uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Das dores desnecessárias

gemeasmamandoHoje à tarde, fui gravar um depoimento para um documentário sobre aleitamento materno. Falei sobre a minha experiência para amamentar as filhas mais velhas, gêmeas, quase onze anos atrás. Falei sobre a longa peregrinação por (meia dúzia de) consultórios de pediatria onde eu, invariavelmente, ouvia comentários de desestímulo ao aleitamento exclusivo, afinal, “amamentar gêmeos é impossível, você não vai conseguir”. Falei sobre a dor de prosseguir sozinha. Falei sobre o despreparo dos pediatras para lidar com mães que querem e lutam para amamentar seus filhos sem a ajuda do leite artificial.

E, falando de tudo isso, lembrei desse texto, que escrevi quando assisti pela primeira vez o documentário “Violência obstétrica: a voz das brasileiras” (o link está no final do post, para quem se interessar). Lembrei, e quis compartilhar. Porque em quase onze anos, a situação não mudou muito – na verdade, acho que não mudou quase nada. E isso é muito, muito triste.

“Não pude assistir o vídeo de uma vez só, do começo ao fim. Parei a reprodução repetidas vezes, para beber um copo de água, para enxugar as lágrimas, para acalmar os soluços, para respirar fundo e juntar valentia para seguir adiante. Uma após a outra, corajosas mulheres mães expõem suas feridas, contam histórias duras, tristes, doloridas – e o que é pior: desnecessariamente duras, tristes e doloridas.

A realidade da violência obstétrica no Brasil – bem como em muitos países deste mundão – é vergonhosa, inaceitável. É urgente que acordemos para ela, para que mais mulheres não passem pelo que tantas vêm passando, muitas vezes em silêncio, resignadamente. Para que mulheres não sejam mais desrespeitadas naquele que deveria ser um dos momentos mais especiais e memoráveis de uma vida: a chegada de um filho. Para que mais bebês não sejam recebidos neste mundo sem ter direito a um mínimo de respeito e dignidade – que aliás, nem deveria ser um mínimo.

A mim, curiosamente (mas oportunamente, como se compreenderá adiante), a história que mais me tocou não estava diretamente relacionada ao parto, nem ao nascimento. Dizia respeito à amamentação. Uma mãe que compartilhou seu relato de violência, contando como esteve perto de um desmame com sua filha, por ter sido explicitamente (e equivocadamente) desencorajada a amamentar pelo profissional que, ironicamente, deveria ter sido naquele momento fonte de incentivo, informação e segurança.

Este relato me comoveu profundamente. Ao ouvi-lo, as lágrimas que já me escorriam pelo rosto tornaram-se mais abundantes. Sem conter a emoção, chorei compulsivamente por uns bons minutos, a ponto de soluçar. Compreendi a dor daquela mãe, porque ela também foi a minha. Diz ela no vídeo: “eu amamentei a Sofia. foi muito emocionante. mas eu tive que fazer aquilo sozinha”. Eu também, para amamentar minhas filhas, tive que fazer isso sozinha – e sei bem o quanto isso pode ser dolorido.

Quando dei à luz minhas meninas mais velhas, gêmeas nascidas a termo (sem, portanto, qualquer complicação possivelmente derivada da prematuridade), logo após o turbilhão do parto e da volta para casa em uma situação inteiramente nova para mim, então mãe de primeiríssima viagem, as dificuldades com a amamentação começaram a aparecer. Uma das bebês tinha dificuldades com a pega, mamava de forma ineficaz e por isso se irritava muito no peito. Era um processo estressante, quase desesperador. Eu sabia que amamentar gêmeos era possível, havia me informado a respeito, colhido informação. Mas eu precisava de apoio, de acolhimento, de incentivo e orientação. Se eu tivesse tido tudo isso, a história teria sido mais fácil, e menos angustiante.

Eu não desisti. Como para a mãe de Sofia, que compartilha sua história no vídeo, amamentar era muito importante para mim. Eu não estava preparada para entregar os pontos, e por isso fiz (fizemos, marido, eu e filhas) uma verdadeira peregrinação por consultórios de pediatria, ao longo do primeiro mês de vida das meninas. Alguns eram pediatras de convênio, outros particulares – o que não fazia nenhuma diferença no atendimento equivocado e desinformado que recebíamos. Ao invés de incentivar o aleitamento, orientando quanto à pega e às dificuldades e valorizando meu esforço para não recorrer ao complemento artificial, que certamente seria o primeiro passo para o desmame, um após o outro, todos desencorajaram quaisquer tentativas e/ou alternativas que eu ensaiasse propor, desincentivando abertamente minha persistência e recomendando sem mais conversa o complemento porque, afinal, “amamentar dois bebês é impossível, você não vai conseguir”. Depois de cada uma destas consultas, eu voltava para casa sentindo o peso do mundo sobre minhas costas. Chorava copiosamente, embalando minhas filhas. Apertava-me o peito uma mistura explosiva de tristeza, frustração, medo, insegurança, raiva e confusão.

Não, eu não desisti. Embora compreenda quem desista, diante das mesmas circunstâncias, que sei melhor do que ninguém quão áridas e dolorosas podem ser, eu não desisti. Aluguei bomba de leite, com a qual ordenhava entre uma mamada e outra. Dediquei-me exaustiva e obstinadamente ao trabalhoso processo de ‘ensinar’ à bebê a pega correta, eficiente – cada mamada exigia um demorado período de preparação, conversa, acalanto, para acalmá-la e fazê-la iniciar a mamada sem sobressaltos e irritações para que fizesse a pega adequadamente, o que consumia os intervalos entre uma mamada e outra (já que, quando ela se dava por satisfeita, a irmã já queria mamar novamente) e me deixava praticamente o tempo todo dedicada a esse processo de resgate do aleitamento.

Finalmente, tive a preciosa orientação de uma consultora de aleitamento – com quem estabeleci tamanho vínculo, que acabou por ser minha parteira quatro anos depois, no nascimento da filha caçula. Enfim a orientação correta e atenciosa pela qual eu havia ansiado, desde os primeiros dias de vida de minhas filhas. Foi nosso divisor de águas: depois desta valiosa consultoria (à qual infelizmente nem todas as mulheres têm ou poderiam ter acesso), meus esforços começaram a dar frutos, e com pouco mais de um mês de vida das minhas meninas eu amamentava as duas sem mais stress e sem dificuldades, apenas com muita alegria e um amor do tamanho do mundo – e ainda estocava leite, nada mau para quem ‘jamais conseguiria produzir leite suficiente para alimentar duas bebês”.

Eu consegui. Minha história teve um ‘final feliz’, as coisas se encaixaram afinal. Entretanto, houve muita dor e muita angústia ao longo deste caminho, dor e angústia que não consigo deixar de pensar que talvez tenham sido totalmente desnecessárias. Todas as noites de choro com bebê no colo, as lágrimas silenciosas (ou nem tanto) ao colocar a cabeça no travesseiro, as dúvidas doloridas, a devastadora solidão diante das dificuldades – tudo isso poderia ter sido evitado, se eu tivesse tido orientação correta, cuidadosa, do primeiro profissional que me atendeu. Mas eu não tive, e isso também é violência. Porque se priva um bebê e uma mãe do melhor que eles poderiam ter – e se isso não é violento, eu realmente preciso ir ao dicionário para reaprender o termo.

A violência obstétrica não se resume ao parto, ao nascimento. Talvez tenhamos que dar a ela outros nomes: ‘violência pediátrica’, por exemplo. Mas mais importante do que nomear, é combater. Empunhar esta bandeira apaixonadamente, em uma luta para que tenhamos em nossos hospitais, clínicas e consultórios profissionais verdadeiramente preparados para lidar com gente, com sentimentos, desejos, sonhos e expectativas, para atender e orientar corretamente quem deseja apenas fazer aquilo que lhe é (ou deveria ser) natural. Do fundo do coração de quem já sentiu na pele o efeito de violências como estas, espero e anseio que a divulgação deste vídeo, que o compartilhamento de tantas histórias tristes, doloridas, angustiantes, possa nos fazer acordar enquanto sociedade para esta inaceitável realidade: a violência ‘silenciosa’ praticada por profissionais que deveriam ter por premissa básica “jamais causar dano”.

Já dizia o filósofo que ‘o que não nos mata nos fortalece’, e é bem verdade – posso dizer por mim, que saí com minhas convicções e posições fortalecidas desta experiência toda. Meu ativismo, aliás, talvez tenha nascido ali. Mas vale lembrar que nem todas as experiências de uma vida precisam ser vivenciadas desta forma: dolorosamente, com lágrimas, tristeza e luta. Porque melhor que aprender pela dor, é aprender pelo amor – e é essa verdade que precisamos espalhar aos quatro ventos, com força e coragem.”

(link para o documentário ‘Violência obstétrica: a voz das brasileiras’:https://www.youtube.com/watch?v=eg0uvonF25M)

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