uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Porque macacos não voam

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Uma vez, ainda criança, ouvi contar a história da escola dos bichos. Já não me lembro exatamente em que circunstâncias, nem em que idade, nem ao menos tenho certeza de quem me contou – embora provavelmente tenha sido meu avô, que detinha desde sempre o título de maior contador de histórias da família.

Lembro-me muito bem, contudo, da minha sensação de identificação: com o macaco, obrigado a aprender a voar; com o coelho, obrigado a subir em árvores; com a águia, forçada a aprender a rastejar, e com todos eles, perdendo ao final suas características singulares e maiores talentos, por terem sido forçados a dedicar-se a coisas para as quais não tinham a menor aptidão, e pelas quais não se interessavam absolutamente.

Vivemos na época da vangloriação. É preciso ser bom, melhor, maior, mais.  Sempre. Na competição diária das redes sociais para ver quem tem a melhor vida de todas, a mais realizada, feliz e invejável, precisamos ser bons em tudo. Precisamos ser ótimos em trabalhos manuais, realizar lindas bricolagens, costuras, bordados, pinturas e ser verdadeiros mestres do D.I.Y.. Precisamos ser fantásticos na cozinha, colocar na mesa os melhores pratos, os mais saudáveis e equilibrados e também os mais apetitosos – não necessariamente para o estômago, mas para a vista (o que tem sido muito mais importante). Temos que ser os mais cultos, conhecer todos os livros, todos os autores, ter visto todos os filmes, conhecer as novas figuras do mundo da música, ainda que elas tenham acabado de aparecer no cenário musical. Temos que ser os mais saudáveis, campeões em tudo, fera em todos os esportes conhecidos, e até naqueles que acabaram de inventar por aí. Todos temos que ser viajados, ter um mapa mundi na parede com mil alfinetes coloridos, falar diversas línguas e ter casos interessantes pra contar que comecem com “quando eu estive em…”. Todos temos que ter o melhor trabalho do mundo – ainda que não façamos a menor ideia do que isso significaria, diante daquilo que gostamos de fazer -, o que pague melhor e o que traga mais prestígio e reconhecimento.

Ufa. Que cansaço.

Levei um tempo precioso da minha vida para perceber que não – nós não precisamos ser bons em tudo. Ninguém é. Eu sou péssima, em muitas coisas. Não tenho o menor talento para trabalhos manuais, por exemplo. Choro, só de ouvir a expressão “do it yourself”. Não vou dizer que não sei pregar um botão, porque sei – mas ele não poderá ser olhado de perto. Adoro cozinhar, mas a apresentação final dos pratos – especialmente dos doces – nunca é lá essas coisas (embora eles fiquem deliciosos). Cupcakes decoradíssimos do pinterest? Me incluam fora dessa, por favor.

Por outro lado, sou muito, mas muito boa, em muitas coisas (outro dia, minha filha me disse que eu era muito boa em ser sua mãe, por exemplo, mas não vou me vangloriar disso, cof cof). Sei muito sobre cinema, sobre literatura. Escrevo bem. Tenho um olhar poético, quando fotografo. Sei fazer a melhor pipoca do mundo (desafio quem quiser conferir), o melhor bolo de chocolate (same here) e sou ótima para contar piadas (embora precise primeiro vencer minha timidez).

Não viajei o mundo todo – nem pretendo; mas adoro fugir para os mesmos lugares e revisitar minhas histórias passadas, misturá-las aos meus momentos presentes e reinventar a vida. E dar uma fugidinha prum lugar totalmente novo, sempre que a vida permite e a vontade bate na porta.

Sou péssima para estabelecer primeiros contatos, ‘fazer social’. Mas quando me torno amiga, sou muito boa em estar presente, sei ouvir e acolher. Danço pessimamente (embora adore tocar o foda-se e dançar como se ninguém estivesse olhando), mas sou bem afinadinha e canto com delicadeza. Sou um fracasso nos esportes (embora venha arriscando minhas pedaladas há alguns meses sem desanimar), mas tenho uma facilidade incrível para aprender novas línguas e uma memória invejável (ainda sei repetir textos de personagens que fiz no teatro há pelo menos dez anos).

Então o lance talvez seja esse: tirar o foco de tudo aquilo que a gente não sabe (a lista, se você for procurar, será sempre infinita e desanimadora), e ajustar o foco para a poesia do mundão de coisas que a gente sabe, curte, conhece e arrasa fazendo. Todo mundo é bom em uma porção de coisas – muitas vezes, a gente só não se dá conta porque está gastando energia querendo dar conta daquilo que não tem a menor importância, porque não faz parte daquilo que a gente é.

Taí uma atitude que eu procuro ensinar para as minhas meninas, e enquanto isso, vou aprendendo também: não, você não precisa ser bom em tudo – e sabe, isso é libertador.

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3 comentários em “Porque macacos não voam

  1. Bruna
    4 de setembro de 2015

    Sim, isso é libertador ♡

  2. Bolhinhas de Sabão para Maria
    7 de outubro de 2015

    Oi Renata! Como vai?
    Que texto bom!!! De fato na escrita você tira de letra rs…
    Eu também sou afinadinha e canto suave… e eu amo cantar!

    E é verdade.. muitas vezes nos vemos fazendo coisas que não são da gente.. até mesmo agradando alguém e nos desagradando.. Ô quantas vezes fiz isso…
    Esquecemos que existimos, que gostamos de tal coisa, que não sabemos fazer outra e nem queremos saber… (meus remendos de roupa também não podem ser olhados de perto)…

    Como você também passo isso pra minha menina: não precisamos ser bons em tudo e temos nossas peculiaridades pra la de especiais…

    A vida seria chatinha se déssemos conta de tudo.. é uma delicia ver nas pessoas o que elas gostam ou não gostam de fazer e o que fazem ou não fazem bem!

    Viva as diferenças!

    Beijos grandes!

    Tê e Maria ♥

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