uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Vivendo e aprendendo a jogar

‘carpe diem’, dizia a frase mais tatuada dos anos 90.
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‘carpe diem’, eu me repito todos os dias, quando diante das minhas meninas, que crescem a olhos vistos, mudam aos pouquinhos (inhos?) e se tornam novas pessoinhas que (re)conheço apaixonadamente.
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creio que tenha sido este, talvez, meu maior aprendizado como mãe: aproveitar o tempo. desfrutar, degustar. cada segundinho conta, pois não há de voltar. e cada pequena coisa que as crianças descobrem, aprendem, inventam, passa num pé de vento para não voltar. no minuto seguinte, já estão de olho em uma coisa nova. um novo passo. um novo aprendizado. uma nova possibilidade. o dia de hoje, tornando-se passado sem cerimônia.
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quando minhas filhas mais velhas, recentemente, completaram dez anos de vida, senti-me atropelada por um caminhão. uma década todinha de vida. dez anos, empilhados um por cima do outro. anos em que estivemos juntas, de mãos dadas, na tentativa diária de olhar para o lado, estar com o outro, exercitar o respeito, ensinar e aprender.
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impossível não me perguntar: eu poderia ter feito diferente? aqui, ou ali? isso, ou aquilo? talvez. sempre há um detalhe, ou algo realmente grande, que gostaríamos de ter manejado de outro modo. quando se olha para trás, quando se adquire perspectiva sobre o que a vida nos ofereceu a viver, é sempre mais simples traçar possibilidades, caminhos, alternativas. estamos distanciados do fato na linha do tempo. estamos calmos, serenos, objetivos. fica mais fácil ser racional, objetivo, certeiro. fazer certo, redondinho, no terreno da possibilidade.
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mas não é disso que a vida se faz. o bonito de tudo é o aqui, e agora. e aquilo que escolhemos viver, a cada segundo, sem parar para elaborar além da conta, apenas entregando aquilo que temos e querendo fazer o melhor.
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eis um outro aprendizado materno, tão singular, tão importante: recusar os arrependimentos. errar, erramos todos. desviar, tomar atalhos que não o caminho idealizado, é algo que nos acontece amiúde, na turbulência dos dias que não diminuem seu ritmo para esperar que tomemos a melhor decisão.
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uma coisa que procuro pensar: se errei, foi procurando acertar. nunca errei, ou tropecei, ou fiz algo que adiante não se revelasse o melhor diante das circunstâncias, de maneira proposital, ou por não me importar o suficiente. ao contrário: se errei, errei de coração aberto, procurando dar o que tinha (e às vezes, desastradamente, até o que não tinha).
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ser mãe livrou-me (e tem me livrado, um pouco a cada passo) dos delírios de perfeição. desisti de ser ideal de qualquer coisa. não quero ser modelo de nada, não quero ditar palavras de ordem. interessa-me viver uma história de verdade, que seja minha, nos acertos tanto quanto nos erros. que tenha em seus contornos as minhas cores, os meus rabiscos, os meus borrões, aqueles que dei conta de fazer com minhas mãos trêmulas de aprendiz – que serei, até o último suspiro. e aprendi a olhar nos olhos e pedir desculpas, muito sinceramente. como quem se rasga de humanidade, aceitando as próprias limitações com o mesmo exagero de amor com que acolhe as valentias todas, as bonitezas e aquilo que é poesia.
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não tem que ser perfeito. não é disso que se trata. só tem que valer a pena.
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o que a gente faz da melhor maneira, e o que a gente faz metendo os pés pelas mãos, de maneira estabanada, feito um elefante numa loja de cristais: no final, só tem mesmo que valer a pena.
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é pouco. e é muito também.
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* título: da letra de  Francis Hime
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2 comentários em “Vivendo e aprendendo a jogar

  1. Daniela
    22 de julho de 2015

    Lindo texto! Parabéns!

  2. Francisca Elizabeth Alexandre
    8 de agosto de 2015

    Emocionante!

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