uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Sobre irmãos, cuidado e um amor teimoso

vacaciones15_P-311

As filhas vão dormir na casa da amiga. Pergunto para a caçula se quer ir junto. Ela hesita por alguns segundos, depois balança a cabeça afirmativamente, decidida. Antes de me dar as costas, atraída pela brincadeira das outras crianças – estávamos na escola -, ela me diz, tranquilizadora:

– a Naná e a Teté cuidam de mim, mamãe!

Ao que uma das irmãs mais velhas vem puxá-la pela mão, sorridente, como quem diz: “pode deixar, ela está comigo!“. Isso, depois de uma manhã na qual as três passaram o tempo todo se estranhando – pela arrumação do quarto, pela ordem do banho, pelo lugar na mesa do almoço, pelo último pão de queijo do café da manhã, pela roupa para vestir a boneca.

Acho amor de irmão uma das coisas mais bonitas da vida. E das mais inexplicáveis, também. Não se sabe o que é ter um irmão, a menos que se tenha um irmão. É um amor todo particular, entremeado das disputas mais sangrentas pelos brinquedos mais interessantes, pela atenção dos pais que, a despeito dos protestos, continuam sendo apenas um par para duas (ou três, ou quatro, ou mais) crianças.

Eu não tenho a experiência de ser filha única, é bem verdade. Já nasci irmã. Filha caçula, já vim ao mundo sendo a mais nova, irmã do mais velho. E assim crescemos, entre jogos de tabuleiro, segredos compartilhados, memórias – boas e ruins – divididas, brigas de rolar-se no chão entre tapas e abraços compridos a perder de vista – nas horas bonitas, nas horas difíceis, nas horas singulares em que só mesmo um abraço demorado dá conta do tamanho da alegria, ou do tamanho da dor.

E por ter crescido assim, sempre irmã, é que nunca me imaginei mãe de filho único. É bem verdade que a vida nem me permitiu esse devaneio – já que fui mãe de gêmeas, irmãs nascidas juntinho e crescidas na mesma barriga nos mesmos nove meses e pouco, logo de uma vez. Vieram duas, e eu ganhei assim, no susto, esse presente: ver de camarote, todos os dias, o fortalecimento de um amor que é feito de todas as contradições do mundo.

Porque irmão é aquela pessoa que cansa a gente; que desafia todos os nossos limites; que testa a nossa capacidade de suportar, relevar e perdoar; que leva a gente à loucura; que faz a gente aprender que amar é feito de desgostar também, aos pequenos bocados, de vez em quando, deixando sair pelos poros (e pelos cantos da boca, também) o estorvo que é a gente conviver com outro ser humano que bagunça os nossos jeitos de querer que a vida aconteça.

No fim das contas, a gente conviver com um irmão faz a gente aprender uma coisa danada de bonita: que o amor é feito daquilo que deixa a gente contente, que deixa a alma levinha, mas também daquelas raivinhas cotidianas de conviver com um outro que é assim, que nem a gente – todo cheio de defeitinhos, de pequenas-grandes chatices, impossibilidades e limitações.

O irmão – no mais das vezes, porque nessa vida nada é assim tão absoluto e definitivo, e tudo sempre pode ser o avesso do que deveria – é aquela pessoa que faz a gente aprender a amar e estar ali, porque sim. Mesmo quando o outro exaspera tanto que faz a gente querer gritar e sair correndo, bater a porta e não voltar. O amor de irmão ensina a gente a sempre abrir a porta mais uma vez. E outra vez. E uma vez mais.

Quando eu vejo as minhas três meninas, num crescente de gargalhadas estridentes e escandalosas, ao final de um dia em que teve briga, cara amarrada, choro, disputa e alteração, eu penso que o bonito da vida é isso: a gente saber que o amor permanece. Mesmo nas rusgas. Mesmo nos desafinos. Mesmo quando, por ora, a gente não aguenta nem olhar para a cara do outro. E que tudo pode terminar num abraço, num sorriso e num aconchego. Que tudo pode terminar assim: numa noite dormindo fora de casa, um cuidando do outro, o outro cuidando do um.

Se a gente tem sorte, é sempre assim que termina. E começa de novo.

Anúncios

9 comentários em “Sobre irmãos, cuidado e um amor teimoso

  1. Silvana Souza
    16 de outubro de 2015

    Muito bonito o texto. Emocionante mesmo.

  2. Teresa Sobral Rollemberg
    17 de outubro de 2015

    Texto muito, muito bonito! Até concordo… Só que meu irmão e minhas 4 irmãs são perfeitas! Teresa Rollemberg.

  3. Pingback: Links da semana: o amor está nas pequenas coisas | LovePull

  4. Patricia
    8 de dezembro de 2015

    Lindo demais, parabéns pelo texto!

  5. Fernanda Dutra Franco
    10 de dezembro de 2015

    Emocionada com seu texto! Amor de irmão é um dos mais puros e despretensiosos da vida. Perdi meu irmão há 2 anos, 4 meses e 14 dias. Hoje, 00:45 do dia 10/12, meu aniversário, estou aqui acordada, meio que olhando toda hora pro celular… pois ele, era a primeira pessoa que me ligava. O amarei em todas as minas vidas.

  6. Umburana de Cheiro
    11 de dezembro de 2015

    Tive a sorte de ter 05 irmãs e 01 irmão… Entre tapas e beijos crescemos e aprendemos a ser gente… A respeitar o outro, a entender as limitações do outro e suas próprias a entender a necessidade e a beleza do perdão e de dividir o que se tem de bom e as tristezas da vida!

  7. Thyelle
    11 de dezembro de 2015

    Qria ter uma irmã! Quem sabe na proxima vida.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: