uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Pra que rimar amor e dor? *

leoncioP-100

Se você é mãe, se tem um filhote de qualquer idade, certamente já ouviu frases como “ninguém morre se chorar um pouquinho”, “ele(a) vai chorar no começo, depois acostuma”, “chorar é bom, faz bem pro pulmão!”, “deixa que daqui a pouco pára, é assim que se aprende!”, ou “esse choro é pura manha, deixa chorar à vontade que logo passa”. Eu já ouvi todas essas, e ainda outras mais.

A situação varia. Vale para os choros desconsolados dos bebês pititicos, em que absolutamente nada consola a não ser passar o dia inteirinho penduradão no peito da mamãe, vale para os pequeninos que estranham e são difíceis de acostumar com gente nova, vale para a adaptação e os primeiros dias da criança na escolinha, vale para as frustrações diárias nas mais variadas situações… nossa, vale pra quase tudo!

Eu penso diferente, muito diferente. Acho que os aprendizados da vida podem vir pelo amor, não pela dor. Sempre que pode ser assim, eu prefiro escolher esse caminho.

Sei que dores fazem parte da vida. Frustrações, tropeços, desencantos, decepções. Tudo isso é aprendizado, é crescimento, faz parte da maravilha de existir e estar no mundo, relacionando-se com o outro, consigo e com todas as coisas que nos cercam. Minhas filhas, ao longo da vida, viverão inúmeras situações doloridas, chatas, desagradáveis, tristes, e muitas vezes não poderei fazer nada para evitar, ou mesmo amenizar os sentimentos ruins. Exatamente por isso, não acho que precise causar sofrimento quando este é desnecessário, e pode ser evitado com um tantinho de atenção e sensibilidade.

Se eu puder evitar uma dor apenas estando presente, respeitando o tempo delas, por que não? Não me parece razoável deixar chorando um bebê que pede consolo e a quem se pode pegar no colo e acalentar, oferecendo segurança e acalanto. Não me parece compreensível obrigar uma criança pequena a passar por uma situação com a qual ela demonstra desconforto e insegurança, e que pode ser evitada. Não me parece aceitável forçar uma criança a encarar etapas da vida para as quais ela não demonstra estar preparada.

É claro, muitas vezes, a vida simplesmente acontece, e não se pode fazer nada a respeito. Às vezes é preciso atropelar etapas, simplesmente porque as circunstâncias da vida não nos permitem fazer as coisas com calma. Se assim tiver de ser, que se faça da melhor maneira possível, com todo amor do mundo e acreditando que no final dará tudo certo. Mas atropelar etapas, forçar a criança a seguir em frente sem sentir-se segura pra isso, deixá-la sozinha com as próprias dificuldades, como método educacional? Não, simplesmente não entendo.

Eu acredito muito, e tenho vivido isso na minha experiência como mãe, que ensinamos muito melhor quando escolhemos o caminho do amor, do respeito, da empatia, da compreensão. As coisas não precisam ser feitas com choro, ‘na marra’, na base do sofrimento. É possível tocar em frente com respeito ao tempo da criança, fazendo transições com suavidade, compreensão.

Penso muito em como estamos constantemente ’empurrando’ nossas crianças degraus acima, sem esperar que elas estejam preparadas para subi-los. Deixamos que nossa ansiedade, nossos preconceitos (no sentido de pré-conceitos, conceitos formados antecipadamente), nossas expectativas e projeções nos guiem, quando melhores guias seriam o instinto, a sensibidade e a observação cuidadosa de nossos filhotes, cada um vivendo sua caminhada a seu modo, incomparável.

Crianças, no fundo, são seres simples. Eles não pedem demasidado, não precisam de muito, felicidade para eles é coisa ao alcance da mão, natural, elementar. Com um bocado de carinho, disponibilidade, sensibilidade, respeito e compreensão de quem lhes cuida, eles florescem lindamente. Cada um a seu tempo, cada um de seu jeito. Aprendendo, na maior parte do tempo e sempre que possível, pelo amor, e não pela dor.

E sim, claro, as lágrimas fazem parte da vida, e virão quando tiver que ser. Mas no resto do tempo, é muito melhor curtir lindos sorrisos estampando os rostos de nossos filhos, não é mesmo?

Eu acho.

* trecho da letra “Mora na filosofia”
(post originalmente publicado no blog Mamíferas)
Anúncios

Um comentário em “Pra que rimar amor e dor? *

  1. maeeser
    8 de junho de 2015

    Eu também acho! E quando as lágrimas teimarem em chegar quero que os meus filhos saibam (com toda certeza e absolutamente) que o colo está sempre a disposição ❤ ❤ Ana Passos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: