uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Do amor e das sombras

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– Longe de você, el@ é um anjo!

– Bastou a mãe chegar, el@ se transforma…

– É só com você por perto que el@ se comporta assim, viu?

Levanta o mouse quem já ouviu uma desses comentários, ou mais de um, ou todos eles. Eu já.

Essa ideia de que longe das mães as crianças se comportam melhor parece ser uma verdade de conhecimento comum. Como se ocorresse alguma espécie curiosa de metamorfose: em um piscar de olhos, os mesmos pequenos que, sob os olhares de outros cuidadores, revelam-se tranquilos, ‘bem-educados’, ‘obedientes’ e todo o pacote do que se costuma considerar uma criança ‘comportada’, diante dos pais liberam de uma vez só as demandas acumuladas, muitas vezes em forma de choro, teimosia, birra, questionamentos infinitos e por aí vai.

Eu acredito que seja assim mesmo, e pra dizer a verdade acho lógico. Perto de mãe, perto de pai, é onde a criança se sente mais segura, mais à vontade, inclusive para ser ela mesma, por inteiro: com suas coisas bacanas e chatas, com seus defeitos e qualidades, com as luzes e as sombras que todos temos.

E confesso: não acho isso ruim. Aliás, ao contrário. Do meu canto, fico contente que minhas filhas saibam e sintam que ao meu lado, sob meus olhos e ao alcance do meu abraço, podem ser o que são, sem censura: podem ser ranhetas ou divertidas; tranquilas ou espevitadas; simpáticas ou reclamonas, cordatas ou questionadoras, e por aí vai. Sinto-me satisfeita em saber que elas reconhecem em mim um olhar livre de julgamentos, capaz de acolhê-las pelo que são, e não pelo que eu gostaria que fossem. Se elas não puderem ser o que são por inteiro diante de mim, com toda a liberdade e sabendo que haverá o acolhimento, a compreensão e o respeito, como poderão construir uma autoestima bacana?

Sombras, todos temos. Momentos difíceis, chatos, até insuportáveis. Todos nós precisamos de um espaço em que nossas sombras possam ser acolhidas e respeitadas em sua inteireza, porque é só expondo nossas impossibilidades e limitações, que aprendemos a lidar melhor com elas. E é assim que se amadurece e se torna um ser humano melhor, mais capaz de lidar com o outro, de existir no mundo com equilíbrio e relacionar-se de maneira saudável.

E o outro lado da moeda, é claro, também acontece: diante delas, que são minhas filhas e para quem me entrego sem reservas, eu também exponho minhas sombras. Permito-me ser quem eu sou, e não me escondo sob um manto de perfeição. Faço o meu melhor sempre, mas permito que vejam minhas limitações, meus lados feios. Muitas vezes, todas as nossas sombras se encontram: as delas, as minhas, as do pai. Não são momentos fáceis. Mas do alto de nossas limitações e possibilidades, vamos crescendo junto, aprendemos a nos tocar e acolher da melhor maneira possível. E juntos, lapidamos nossas sombras e aprendemos a aceitar o outro pelo que é, amar e respeitar.

Amor de verdade, daquele que vale a pena a gente sentir e despertar no outro que vive junto, é assim: feito de luz e de sombras. Tudo junto é como fica mais bonito.

(*post originalmente publicado no blog Mamíferas, em fev/2013)
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4 comentários em “Do amor e das sombras

  1. Marga
    15 de dezembro de 2015

    Conheço também ao contrário. Ao lado da mãe é o “bem comportado”. E com os outros um “sem limites”. Parece que essa mãe é rígida. Agressiva e dura com os castigos. Ao mesmo tempo que manipula com frases do tipo: você não me ama. Talvez a criança tenha medo e/ou não queira decepcioná-la.

  2. Camila Colaço
    15 de dezembro de 2015

    Me serviu como uma luva! Vejo agora o lado bom da minha pequena ser tão diferente na minha presença! ❤

  3. Renata Bilhar Lacorte
    15 de dezembro de 2015

    Que texto lindo e que deu um conforto ao meu coração de mãe… obrigada!

  4. there
    15 de dezembro de 2015

    Linda colocação,mim sinto aliviada; porque é bem assim que todos falam do comportamento do meu filho… Sempre tive esse ponto de vista de liberdade de euforia acho que é assim que sentimos quando estamos perto de alguém que amamos,sentimos confiança… Amei o texto muito bom.

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