que realmente sabem. Menos ainda dirão a respeito de quem são, de quais seus interesses, suas paixões, seus olhares sobre o mundo, sobre a realidade que os cerca, sobre si e sobre o outro. Nada poderia ser mais distante da vida. A escola, do jeito que a conhecemos, em seus moldes tradicionais, está morta. Nada vivo pode sair dali.

 

E sim, nós sobrevivemos. A escola tradicional mata muitas coisas – prazeres, entusiasmos, curiosidades, apaixonamentos, aptidões, sonhos – mas não mata indivíduos. Eu sobrevivi à escola tradicional. Vivi doze anos da minha vida, entre infância e adolescência, entrando e saindo de salas de aula mais ou menos enfadonhas, aprendi uma ou outra coisa que despertou de fato meus interesses e curiosidades – o resto, decorei para a prova e joguei fora depois. Sobretudo, perdi um tempo precioso de encantamento, de criatividade, de autonomia. Saí da escola, busquei formações outras que me faziam sentido, formei-me na profissão (profissões, na verdade – um plural tão multifacetado quanto o são meus interesses diante das coisas do mundo) que escolhi. Sou, por assim dizer, um ‘case’ de sucesso. Só que não. Quando olho para trás e relembro meus tempos de escola, raramente me vem um brilho nos olhos, ou memórias de encantamento, de alegria genuína. Tudo ali era mecânico, artificial e imposto. Tudo externo a mim. Nunca carreguei meus deslumbramentos e indagações pessoais dentro da mochila – eles ficavam do lado de fora, ali onde a vida de fato acontecia.

 

Quando noto quão diferente é e tem sido o processo de aprendizado que minhas filhas vivenciam em uma escola democrática, um ‘fragmento de futuro em que a alegria é servida como sacramento’ (Rubem Alves, de novo), uma alegria desmedida me invade o coração. Vem-me um sorriso maroto e satisfeito ao rosto, e penso que temos feito as escolhas certas, ainda que o mundo todo dê o contra – porque poucos paradigmas revelam-se tão difíceis de serem quebrados quanto aqueles que envolvem os olhares e pensares do senso comum sobre a educação. Penso que, mais importante do que preocupar-me hoje pelo desempenho delas em um vestibular que nem ao menos sei se quererão prestar, ou mesmo se existirá até lá, é perceber todos os dias, em nossas conversas e trocas cotidianas, que elas não recebem o conhecimento sobre as coisas do mundo de uma forma mecânica, empacotada, formatada. Elas o moldam, com as próprias mãos. São pequenas artesãs de seus saberes: moldam ideias, conceitos, possibilidades. E o fazem com paixão, verdade e alegria.

 

Todos os dias, ao encontrá-las no portão da escola ao cair da tarde, vejo refletido em seus pequenos olhinhos curiosos e sedentos um brilho que, na escola, eu nunca tive.

 

E reafirmo que só há isso de importante, e eu não preciso ver nada mais.

 

* adaptado do título do filme de Danny Boyle

 

 

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13 comentários em “Por uma escola menos ordinária *

  1. liavasco
    1 de junho de 2015

    Renata, eu gostaria de te dizer que compartilho da sua preocupação. Há alguns meses, na verdade, desde que minha filha mais velha foi para o 1º ano, essa questão da educação anda me rondando e me angustiando. Gosto muito da escola das minhas filhas. Mas não sei se é a escola ideal que tenho na minha cabeça. Não sei se conseguiremos ver essa mudança em nossa geração. Nem sei se um dia ela acontecerá. Me refiro à mudança de todo um sistema educacional que alcance todas as crianças e não só algumas poucas privilegiadas que podem pagar por isso ou que tenham sorte de estar em uma escola “experimental”. Enfim, ando tendo conversas na escola das minhas filhas, sem saber no que resultarão. Nem se resultarão em alguma coisa. Mas pelo menos coloco para fora minha preocupação e no processo encontro pessoas que também andam angustiadas e atentas a essas questões. Bom saber que não caminho sozinha! Ótimo texto!

  2. lidicematos
    1 de junho de 2015

    Ótimo texto! Parabéns por ele e por sua coragem e postura de vida. Tenho uma neta e fiquei com muita vontade de saber quais são essas escolas libertárias hoje. Você poderia me dizer qual é a escola das suas filhas?

  3. Ana
    2 de junho de 2015

    Olá Renata, muito obrigada pelo texto. Também gostaria de saber qual a escola das suas filhas. Um abraço!

  4. Elizangela Antunes
    2 de junho de 2015

    Amei seu texto.Compartilho das suas angústias. Sou mãe e professora.Como educadora tenho me esforçado para tornar minhas aulas lúdicas, prazerosas e dinâmicas. Como mãe sofro muito com esse engessamento do qual você se refere.Mas acredito em mudanças. Vejo um luz no fim do túnel.

  5. Luan Guedes
    2 de junho de 2015

    Concordo!

  6. Fabio A. R. Valle
    3 de junho de 2015

    Belo texto!
    Todos deveriam ler… e assimilar.

  7. Jana
    3 de junho de 2015

    Penso como você e é uma luta…poderia dizer em qual escola sua filha estuda, ou que tipo de pedagogia a escola segue?

  8. Claudia
    4 de junho de 2015

    Nossa! Obrigada por compartilhar essd texto. Isso me dá forças para seguir adiante no que eu acredito!

  9. Ana Paula Farago (@PaulaFarago)
    4 de junho de 2015

    Adorei ler o que eu poderia ter escrito. Como mãe, me angustio diariamente ao enviar meu filho para essa escola. Como educadora e formadora de professores, tento provocar, chacoalhar um pouco a fixidez, buscar a fluidez contemporânea – um trabalho com resultados lentos, mas recompensador.

  10. lúcia
    6 de junho de 2015

    Ótimo texto! Fico satisfeita pelas reações por uma educação mais autônoma, menos coronelista. O que vejo é a competição entre os primeiros lugares em aprovação sem sequer saberem o que desejam. Concordo com uma educação mais exploratória, sem decoreba. Uma pena que poucos possam usufruir dessa proposta mais realista.

  11. Gabriela
    28 de julho de 2015

    Há muito acompanho seus textos, e não resisti hoje a comentar…. Você quando escreve toca a alma do leitor… Obrigada por manter esse blog, por compartilhar suas angústias e alegrias.

  12. Andressa
    17 de dezembro de 2015

    Como todos, gostaria de saber qual é a escola, e qual a metodologia. Parabéns por todos os seus textos, gosto muito! Que bom que vc seguiu uma carreira formada por vc, por seus gostos, faz o que gosta e por isso faz o melhor!!

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