uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Ser, estar, amar, viver

museuonwheelsP-101

Já escrevi aqui uma vez – mais de uma vez, provavelmente – sobre o lindo (e intenso, e delicado, e importante, e dolorido) aprendizado de, diante das dores de nossos filhos, de seus tropeços ao longo da vida, de suas tristezas, impossibilidades, encruzilhadas, dificuldades, muitas vezes apenas (apenas?) estarmos presentes. Porque tantas, tantas vezes, é só o que podemos fazer. Sem oferecer soluções, sem meter-nos no meio a resolver o que quer que seja, apenas estar ali. Oferecer o colo, a escuta, a presença, o olhar, o abraço. Tantas vezes, é tudo o que se tem para dar. Parece pouco, mas é muito.

Na véspera de ano novo, minha filha entristeceu-se, assim de repente. Foi ficar em um canto, sozinha, cabisbaixa. Perguntei se queria conversar, ela assentiu, e fomos para um lugar silencioso. Ali, no escuro, longe das vistas de quem quer que fosse, ela chorou em meu colo. Chorou as saudades do avô, meu pai, que faleceu há poucos meses.

Sentada no degrau mais alto da escada, tão perto de minha menina que podia sentir sua respiração a me fazer cócegas nas bochechas, senti-me vítima de uma impotência atroz. Eu não podia acalmar sua dor – que aliás, também era minha. Eu não podia estender a mão e, com um carinho, fazer passar a tristeza que lhe invadia o coração. Embora essa fosse a minha vontade, como tem sido sempre, desde o dia em que esta pequena menina veio pousar-me nos braços pela primeira vez, quase onze anos atrás.

Pouco antes da meia noite do último dia de um ano que foi tão farto em despedidas e adeuses que foram somando-se uns aos outros, diante de minha pequena-grande menina que se desfazia em lágrimas, eu me senti também, a um só tempo, pequena e grande. Pequena, pois vítima do mesmo desamparo diante das perdas inevitáveis, das dores que não nos cabem dentro do peito. E grande, porque capaz de olhá-la bem no fundo dos olhos, e compreender que, mais do que a dor, o que nos unia era o amor.

De mãos dadas, olhamo-nos, compreendemo-nos, misturamos nossas tristezas uma à outra, e choramos juntas. Longos minutos, sem palavra. Não era coisa para ser dita – era coisa para ser experimentada, acolhida, recebida sem explicação. Não havia remédio, panacéia ou milagre que extirpasse a tristeza que nos deixava os olhos rasos, e o rosto lavado de lágrimas. Não havia cura para a enormidade da dor – a não ser aceitá-la, vivê-la e, por sorte, compartilhá-la.

Ser mãe é, por vezes, aceitar humildemente que não sabemos tudo, que não podemos tudo, que não damos conta de tudo. Que há coisas, muitas, que nos escapam – à compreensão, à sabedoria, à capacidade de consertar o que há de errado, de feio, de triste ou de dolorido, pelas esquinas da vida.

Ser mãe é, por vezes, aceitar entre lágrimas que pouco ou nada podemos fazer, a não ser oferecermo-nos de corpo, de alma e de sentimento, colocando na ponta dos dedos, em algumas palavras mal organizadas entre os nós que nos vêm habitar a garganta, ou em um carinho desastrado enquanto o coração nos bate tão forte que parece que vai escapar do peito, todo o desejo de compartilhar o imenso da existência humana – seja este imenso todo feito de beleza, de poesia, de encantamento, de medo, de tristeza ou de dor.

Ser mãe é, por vezes, aprender a mudar o verbo: ao invés de fazer, estar; ao invés de saber, ser.

Ontem, estivemos juntas. Fomos juntas. Eu e ela. No cerne de um redemoinho onde amor e dor, mais do que rimar-se entre si, bailam de mãos dadas, rodopiam furiosamente, misturando-se para criar uma coisa nova. Que dói e arranca lágrimas, mas apesar disso – ou talvez por isso mesmo – é bonita, é bonita e é bonita.

 

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