uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Sobre amamentar em tempos indóceis, ou: a arte de matar um leão por dia e (quem sabe no futuro) sair linda na foto

amamentandocachadaco-1

Daí que ontem eu postei aquelas fotos (lindas, aham) da minha história de amamentação com as três filhas (no meu perfil pessoal do facebook), e fiquei pensando que pra quem olha, assim de passagem, pode parecer que foi tudo pura poesia, leveza e doçura.

Mas olha, não foi.

Amamentar é bom pra c***lho (ou pode ser), mas é quase sempre um processo de arregaçar as mangas, correr atrás, construir um vínculo, trabalhar muito pra chegar naquela foto linda, peito de fora, mãe sorridente, bebê plugado e a luz do sol entrando pela janela (ou por entre as pedras de uma piscina natural, como na foto aí de cima).

Para algumas duplas mãe-bebê, é natural: pôs no peito, mamou, foi pra galera, felizes para sempre. Mas eu arrisco dizer que isso é exceção e não regra, especialmente quando a gente vive numa sociedade que desacredita a capacidade da mulher de alimentar seus bebês, que duvida da fisiologia, que desempodera, que não oferece suporte, apoio nem informação adequada para que a mulher amamente com tranquilidade e confiança, sem medo e sem sofrimento.

Amamentar minhas filhas mais velhas, gêmeas, teve menos a ver com estar linda e plácida estilo comercial de margarina e mais a ver com matar um leão por dia, driblar uma meia dúzia de onças, lutar com umas jaguatiricas e ainda cruzar uma ou duas capivaras raivosas no comecinho da noite.

Foi dureza. Foi exaustivo. Foi foda. Exigiu de mim o que eu tinha e o que não tinha pra dar (ou tinha, como ficou provado, mas não sabia). Foi um longo e sinuoso caminho de empoderamento pessoal, de construção da confiança na natureza, de estabelecimento do vínculo, de proteção de uma experiência que era nossa, e precisava ser construída entre nós três – eu e minhas duas meninas mamonas. Foi uma caminhada árdua e trabalhosa de enfrentamento pessoal, de superação das minhas limitações (ou daquelas que eu achava que eram as minhas limitações), medos, inseguranças. Foi uma longa jornada em busca de informação de qualidade, de apoio, de suporte afetivo, logístico, de uma rede de apoio que me permitisse me dedicar totalmente àquele momento único, incrível e tão importante.

Amamentar, pra mim, foi a primeira grande prova de resistência da maternidade. E me preparou maravilhosamente para todas as outras (muitas, sabe de nada inocente) que vieram depois (inclusive para a amamentação da terceira, que foi sussa, mamão com açúcar, sopa no mel – gente, eu tinha sempre um peito vago, quem nunca amamentou gêmeos não sabe o tamanho desse privilégio).

Então, eu acho que é importante a gente dizer isso sempre: amamentar pode ser uma experiência linda da qual é bem possível que você sinta uma saudade danada depois, mas dificilmente vai ser uma história feita só de sorrisos. Tem dor, tem cansaço, tem privação de sono, tem tristeza, tem dúvida, tem ansiedade, tem medo, tem irritação.

E tem uma solidão do caramba – porque mesmo com a rede de apoio mais poderosa do mundo (mais do que fundamental para que mais mulheres possam amamentar, bom dia comunidade), se tem uma coisa que ninguém, mas ninguém mesmo, pode fazer por você, é amamentar o seu bebê. Isso é o mais foda de tudo.

Ah, é. O mais lindo também.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: