uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Todo ser humano é um estranho ímpar *

 

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* texto originalmente publicado no blog Mamíferas, em março de 2012

Temos em casa três meninas muito, muito diferentes entre si. Têm suas similaridades, parecem-se em uma coisa ou outra, mas na maioria das coisas, cada uma tem seu jeito, sua forma, seu tempo. Cada uma vê e vive as coisas a seu modo. Cada uma se movimenta em um ritmo diferente. Cada uma se expressa de um jeito particular. Olham o mundo e vêem detalhes invisíveis aos olhos das outras. São três, mas não se pode agrupá-las em um conjunto. São três pequeninas unidades que não se misturam.

Diariamente, a vida nos empurra de maneira quase irresistível, sugerindo a comparação e o nivelamento. Como se fosse possível alinhá-las, para facilitar o trato. Mas procuro resistir, estar sempre atenta. Quando me escapa uma comparação, logo me esforço para engoli-la de volta, porque sei que não cabe. Mais do que isso: sei que não ajudará em nada, muito pelo contrário.

Lembro-me de quando eu mesma era criança, afogada em minhas idiossincrasias, como todos. Muitas vezes, ouvia tecerem comparações entre meu irmão e eu. Coisas ditas inocentemente, sei bem, sem a menor intenção de causar dano, aliás, pelo contrário. Comentários como “veja o seu irmão, ele é sociável, vai na casa dos amigos, conversa com todo mundo”, eram ditos como tentativa de ajuda, diante de minha personalidade toda voltada para dentro, silenciosa, de ‘bicho do mato’. Mas o efeito era contrário: magoada, eu me sentia inadequada, como se meu jeito de ser, aquele que eu sabia que me pertencia e não cabia transformar, fosse de alguma maneira errado, ruim, ou ao menos pior do que outros.

Comparações são sempre ruins, porque alinham coisas que não devem ser alinhadas, que não se prestam ao nivelamento: pessoas não são linha de produção, não saem da forma umas iguais às outras. Já dizia o poeta, ‘todo ser humano é um estranho ímpar’ *. A beleza da gente é essa: cada um ser um, cada um enxergar o mundo a seu modo, fazer as coisas à sua maneira, aprender no seu tempo, sentir alegria e tristeza de um jeito só seu.

Está aí algo importante, para ensinarmos aos nossos filhos: cada um é como é, e tem todo o direito de ser assim. Em se tratando de seres humanos, não há certos ou errados, não há melhor ou pior – há singularidades. Todos os jeitos de ser são belos em sua unicidade. Todos somos especiais, exatamente porque não há ninguém igual a nós.

Aqui em casa, policio-me sempre, porque realmente não quero me perceber fazendo comentários comparativos entre minhas meninas. Quero poder ter sempre este olhar sobre cada uma, não deixando de dizer o que é importante, tudo aquilo que acho que elas precisam ouvir, mas olhando sempre somente para aquela de que falo, em sua singularidade, sem compará-la com ninguém.

Para as mães de mais de um filho, este há de ser um exercício constante, para a vida toda: resistir ao ímpeto da comparação, enxergar cada um deles como um indivíduo particular, um universo em si mesmo, sem mistura com o outro. Porque quando os olhamos individualmente, presenteamo-lhes a mais bela oportunidade: desenvolver-se inteiramente, alimentar cada uma de suas potencialidades, ser tudo o que ninguém mais pode ser. Cada um de nós, a melhor versão de si mesmo.

* do poema de Carlos Drummond de Andrade / foto: Renata Penna
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