uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Sobre apego, vínculo, empatia e umas coisinhas mais

SescPompeiacilistas-17
Nunca gostei da tradução do “attachment parenting” como ‘criação com apego’. Acho uma ideia falha, limitada e equivocada. Porque apego, na nossa cultura, é uma coisa ruim. Porque apego é diferente de vínculo – este sim, bom, positivo e desejável, de acordo com a forma com que nos relacionamos com a língua.
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‘Criação com vínculo’ seria, talvez, uma boa possibilidade. Mas eu particularmente prefiro ‘criação empática’ – termo que não inventei, li de uma mãe conhecida com umas reflexões muito interessantes.
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Criação empática. Criar com empatia. Criar olhando o outro como um ser dotado desentimentos, de particularidades, e de direitos. sabe aquela frase que diz que ‘o feminismo se baseia na ousada premissa de que mulheres são gente’? Então. A criação empática (ou com vínculo, ou com apego, ou whatever) pra mim se baseia na ousada (e revolucionária, no nosso mundo e nos nossos dias) premissa de que crianças são… gente. Seu filho é uma pessoa. Seus sentimentos importam. Suas necessidades importam. Não importam mais do que as suas, mas também não importam menos – simplesmente, importam. E devem ser respeitados e levados em consideração.
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Pense no interminável de coisas que aceitamos e achamos natural fazer com nossos filhos (e quando digo ‘nós’, estou pensando num coletivo que formamos hoje, como sociedade), e que pensaríamos duas vezes antes de fazer com outros adultos, aos quais concedemos o precioso título de “indivíduo de direitos”: ao lidar com crianças, achamos natural e aceitável não ouvi-las (afinal são pequenas, e não sabem de nada),agredi-las (afinal é com punição e recompensa que se aprende alguma coisa), decidir por elas (afinal nós, pessoas grandes, é que sabemos o que deve ser feito), ignorar suas particularidades e os traços únicos de sua personalidade (afinal criança não tem querer, nem pensar, nem gostar, nem coisa nenhuma até que cresça e ganhe o direito a tudo isso).
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Crianças são pessoas. Diferem de nós no número de anos vividos e no tamanho medido com a régua, e quase sempre na capacidade de olhar o mundo com menos cinismo e mais esperança. De resto, são pessoas. Diferentes entre si, cada uma delas com seus gostos e desgostos, seus talentos e inaptidões, suas valentias e paúras, suas possibilidades e limitações. como. todos. nós.
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Criar com empatia (ou apego, ou vínculo), pra mim, é uma escolha natural. É escolher olhar minhas filhas como pessoas, porque é isso que elas são. Não são minha propriedade, não são uma extensão daquilo que eu sou – elas vieram ao mundo por mim, mas não são minha propriedade e não me continuam. Têm sua própria história, e a mim, cabe respeitá-la.
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Se eu trato minhas filhas com respeito, procurando ouvi-las, acolher seus olhares e impressões sobre as coisas da vida, levando em conta suas opiniões, seus sentires, suas necessidades expressas, é porque acredito sinceramente que é assim que todo ser humano merece ser tratado. Respeito não é coisa optativa, ou não deveria ser. Respeito é o direito básico de todos nós – inclusive (oohhh) das crianças.
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Eu não quero viver em um mundo onde as crianças não têm voz, porque me agride um mundo onde qualquer ser humano não tenha voz. Porque o respeito, ou é para todos, ou não será para ninguém. Porque o que me encanta é viver junto, é viver com. E para isso, é preciso aceitar que o outro, em sua diferença, é igual a mim – e devo tratá-lo como quero ser tratada, da forma como todos merecemos.
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É por isso que ‘criar com empatia’ (ou com apego, ou com vínculo), pra mim, não tem nada a ver com uma lista qualquer de escolhas pré-determinadas, mas com uma mudança da qualidade do olhar. Tem a ver com respeito. Com presença. Para criar com empatia, você não precisa amamentar por x meses, ficar com a criança em casa até x anos, carregar desse ou daquele jeito, dormir junto ou dormir separado, ou qualquer outro item deste checklist virtual da criação com apego. Você só precisa estar presente. Olhar, cuidar. Com atenção, respeito e amor. Precisa escutar. Estar atenta para o que seu filho precisa, e encontrar caminhos possíveis dentro da realidade de vocês, para que isso seja atendido da melhor maneira. Perceba: não da maneira mais perfeita – apenas, da melhor maneira. Da melhor maneira possível para vocês.
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Às vezes, diante de tudo o que se discute sobre maternidade, paternidade e criação de filhos, parece que existem apenas dois extremos: um, aquele no qual a criança é ocentro absoluto de todas as coisas, e eu, adulta, preciso ceder às suas vontades e necessidades 100% do tempo; outro, aquele no qual eu, adulta, sou o centro absoluto de todas as coisas, e a criança precisa ceder às minhas vontades e necessidades 100% do tempo. Interessa-me neste caso o caminho do meio – e é aí que, pra mim, situa-se a criação empática: não somos o centro do mundo, nem eu, nem a criança. Somos ambos pessoas, indivíduos, merecemos atenção, respeito. Como vamos encontrar, juntos, um caminho que atenda às minhas necessidades e às dele, que satisfaça as minhas vontades e as dele? Que concessões ambos faremos? São estas as perguntas que me movem, norteiam e ajudam a decidir, todos os dias.
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Relação a dois – seja qual for – é olhar cuidadoso, é atenção mútua, é respeito recíproco. Por que nossos filhos mereceriam menos do que isso?

 

 

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Publicado em 21 de janeiro de 2016 por .
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