uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Sua majestade, o bebê!

foto: renatapenna.com.br

foto: renatapenna.com.br

Um belo dia, ou uma bela tarde, uma bela noite, ou quem sabe uma bela madrugada, ele chega. E chega revirando tudo de cabeça para baixo, deixando tudo de pernas para o ar. Chega pedindo novas rotinas, trazendo novas demandas, exigindo novas soluções e novos caminhos, para a família toda. E chega encantando também.

Feito um reizinho, ele passa a ser o centro de tudo. Só se dorme quando ele quer. Só se come quando ele quer. Banho, passeio, trabalho, filme na tv, livro, tempo na net, namoro, conversa – tudo depende da vontade dele, tudo depende dele deixar (ou não) que aconteça.

Ele quer peito, quer colo, quer canção, quer carinho, quer presença, quer barulho, quer silêncio, quer família, quer passeio, quer sossego, quer tudo ao mesmo tempo agora, e mais um pouco se puder. Ele quer engolir o mundo, ele tem sede de desvendamento das coisas, e de uma vez só quer descobrir tudo o que perdeu naqueles nove meses de vida no escurinho, no silêncio, no aperto da barriga da mamãe.

É quando aparecem os palpiteiros: “vai virar escrava do seu filho??”, “não faz tudo o que ele quer, senão você cria um pequeno monstrinho!”, “tem que ter disciplina, ensina desde já que as coisas não são sempre como ele quer!!”, “você tem que ser a sua vida, seu filho tem que aprender desde já a respeitar o seu espaço!!”. Todo um rosário de orientações muito assertivas, definitivas – se te pega de surpresa, capaz até de assustar.

Num meio de tarde mais ou menos tranquilo, você olha para ele. Aquelas bochechas rosadinhas, aqueles olhinhos curiosos. As mãozinhas gorduchas agitadas freneticamente no ar, como quem quer pegar o mundo para guardar no bolso. Os sonzinhos agudos, desconexos. O chorinho pedinte. Aquele corpinho roliço, pequenino, tão dependente.

Você tenta encontrar naquela pequena criatura um traço qualquer, um detalhe, algo que anuncie o tão alardeado monstrinho futuro. Mas não encontra: a pele é lisa e macia, sem tons esverdeados, os dedinhos delicados em nada se parecem com projetos de garra, não há um princípio de cauda ou pequenas protuberâncias anunciando chifres no alto da testa.

De susto, ele sorri. E você pensa como está passando rápido – ainda outro dia, ele saiu da barriga para o mundo aqui de fora, e no entanto já se passaram meses, de repente anos. E é tão bom estar presente, é tão bom saborear cada pequeno instante, para guardar no coração a vida inteira. Será mesmo crime inafiançável querer dar a ele todo o colo do mundo, toda a presença, toda a segurança, todo o carinho que precisar, para que quando a hora finalmente chegar, seus passinhos sejam firmes, cheios de alegria e vontade de explorar o mundo?

É. De certa forma, os palpiteiros tinham razão: ele é mesmo um reizinho. Como um pequeno ditador, usurpou seu coração, sem deixar espaço para protestos. E você, muito feliz da sua vida, estende para ele o tapete vermelho, em todos os cantos da sua vida: sua majestade, o bebê.

(* texto originalmente publicado no blog Mamíferas, em nov/2011)
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2 comentários em “Sua majestade, o bebê!

  1. lidicematos
    10 de dezembro de 2015

    lindo!

  2. Raquel
    11 de dezembro de 2015

    Que texto linnnnndo!!!!

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