uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Das coisas tão mais lindas

boacavajul16-143

“A mim, ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas,
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.” *

Que coisa doida essa, da gente ver um filho crescer.

Eles nascem pequeninos, vêm de dentro da gente, conhecendo das nossas entranhas, sabendo da gente por dentro. Chegam ao mundo nos cabendo inteirinhos por entre os braços, trazem consigo um amor que transborda do coração, tamanha a grandeza, a força, a imensidão, a boniteza.

No começo, eles olham pra gente com os olhos arregalados tão cheios de um amor devoto, quase fanático. Somos um mundo inteiro. Podemos tudo, sabemos tudo, temos o controle de tudo. Nada parece grande demais para o tamanho que temos – ou para o tamanho que eles acreditam que temos. Não eram os deuses astronautas? Não, eram mães.

Eles nos tocam com suas pequenas mãozinhas curiosas, sedentas. Amam-nos com uma generosidade que nos perdoa tudo: falhas, limitações, tropeços, ridículos. Acolhem as nossas faltas com a mesma doçura com que aplaudem nossos acertos, e ruidosamente sugam da gente tudo aquilo que a gente tem (e até aquilo que a gente achava que não tinha, mas encontra): tempo, disposição, paciência, entrega, delicadeza, toque, atenção, olhares, carinhos, cuidado, amor amor amor amor.

Num dia, mal sabem se virar de posição sem berrar (a plenos pulmões) por uma ajuda misericordiosa, no outro estão ensaiando os primeiros passos, agarrados ao primeiro objeto que parecer (mais ou menos) firme. Depois falam, juntam palavras, formam frases, tecem pequenas lindas filosofias sobre as coisas do mundo que nós há tanto tempo tínhamos deixado de enxergar. Apontam-nos pedras, flores, pássaros, nuvens – e aprendemos de novo a ver pedras, flores, pássaros, nuvens.

Saem correndo, apesar dos perigos. Riem-se dos riscos, querem engolir a vida aos bocados, sem mastigar. Saem das fraldas. Vão para a escola. Fazem amizades. Descobrem que o mundo é grande, muito grande, imenso. Derrubam as porteiras. Querem ir adiante, lá onde a vista não alcança, mas o coração sim. O coração, sempre.

Ficam grandes, e se acham maiores ainda. Descobrem-se. Tateiam-se no escuro do mundo, aprendem, amadurecem. Querem pensar por si, desejar por si, caminhar por si. E vão. Com ou sem as nossas mãos por sobre seus ombros – ou apesar delas. E se tivermos sorte, estaremos ali. A contemplar. A admirar. Tão de perto quanto a vida permita – e quando de longe, tão ao alcance quanto o coração seja capaz de sentir. E ele é. O amor é uma coisa incrível. Traz pra junto sem mover um milímetro.

Eles nascem pequeninos. Ou não. Corrijo-me: eles parecem pequeninos quando nascem, mas são gigantes. Muito grandes naquilo que sabem e sentem, no jeito desmedido de amar generosamente, sem qualquer artifício.

Eles crescem. Mas de um jeito ou de outro, vão nos caber sempre, inteirinhos, por entre os braços. Porque é ali que fica o coração.

 

(Fernando Pessoa/Alberto Caieiro, in: O guardador de rebanhos – VIII)

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Um comentário em “Das coisas tão mais lindas

  1. velacerda
    26 de setembro de 2016

    Muito lindo esse texto. ❤

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