uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Seu corpo, suas regras (e três pares de brinco)

DANCE-5
Ontem pela manhã, aos 11 (as gêmeas) e aos 7 (a caçula) anos, minhas três filhas tiveram suas orelhas furadas.
Por escolha própria. Decidiram, pediram, insistiram. Quiseram, e foram até o fim. Não rolou arrependimento, não rolou dúvida. Foi uma decisão pensada e repensada, conversada, e tomada (por elas) de coração tranquilo. Eu apenas respeitei, porque era o que me cabia.
Eu não tive as minhas orelhas furadas, quando bebê. Furei, também por iniciativa própria, quando tinha uns nove ou dez anos. Lembro vividamente da experiência. E é bacana poder lembrar. Sobretudo, é muito bacana saber que a decisão foi minha: meu corpo, minhas regras.
Perdi a conta de quantas vezes ouvi, ao longo da vida delas: “mas vão confundir com menino!” (oi? e isso afeta a vida delas como, mesmo?); “mas bebê sente menos, em criança dói mais!” (oi? alguém já tomou a declaração pós-furo de um bebê atestando que não sentiu coisa alguma, ou é só a nossa arrogância adultista mesmo, outorgando-nos o direito de falar sobre sensações que não vivemos?); “mas é cultural!” (oi? já parou pra pensar que o questionamento dos condicionamentos culturais é o que move a humanidade a evoluir – não tão rápido quanto gostaríamos, infelizmente, mas ainda assim – ?); “mas fica tão bonitinho!” (oi? que tal um papo sobre machismo, padrões opressivos de beleza e objetificação da mulher?). Fiz ouvidos de mercador, algumas vezes tentei debater o conceito, e segui em frente.
Minhas filhas não são uma extensão de mim. São seres independentes, pessoinhas autônomas, livres. Dependem de mim para muitas coisas – e a cada dia menos -, mas para todas aquelas em que já podem caminhar sozinhas, é condição sine qua non, pra mim, permitir que o façam. Uma intervenção definitiva no corpo delas deveria ser tomada por elas, não por mim. Há decisões que são urgentes e necessárias, não podem ser adiadas e, não tendo a criança maturidade suficiente para tomá-las, os pais o fazem por ela. Isso é óbvio. Mas colocar um adorno estético para “embelezar” a criança não é uma decisão urgente, nem tampouco necessária. É uma escolha, que pode ser feita mais tarde, por quem é de direito.
Isso também ensina sobre consentimento: não é meu corpo, não sou em quem decide. Empoderamento, autonomia, direito inalienável sobre o próprio corpo, são mais do que teorias bonitas: elas têm que virar atitude, na vida cotidiana, nas decisões que tomamos todos os dias. Essa é a minha busca, desde que me tornei mãe (não sou perfeita, certamente, mas procuro estar sempre atenta e pronta para refletir e aprofundar, e me nego a permanecer na superfície das coisas, tomando decisões “porque sim”).
Ontem, no final do dia, tínhamos aqui quatro meninas felicíssimas com as orelhas enfeitadas, confabulando sobre os tipos de brinco que iriam querer usar, e se o fariam sempre, ou só de vez em quando. Fizeram seus furos aqui em casa (procuramos uma profissional com atendimento domiciliar), junto da prima, ao lado da madrinha, em um ritual familiar muito divertido e simbólico. Tenho certeza que elas se lembrarão dessa experiência, toda cheia de significado e desafios, para o resto da vida.
Corpo delas, regras delas.
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Publicado em 26 de julho de 2016 por .
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