uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Da infância não-roubada

voadorasP-9
Fomos ao cinema, eu e minhas filhas. Elas – as mais velhas, gêmeas, de dez anos, e a mais nova, de seis – resolveram, antes de sair de casa, que levariam consigo suas bonecas. Três delas, cada uma a sua. Escolheram roupinhas e acessórios, colocaram numa bolsinha comum, e lá fomos nós, cada uma com a sua “filha” a tiracolo – e eu com três filhas e três ‘netas’.
 
Estávamos na fila para comprar pipoca, as três brincando entre si e com as bonecas, e ouço uma menina, aparentemente da mesma idade das mais velhas, a comentar com a mãe:
 
– Nossa! Elas ainda brincam de boneca?? Que criancinhas!!
 
As meninas, entretidas que estavam na brincadeira, nem ouviram. E eu, preguiçosa que estava de começar toda uma problematização na fila da bomboniere, fiz que não ouvi. A mãe mudou de assunto, e tudo ficou por isso mesmo.
 
Sim, minhas filhas, aos dez anos, brincam de boneca. E de escolinha. E de mamãe-filhinha. E de ‘show de talentos’. E de lego. E de esconde-esconde, pega-pega, detetive, barra-manteiga, vivo ou morto, jogos de tabuleiro. E jogam futebol. E andam de patins, de bicicleta, de skate, de patinete, de carrinho de rolemã, e adoram uma piscina, e desenhar e pintar, e dormem cada uma com seu bichinho favorito, bem agarrado entre os braços. Brincam, como é o direito da criança. Brincam, que é como a criança experimenta, desvenda, descobre e investiga o mundo.
 
Minhas filhas têm dez anos. Ainda, e não já. E embora nesse mundo todo ao contrário em que a gente vive, meninas e meninos de dez anos (especial e tristemente as meninas, na nossa realidade machista) já estejam sendo aceleradamente inseridos em um contexto todo adulto – sexualidade precoce, uso exacerbado de tecnologias, entre outras facetas tenebrosas da adultização, um fenômeno cada vez mais corriqueiro entre as nossas crianças – , eu fico feliz que elas estejam tendo aquilo que tão poucas crianças têm tido: direito à infância. E a toda a ingenuidade, inocência, pureza e delicadeza que vêm junto.
 
Ser criança não dura pra sempre. Ao contrário, passa num pé de vento. Quando a gente vê, já está alcançando os livros mais altos da prateleira sem esticar os pés, e lembrando dos bons tempos da infância com uma saudade doce que dura o resto da vida. Mas se a gente vive esse tempo lambuzando os dedos, sem pressa de fazer chegar logo no fim, uma parte do que ela tem de mais bonito fica com a gente pra sempre: lá do lado de dentro, a criança sorri e pega a gente pela mão, sempre que a vida fica cinzenta demais, ou difícil de encarar.
 
Que mais crianças possam brincar: de boneca, de mãe da rua, de futebol, de peteca, de queimada. Que a gente apresse menos o tempo, que a gente respeite mais o ritmo dos nossos filhos de existir no mundo: cadenciadamente, experimentando cada coisa a seu tempo, sem pressa de fazer chegar antes da hora a fase que vem depois.
 
É, elas ainda brincam de boneca. Que sorte a minha, quando consigo despir-me das minhas adultices todas, e numa tarde preguiçosa, brincar junto, e ser criança de novo. Todo mundo devia experimentar. Ser ‘criancinha’ de vez em quando cura a gente de uma porção de males.
 
Na sala do cinema, fui eu a primeira a dar pipoca na boca para as minhas “netas”, entre os risos divertidos das minhas meninas.
 
Sejamos menos adultos, mais crianças. O mundo precisa, e agradece.
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