uma vez mamífera

… sempre mamífera.

Das contas que a gente não deveria estar fazendo

meninaspisci
Dia desses eu li alguém dizendo que maternidade é 1% amor e 99% preocupação, e só consegui mesmo lamentar. Pela pessoa por viver dessa forma, pelxs filhxs dela sendo criados nessa atmosfera, e pela tristeza desse discurso sendo reproduzido pelo mundo afora.
 
Ter filhos, cuidá-los, não é fácil. Ninguém disse que era fácil (eu acho, se alguém já disse, eu nunca li nem ouvi). É trabalhoso, é pauleira, cansa, exige da gente, revira a gente do avesso. Mas fácil não é sinônimo de bom, assim como difícil não é sinônimo de ruim. Aquilo que mais exige da gente muitas vezes traz uma contrapartida: faz a gente crescer, molda a gente e faz com que se saia lá na frente alguém melhor, maior, mais capaz, mais inteiro diante do mundo e de tudo o que se pode ser.
 
E eu não digo com isso que maternidade (e paternidade) deveria ser compulsória, que todo mundo deveria experimentar, que não se pode passar essa vida sem (eu não poderia, mas digo isso de um lugar de fala muito particular, de uma vivência que é somente minha e jamais me atreveria a usar a minha régua pessoal para medir a experiência de alguém que não sou eu). Digo apenas que, quando se é mãe (ou pai), quando o filho nasceu e está no mundo diante dessa experiência infinita que é a vida, quando decidimos cuidá-lo da melhor maneira possível, é uma lástima que não haja a disposição de ter olhos, ouvidos, braços e coração abertos para toda a maravilha de estar, ver, cuidar, acolher, ensinar e aprender (é, porque a gente aprende tanto quanto ensina, talvez mais – eu acho mesmo que mais).
 
Maternidade não é mar de rosas, não é arco-íris, não é foto de catálogo com bebê sorridente e mãe impecável tomando café da manhã (quem é que consegue uma mesa de café da manhã com bebê pequeno né mores), mas isso não é – ou não precisa ser – um problema, ou um motivo de lamentação e negação da experiência. Ser mãe revira, bagunça e desafia a gente, e se a gente tem maturidade para encarar as mangas arregaçadas (nos sentidos literal e figurado) ao invés de bater o pé querendo que seja tudo lindo e fácil e suave e feito de sorrisos o tempo todo e se não for sair fazendo bico e dizendo que assim não queria brincar mais, a gente consegue fazer um trabalho bem bacana, de mãos dadas com a cria, e ainda se divertir um bocado no processo.
 
Ter filhos não é a chave da felicidade. Como namorar, noivar, casar, também não é. Nem encontrar o emprego dos sonhos. Nem viajar pelo mundo. Todas essas coisas podem fazer a vida bem bacana, mas nenhuma delas vai ser só alegria o tempo todo, porque nada é. Em tudo isso, tem suor, tem tropeço, tem desvio, tem tentativa e erro, tem cansaço e vontade de desistir. E tem sorriso no rosto, tem brilho nos olhos, tem aquele quentinho no coração de sentir que se está onde deveria estar, e tem aqueles momentos (que passam rápido, vê se aproveita) em que você vai parar e pensar: “cara, eu viveria esse exato momento para o resto da minha vida, isso aqui tá bom demais”.
 
Filhos não vão te fazer feliz, nem te trazer realização ou a sensação de ter “vencido na vida”. Não é disso que se trata (e não é pra isso que eles estão no mundo, sempre bom lembrar). Ser feliz é coisa que depende da gente, de algo que a gente constrói consigo mesmo diante da vida de todos os dias, diante das coisas possíveis, do que nos acontece e do que fazemos com o que nos acontece, e não é responsabilidade de ninguém fazer isso por nós. E não se engane não: tem mais a ver com o processo e como a gente encara cada passo de cada dia do que com qualquer objetivo de vida que a gente alcance (coloque aí ter filhos, acumular um milhão – tem quem queira né? -, conhecer todos os países do mundo ou qualquer outra coisa que se possa desejar muito).
 
99% preocupação? eu diria 100% transformação. e 100% amor. E 100% doideira, pauleira e punk rock. E 100% interrogação e descoberta. E 100% inteireza e crescimento e alegria. É, assim, somando além da conta e desafiando a matemática. Porque colocar no mundo um filho e ver crescer, como todas as coisas lindas e mais valiosas da vida, escapa daquilo que a gente pode medir, etiquetar e contabilizar. E sabe, ainda bem.
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