uma vez mamífera

… sempre mamífera.

A maternidade, a teoria e o instinto

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Durante a minha primeira gravidez, à espera das minhas filhas mais velhas, eu descobri um admirável mundo novo: apesar de ter sempre e mesmo antes de engravidar, intuitivamente, desejado oferecer a elas um nascimento natural, até pela experiência que eu havia tido como filha e que minha mãe tinha compartilhado comigo de maneira apaixonada, eu nem imaginava o quanto de teoria havia para ser aprendida a respeito, o quanto era possível ler e estudar sobre o tema. Era muita coisa.

Eu li, e estudei bastante. Participava de vários grupos de discussão onde conseguia as melhores indicações, e tudo o que era livro, matéria, artigo ou o que fosse que me caísse nas mãos sobre preparação para o parto e nascimento, eu lia ávida e atentamente. Devorei páginas e mais páginas, enquanto a barriga crescia. E tudo que li e aprendi nessa época me serviu um bocado, tudo fez parte de uma caminhada muito bonita de transformação, amadurecimento e empoderamento que vivi ao longo dos nove meses gestando minhas pimentinhas cá do meu lado de dentro.

Mas… e o depois? Pois é, tem um depois! Depois o bebê nasce, chega aqui do lado de fora, e tem mais uma porção de coisa pra gente aprender, descobrir, investigar e querer saber. E tem muita teoria sobre isso também: a vida do bebê, os cuidados, as escolhas, a criação dos filhos, as atitudes, a educação. Todo um novo universo. O curioso é que na mesma medida do encantamento que me assaltou pelos livros sobre gestação e parto, me veio depois que minhas meninas nasceram uma veemente recusa de toda e qualquer teoria que dissesse respeito ao que fazer da vida com o bebê nos braços.

Eu não li nada, nadinha. Tá, eu poderia justificar pela falta de tempo – afinal, ter duas bebês mamonas para alimentar, embalar, acalentar, trocar, banhar e tudo mais não é coisa que se faça com um pé nas costas e em algumas poucas horinhas do dia –, mas a verdade é que foi mesmo falta de vontade. Eu não queria saber. Não queria teorizar. Não queria aprender. Ou melhor, queria aprender, sim. Mas eu queria aprender da maneira mais primitiva, mais rudimentar: eu queria descobrir o barato de maternar, maternando. Eu queria aprender a ser mãe, sendo.

Vai daí que nem os grandes ícones da literatura do pós-parto e da criação dos filhos eu li: Pantley, González, Gutman, Karp –eles e todos os outros passaram batido pelas minhas mãos. Tenho quase todos nas prateleiras aqui de casa, porque a cada passada na frente de uma livraria eu me convencia que, quem sabe, um dia eu quereria ler. Mas o tempo passou, e a magia simplesmente não aconteceu. E não porque eu não concorde – ao longo dos anos, fui me inteirando aqui e ali das ideias de cada um deles e muitas delas sempre estiveram comigo, me aconselhando silenciosamente e ajudando a fazer escolhas, mas sempre de maneira intuitiva, sem muita racionalização.

E assim foi que outra mágica, também muito bonita, aconteceu por aqui, e com bastante força: eu experimentei tudo, senti o gosto de tudo, com uma intensidade que nenhuma teoria poderia ter me oferecido, talvez por uma questão de personalidade. Com as minhas filhas do meu lado de fora, eu abri o coração, abri os braços, e mergulhei. Fui tateando no escuro, sem traçar estratégias, tendo apenas uma ideia muito firme do tipo de maternagem que eu desejava praticar: natural, respeitosa, afetiva, tranquila. E fui aprendendo com as tentativas, e com os erros também. Errei um bocado, certamente. E talvez tivesse errado menos, se tivesse a teoria por trás, a me dar suporte. Uma caminhada respaldada pela teoria teria sido talvez menos sinuosa, mais retilínea, mais organizada, mais correta. Nosso caminho, ao contrário, foi – e é – cheio de curvas. Tem erros. Tem realinhamentos de rota. Tem desvios. Mas eu não acho que errar, desviar, repensar, por aqui, tenha sido ruim – tudo fez parte da nossa história, uma história sem interferências, sem ruídos, feita só do que era meu e delas. Os erros, tanto quanto os acertos, foram profundamente sentidos, profundamente nossos. E isso os fez bonitos, os fez importantes, os fez especiais.

Minha maternidade, desde o primeiro dia, se fez por insinto. Puro coração, puro sentimento. Racionalidade zero, mesmo. Não sei se foi certo ou errado – e isso lá existe? –, mas sei que na minha história, não poderia ter sido diferente. Porque essa sou eu, a que mergulha sem rede de proteção. Eu não sou o tipo de pessoa que estuda as coisas minunciosamente a fim de antecipar as surpresas, que planeja a forma de agir visando melhorar os resultados, que quer saber do que se trata a experiência antes de vivenciá-la, para começar preparado, de um lugar seguro. Não tenho nada contra esse tipo de pessoa, mas eu não sou uma delas. Eu fecho os olhos, e mergulho no escuro. Sou assim na vida. Como poderia ser diferente na maternidade?

E muito bacana foi ir descobrindo aos poucos, paralelamente, que tantas das coisas que eu havia experimentado instintivamente na minha maternidade, encontravam eco por aí. Reverberavam ao meu redor, fosse nas teorias dos livros que eu não havia lido, fosse nas experiências vividas por outras mães, com as quais eu sempre achei incrível trocar ideias, vivências, palavras e sentimentos.

O meu jeito de maternar, hoje eu penso, não tem fórmula. Tem uma série de coisas que se afinam comigo e eu busco praticar, mas eu não tenho check-list, não obedeço cartilha. Eu vou. Eu faço. Todos os dias, eu acordo e vou fazendo. Fico ligada nelas, elas em mim. Procuro abrir o coração – e há dias em que consigo mais, há dias em que consigo menos, mas nunca me desconecto inteiramente dessa coisinha bonita que me habita por dentro e se chama intuição. E assim é que a gente continua, eu e elas. E o pai parceiro, que também é parte – importantíssima – dessa caminhada familiar. E a gente ri junto, a gente chora. A gente tem dúvida, sai dos trilhos, cai de cara no chão, levanta de nariz ralado, sacode a poeira e dá a volta por cima. Juntos, de mãos dadas e instinto sempre ligado, atento, a gente faz junto o nosso caminho que não é igual a nenhum outro.

De tudo isso, fica pra mim uma certeza: teoria é bom, mas a vida é muito melhor.

Do lado de fora das teorias, há a vida. Ali, onde coisas bonitas acontecem.

 

(texto originalmente publicado no blog Mamíferas, em agosto de 2013)
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