uma vez mamífera

… sempre mamífera.

A vida é susto

vacaciones15_P-413

Há quem não saiba viver sem ter o controle de tudo. Há quem goste de pensar e repensar cada decisão e cada passo milhares de vezes, programar bem programadinho, até achar que vai estar tudo ‘nos conformes’, que nada vai sair fora do planejado.

É bem verdade que saber e controlar as coisas da vida dá uma sensação boa de segurança, de sossego. Uma previsibilidade das coisas que faz a gente se sentir mais protegido, menos exposto, menos vulnerável.

Acontece que, quando a gente pára pra pensar nas coisas da vida e em como ela caminha, percebe que esse planejamento todo, no fundo é faz de conta. Porque a vida é assim mesmo: imprevisível, não pede licença para acontecer. E dá pra controlar um tanto – ou ao menos tentar – , dá pra planejar um tantinho aqui e um tantinho mais ali, mas ter controle de tudo, tudinho mesmo, é coisa que ninguém consegue, por mais precavido e previdente que seja.

Quando se tem filhos, então, aí é que a gente descobre que não controla mais coisa nenhuma! Porque os filhotes vêm mesmo pra bagunçar, tirar do lugar todas as nossas certezas, fazer graça dos nossos planos e botar tudo de cabeça pra baixo. Obrigam a gente a dar conta de uma vida nova, enquanto dá conta de uma nova vida.

E o bacana disso tudo é que se aprende a ter flexibilidade e presença, se aprende a ter ginga, jogo de cintura, ir dançando conforme a música. A gente aprende a viver um dia de cada vez, sempre de braços abertos, acolhendo as transformações e as novidades, sem esperar que as coisas sejam sempre do jeito que já foram um dia.

Quando se tem filhos, não há tédio: cada dia acontece de um jeito, cada nova etapa pode ser uma linda descoberta, poética e assustadoramente desconhecida. A vida vira um pacotinho de surpresas. E se a gente aprende a ver a beleza disso, é bom demais.

E é assim já desde o início, quando o filhote ainda é só uma sementinha do lado de dentro daquela barriga que começa a arredondar. Desde então, cabe a você entregar-se à experiência, e curtir cada pequena-grande surpresa. Você não vai decidir o sexo do bebê, nem a cor dos olhos, nem se vai ter o nariz do pai ou os lindos olhos verdes do avô materno. Você não vai decidir o dia em que ele vai nascer – bem, pelo menos, não deveria! – , não vai poder escolher se ele será um taurino teimoso ou um geminiano boa praça. E quando ele chega do lado de cá, mais surpresas: você não decide se ele vai mamar cinco ou cinquenta vezes em um único dia, se vai tirar uma sonequinha de quinze minutos ou um belo descanso de duas horas. E quanto mais ele cresce, menos você controla: não pode decidir se ele vai jogar futebol ou passar horas enfiado nos livros, se vai querer estudar inglês ou violino, se vai ser cantor de ópera ou pintor de paredes.

Filho, na vida da gente, é assim: a gente acolhe, respeita, orienta. Mas não direciona. Cada filho que chega traz de presente um infinito de pequenas-grandes coisinhas desconhecidas, surpreendentes. Desde os menores detalhes da rotina de todos os dias, tão organizada antes da chegada deles, e tão deliciosamente caótica depois. Até as grandes decisões que vão caber a eles, os caminhos a serem escolhidos, a linda história que eles vão escrever pelas próprias mãos.

Dia após dia, eles nos obrigam a despir das expectativas, das projeções, dos planejamentos, para estar somente ali, no presente, olho no olho. Isso pode ser uma maravilha, ou uma tortura sem fim. Quem decide somos nós.

Um belo dia, você vai olhar para ele e se dar conta de que ele não tem nada, nadinha a ver com aquele filho imaginário que você tinha na cabeça, há tanto tempo atrás. E que ele é mais bacana, mais inteiro, mais interessante e apaixonante do que você jamais teria imaginado, mesmo nos seus sonhos mais ousados.

Eu, que gosto das surpresas que a vida traz, e não sou mesmo adepta das redes de segurança, acho um grande barato essa oportunidade que os filhos trazem pra gente: desvendar a vida, todos os dias. Descobrir o outro, e descobrir-se também, cada dia de um jeito, sempre acolhendo as transformações, que dão beleza à vida. Aprender que a vida é assim, feita de susto e maravilha.

E todos os dias, ser surpreendida pelos pequenos-grandes mistérios dessas criaturinhas tão incríveis e surpreendentes,  que saíram de dentro de nós, mas são tão livres, e tão cheias de seus próprios infinitos.

 

Anúncios

Um comentário em “A vida é susto

  1. heloisa
    26 de agosto de 2015

    Texto incrivel. Q me descreveu e me ajudou na terapia. Obrigada

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: