uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Das escolas que dão asas

 

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Ontem, no caminho para a escola, ouvi das minhas filhas mais velhas – gêmeas de onze anos – uma longa e apaixonada explanação sobre a vida e os feitos de Malcolm X, Martin Luther King e Antonieta de Barros. Elas me contaram coisas que eu mesma não sabia.
Eu fico muito contente em saber que, aos onze anos, minhas filhas estão aprendendo sobre racismo, movimento negro e resistência. Há quem acredite (e eu já ouvi e continuo ouvindo muito isso, “mas e quando elas quiserem prestar vestibular???”) que elas deveriam estar recitando de cor as capitanias hereditárias.
Eu, ao longo da minha vida escolar, tive uma formação engessada, estéril, desconectada da vida real e dos meus interesses sobre o mundo que me cercava. Aprendi que o Brasil foi ‘descoberto por acaso’ em uma viagem às Índias, e que os portugueses ficaram maravilhados com a exuberância da terra quando aqui chegaram, neste lugar onde “em se plantando tudo dá”. Mas não aprendi sobre a violência do processo de colonização, sobre o genocídio do povo indígena – do qual sou diretamente descendente, já que minha avó paterna era índia de uma tribo acreana (pouco ou nada aprendi sobre a história do meu próprio povo, portanto).
Na escola, aprendi a reconhecer uma oração subordinada adverbial consecutiva, mas quando uma redação me era dada como tarefa e eu, que sempre fui enamorada da expressão pela palavra escrita, aventurava-me criativamente pelas infinitas possibilidades que a língua me oferecia, aliada ao meu intenso universo particular de criança cheia de intensidades e sentimentos muito profundos, recebia de volta um bilhete da professora, avisando-me que eu “fugira do tema”, e por isso a nota não havia sido tão alta.
Eu aprendi na escola a declamar os afluentes do rio amazonas (e sei fazê-lo até hoje), a desenhar o mapa do Brasil à mão livre (e o fazíamos na lousa, diante de toda a classe, em um processo que para nós muito se assemelhava a uma sessão de tortura), mas pouco ou nada me foi dito sobre as populações ribeirinhas, sobre a realidade dos retirantes, sobre o sofrimento das famílias à mercê da seca no nordeste, sobre a riqueza das manifestações culturais espalhadas por esse Brasil que vai tão além do eixo sudeste-sul.
Eu aprendi na escola a resolver rapidamente uma equação de segundo grau, mas nada escutei sobre violência de gênero, sobre a opressão da mulher em uma sociedade machista e preconceituosa, sobre equidade, sobre o movimento feminista.
Eu tive uma educação morta. Criada em estufa, sem quaisquer lufadas de ar fresco para me manter acordada, desperta, disposta a construir um aprendizado significativo pelas minhas próprias mãos.
Minhas filhas vivem a escola como vivem a vida: de olhos bem abertos, com o coração envolvido em tudo o que fazem, aprendendo a conhecer o mundo tocando com a ponta dos dedos, saboreando com a língua, experimentando com cada parte do corpo e com cada pedacinho da alma.
Todos os dias, eu reafirmo a minha escolha por uma educação libertária. Já dizia Rubem Alves: ‘há escolas que são gaiolas, e escolas que são asas’. minha felicidade é ver minhas filhas agitarem suas asas, desordenada e intensamente, todos os dias.
Porque o que elas têm dentro de si para oferecer ao mundo é precioso demais para permitir que morra à míngua, longe do sol, do vento, da vida, e de tudo aquilo que pulsa, transborda e transforma.
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2 comentários em “Das escolas que dão asas

  1. Cacau
    3 de junho de 2016

    Olá, estou procurando uma escola assim para meu filho.. Ele cursou os primeiros anos em uma escolinha assim mas agora que foi para o 2o ano está numa escola antiquada, embora a proposta tenha sido outra. Onde suas filhas estudam? É muito difícil viver esta transição, especialmente pq ele esteve em uma escola muito diferente, que dava asas e que estimulava a aceitação da diferença, mais do que isto, que ensinava que o normal era ser diferente.

  2. Thaís
    4 de junho de 2016

    Por favor, onde suas filhas estudam, Renata?

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